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E eu fiquei preso no Chile

Sunday
10/May/2009

Acho que ficou claro, pelos posts anteriores, que eu adorei o Chile! E foi recíproco. O Chile gostou tanto de mim que não me deixou sair. Fiquei preso lá por dois dias!

Não, não fui pra cadeia no Chile. O que aconteceu foi que… Bom, deixe-me terminar essa parte final do relato da viagem ao Chile, que eu chego lá!

Então, o último lugar da minha lista que faltava visitar era o Parque dos Quadrinhos. Mas, quando cumpri essa missão, aproveitei a relativa proximidade para conhecer também o Parque O’Higgins . Não é o local mais bonito da cidade, mas é como se fosse o Parque Barigui em Curitiba: é pra lá que todo mundo vai no final de semana.

parque

Uma pequena parte do Parque O’Higgins, com a cordilheira ao fundo

O parque proporciona muitas opções de lazer, incluindo museus, palcos para espetáculos e quadras esportivas. Uma coisa bem família. E vi mais casaisinhos jovens deitados abraçadinhos na grama. Ou duplas de, humm, “boas amigas”.

ginasio

Ginásio dentro do Parque

E lá eu presenciei uma facção da única gangue de arruaceiros que eu vi no Chile todo. São terríveis! Ficam perambulando pelo parque atazanando todo mundo, passando por cima de toalhas de piquenique e promovendo surubas na cara dura! Sim, surubas . Uma pouca-vergonha só!

Refiro-me à terrível gangue dos cachorros chilenos ! É impressionante como tem cachorro de rua naquele magérrimo país. Eles andam em grandes grupos e não há quem os detenha. Felizmente não presenciei nenhuma maldade contra eles.

Presenciei, sim, cenas hilárias. Como quando um grupo de cães invadiu um shopping driblando os seguranças. Confesso que foi divertido ver os caras na indefinição, sem saber se corriam atrás dos cães dentro da loja ou se mantinham seu posto na porta. O mesmo acontecia dentro das grandes lojas, como a Fallabella, uma espécie de C&A de lá. Todo mundo levando belíssimos “olés” da gangue.

E, claro, os cães me fizeram cometer uma gumpice. Saindo de casa, pisei em algo. Quando vi, gritei:

- Que merda!

Literalmente, merda. O chão de La Florida é um verdadeiro campo minado pelos arruaceiros quadrúpedes. Mas como eu iria andar bastante, não esquentei tanto. Limpei como deu, e o resto sairia automaticamente durante a longa caminhada.

E isso aconteceu. Já à noite, perto de casa, olhei o tênis e não havia nenhum vestígio visível do incidente da manhã. Andei mais um pouco, e…

- Que merda!!

Sim. Eu havia pisado em outra “mina”!

Mas nem só de minar o terreno vivem os cães de rua chilenos. Um deles comoveu todo o país ao socorrer um colega que havia sido atropelado numa autopista. Veja:

Na manhã seguinte rumei para a Rodoviária. Como dividi um táxi com minha amiga, cheguei bem cedo. Até fiquei feliz em não pegar o metrô, pois já era especialista nele. E também havia adquirido um vício bem retardado: tentar pronunciar o nome da minha estação da mesma maneira que o “maquinista”. Los Quillayes. Los Quillayes. Los Quillayes. Não tem como falar isso sem parecer que tomou uma anestesia em toda a boca.

No táxi, o motorista puxou conversa, ao perceber que eu era brasileiro. Ele havia morado muito tempo por aqui. Em menos de um minuto de conversa, ele pediu para falarmos em português. Senti, mais uma vez nessa viagem, aquela entonação de “pare de tentar falar ridiculamente o espanhol!”.

O motorista contou emocionado sua história, como chegou sem nada e construiu uma vida aqui, tendo inclusive um filho brasileiro. Mas a saudade da sua terra o fez voltar quando a era Pinochet chegou ao fim, decisão da qual mais tarde ele se arrependeria. Já o filho brasileiro deixou santiago depois de adulto, indo morar em Sampa, onde acabou sendo assassinado. Uma história triste, mas contada sem ressentimentos, sempre com muito carinho pelo Brasil.

Depois de uma longa corrida e um papo que tomou rumos mais alegres, cheguei à rodoviária, e fiquei esperando. Finalmente chegou a hora de embarcar. Já estava ansioso para conhecer a Argentina!

Então, a notícia: todas as viagens internacionais estavam canceladas! Motivo: um “paro” (greve) dos funcionários públicos chilenos! Ou seja: fronteiras fechadas!

Foi uma notícia arrasadora. Eu já tinha visitado, no Chile, tudo que eu queria ali por perto. Se a fronteira não abrisse logo, eu teria que mudar todos os meus planos de visitar a Argentina. Teria que rumar para o norte, rumo ao Atacama, ou para o sul, na Patagônia. Não seria ruim, mas não era o que eu queria no momento. Nem me liguei na hora que eu poderia tirar um dia para conhecer melhor a cidade de Los Andes, bem mais perto. Quem sabe, até presenciar o Incrível Campeonato de Cueca!

Então passei mais dois dias na capital, esperando. Aproveitei para conhecer mais a culinária (eufemismo para “comer muito”), e botar o cinema em dia. Conheci o Parque Arauco Mall, o “Shopping dos Turistas”. Era a maior concentração de não-chilenos de Santiago, com certeza. Um ambiente opressor, de tão alto nível. É onde há as lojas mais finas.

cinema

Já que não podia sair do Chile, aproveitei para assistir uns filminhos. Para começar: “Espejos Siniestros” (Espelhos do Medo)

Nesse shopping conheci um casal de brasileiros, em um restaurante italiano. Eles estavam tendo problemas de comunicação com os garçons e, quem diria, eu virei intérprete. E, para variar, os brasileiros estavam reclamando, como a maioria que eu conheci na viagem. A mulher falou que enquanto o marido participava de um congresso, ela ficava passeando na selvageria. Eu já estava tão impressionado com o quanto os chilenos são civilizados (muito mais que nós, brasileiros), que cheguei a me sentir ofendido com o comentário dela.

Nesse dia eu soube que a previsão era a greve terminar no dia seguinte. Então, fiz uma despedida gastronômica: jantei uma bela chorrillana!

Cheguei já tarde da noite na casa da minha amiga, morto de sede. Não havia água. Fiz então aquela que deve ter sido a maior besteira da minha viagem. Tomei água da torneira. Tem uma lenda (ou não) de que como a água vem da cordilheira, tem mais minerais, e quem não está acostumado estranha. Ou melhor, quem estranha é o CORPO de quem não está acostumado.

Água da cordilheira, mais chorrillana, mais buffet de comida italiana. Eu ainda não fazia idéia do quanto essa combinação poderia ser bombástica…

E é claro que eu contarei aqui – mas não tão ricamente em detalhes, não se preocupe!

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