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A injustiçada Santiago – Parte III

Wednesday
15/Apr/2009

Um dos lugares de que mais gostei em Santiago foi o Cerro San Cristóbal. Considero o local um imenso parque vertical. Desde sua base até seu topo há muitos pontos interessantes. Vale a pena reservar um bom tempo para passear por lá.

Um dos muitos caminhos no Cerro San Cristóbal

Um dos muitos caminhos do Cerro San Cristóbal, ainda lá embaixo, perto do Jardim Zoológico

Para subir, há 3 maneiras: o teleférico, o funicular e táxis coletivos. Mas quando eu estive por lá, o funicular estava em manutenção. Uma pena. Fui erroneamente informado de que só poderia subir de táxi, e assim o fiz, junto com um casal de turistas. Foi relativamente barata a corrida, e no caminho vi diversos pontos que me deram vontade de parar e conhecer, mas olhei meu mapa de turista e os lugares do topo pareciam mais interessantes ainda. Optei pela filosofia dos montanhistas amantes do sexo anal: “só o cume interessa!”

virgem do cerro san cristobal

Virgem do Cerro San Cristóbal

Lá em cima, além da vista fantástica, há um altar e uma espécie de igreja ao ar livre. Não cheguei a saber se são celebradas cerimônias ali, mas se forem, com certeza têm vista mais linda que qualquer outra realizada em alguma catedral.

Um altar e uma espécie de igreja ao ar livre

Igreja ao ar livre – clique na imagem para aumentar

Por todos os pontos do morro, há lanchonetes e afins, e todas dando destaque para a bebida típica do local: Mote con Huesillos. É uma bebida gelada, não-alcoólica e que contém pedaços de pêssego e trigo em seu interior. É gostosinha, mas o melhor é comer os pêssegos depois – já os grãos de trigo, nem tanto.

Bebida típica do Cerro San Cristóbal. Mote con Huesillos

Mote con Huesillos

Enquanto bebia o meu, dava uma última olhada na vista. Já estava ficando tarde e esfriando um pouquinho. Ventava bastante lá em cima.

Então caminhei até a estação “Cumbre” do teleférico. Descobri que poderia ter subido por ele, em vez de tê-lo feito de táxi. Bom, restava então usá-lo para descer. Mas eu fiquei ali, olhando para aquelas bolhinhas de plástico, com aspecto tão frágil, saindo da estação rumo ao abismo, e quanto mais olhava, menos coragem eu tinha.

Fotografando e tomando coragem pra pegar essas bolhinhas de plástico suspensas..

As bolhinhas de plástico suspensas sobre o abismo

Nessa hora lamentei estar sozinho. Não que eu fosse ficar corajoso com mais alguém – até porque quanto mais gente, mais pesada ficaria a bolhinha de plástico, e portanto maior a chance de ela cair, aumentando meu medo. Mas ter alguém para conversar evitaria que eu tivesse esses pensamentos tentando achar uma justificativa racional para um medo cronicamente irracional.

Resolvi então usar o celular que minha amiga havia me emprestado. Liguei para ela, inicialmente apenas para conversar. Mas antes de ela atender, o peste aqui resolveu que iria fazer um drama para lhe dar um rápido susto. Então ela atendeu e perguntou se estava tudo bem. Respondi:

- Liliana! Eu estou desesperado!!

Acho que fui convincente quanto a isso. Quando eu ia explicar que meu desespero era por causa do teleférico, depois de curtir um susto bem dado, a ligação caiu!!

Lá em cima o sinal é muito ruim, e só então eu havia me dado conta disso. E eu não conseguia sinal novamente de jeito nenhum. Andava pra cá, andava pra lá, em busca do sinal, enquanto do outro lado a Liliana tentava desesperadamente me ligar e saber o que tinha acontecido. Já imaginava que eu tinha sido assaltado, tinha me perdido, alguma coisa bem ruim.

Depois de dar um susto bem maior do que eu esperava, finalmente consegui falar com ela e explicar, envergonhado, a gracinha que eu tinha feito.

Ela foi bem compreensiva, xingou-me por apenas uns 2 minutos, e depois começou a me encorajar a pegar o teleférico. Disse que todo dia levava turistas ali (ela é guia turística) e era totalmente seguro e tal.

Como eu não sabia que, apesar de ela mandar os turistas descerem por teleférico, ela mesma morria de medo e descia de táxi, ganhei uma coragem momentânea e comprei meu ticket para a descida. Pronto, não teria mais volta!

Então, eu embarquei, sem pensar muito. Fechei os olhos e a bolhinha rumou em direção ao abismo. E sabe o que? Nem foi tão ruim, não teve solavanco algum. Era o que eu temia, ainda lembrando da hora em que o bondinho do Pão de Açúcar sai do Morro da Urca. Então, finalmente abri os olhos.

Finalmente abri os olhos dentro da bolhinha de plástico suspensa

Abrindo os olhos sobre o abismo

Mas rapidamente o medo passou. Como não dava para olhar diretamente pra baixo, não parecia mais tão assustador. E a vista era fantástica!

Comecei a tirar fotos, totalmente à vontade. Enquanto eu descia, dois brasileiros passaram por mim na bolhinha que subia. Estavam com a camisa do Inter, e eu tive uma imensa vontade de gritar “Grêêêêêêêêêêmio! ” só pra provocar. Não sou gremista, mas conviver com muitos colorados chatos no passado me fez ter aversão ao Internacional. Mas achei melhor sossegar.

Outro “cerro” interessante em Santiago é o Santa Lucia. É um parque muito bem cuidado, com um castelo em seu topo.

Cerro Santa Lucía

Cerro Santa Lucia

Existem diversos caminhos, uns com beleza em si mesmos, outros que levam à beleza da vista de Santiago. E um deles leva a um beco sem saída, cheio de jovens fumando maconha. Cheguei lá e eles me encararam. Até cogitei dar uma olhada no local, que era bonitinho, mas o cheiro forte me fez ver que eu estava deslocado ali. Dei meia volta. Eles perceberam que era por eu ter percebido o cheiro, e caíram na gargalhada.

Mas fora aquele cantinho, o resto do parque é fantástico e bem frequentado. Muitos estudantes e turistas estavam por ali.

cerro sta lucia

Cerro Santa Lucia

Ah sim, teve um grupo que me chamou a atenção. Um casal e duas crianças. As crianças corriam pra cima e pra baixo, peladas. Os pais ficavam num canto, meio escondidos. Só quando subi mais e olhei pra baixo é que entendi: eles haviam lavado as roupas das crianças e esperavam que secassem ao sol, sobre as pedras. Achei a cena um tanto sem sentido, já que eles não pareciam mendigos nem nada – aliás, não vi mendigos em Santiago. Não que não existam, sei que tem. Mas não são fáceis de achar.

Continuei intrigado, mas segui o caminho até o topo. No ponto mais alto do castelinho, a impressão é de que o vento vai te levar, de tão forte! Mas nem dá pra se importar, porque a vista é fantástica, para qualquer lado que se olhe.

santiago vista do cerro santa lucia

Santiago vista do Cerro Santa Lucia. Ao fundo, a cordilheira, sempre imponente

Como se não bastasse a vista a olho nu, há ainda uma luneta, que funciona com uma moeda (acho que de 500 pesos). Desci para comprar uma água e trocar dinheiro, pois isso eu queria ver. E não me arrependi!

Quando enfim resolvi deixar o parque, usei um caminho totalmente diferente para descer. Cheguei então ao “Jardim Darwin”, o que me agradou. Um jardim com esse nome em um local com nome de santa. Justo!

Jardim Darwin em lugar com nome de santa (Cerro sta Lucía)

Gostei muito de conhecer os dois “cerros” descritos neste post, mas há outros dois lugares que, apesar de não terem tanto apelo turístico, são extremamente divertidos: o Parque das Esculturas e o Parque dos Quadrinhos. É sobre eles o próximo texto.


A Injustiçada Santiago:

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1 Comentário em "A injustiçada Santiago – Parte III"

  1. TatiLie 16 de April de 2009 em 03:09

    O que é aquilo apontado pra tua cabeça??

    [Reply]


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