ChristianGump.net

Thursday
28/Feb/2008

Aqui em Goiânia, no trabalho, as pessoas têm o bizarro costume de me chamar de Christian. Eu tento convencê-las a me chamar de Gump, mas ninguém entende por quê. E muitas ficam fazendo as mesmas perguntas.

- Por que Gump?

- Christian é um nome tão bonito! E você prefere Gump?

- Onde é que vai o agá mesmo? (Nota do Gump: pergunta perigosa)

Mas afinal, qual é o problema com meu primeiro nome???

Nenhum, na verdade.

O fato é que nunca fui chamado pelo nome antes. Desde criança sempre tive apelidos que viravam codinomes. Quase todos relacionados com a cor do cabelo ou da pele: alemão, russo, polaco, gringo, soviético, suíço, Jordy (quem lembra??), Taffarel, Richard Clayderman, Boris Becker… e até mesmo cambaxirra, um pássaro que, diziam meus amigos cariocas, tinha a penugem igualzinha (note a ênfase que davam ao ‘igualzinha’) ao meu cabelo.

Múltiplos apelidos do Gump

Múltiplas faces gumpescas. E quem vier com o papo de que “cambaxirra gosta de pôr minhoca na boca” vai ganhar o Prêmio Gump de Originalidade :-p

Nem em casa eu era chamado de Christian, sempre havia os apelidos familiares. Buti, Crô… e outros que eu não lembro.

“Christian” só servia pra coisas ruins.

- Christian!! Vem aqui agora!

Pronto, era bronca na certa.

- Christian! Vai limpar o quarto!

Ou então:

- Gostaria de falar com o senhor Christian.

Isso é telemarketing, com certeza! Ou cobrador! O que será que eu esqueci de pagar?

E, lá no trampo, é um tal de “Alô, Christian? Deixa eu te falar…”, e eu já sei que lá vem pepino.

Já “Gump” não. Meu primeiro apelido que não tem nada a ver com a minha cor também é o mais duradouro, e usado para coisas boas. Há 12 anos que até eu me chamo de Gump.

Portanto, se você não quiser que eu te olhe com cara de “putz, o que foi que eu fiz agora?“, me chame de Gump.


E agora eu vou antecipar os possíveis comentários da minha amiga grega Bebelspoukris, sempre tão delicada, pra ela não ter trabalho:

  • “Odeio quando postam só por postar!”
  • “Ahnrãm… muito interessante!

Como sempre, é o Gump facilitando a vida de seus leitores!

Tuesday
26/Feb/2008

Cerca de um mês depois de voltar do Projeto Fat Biker - Um Gordo na estrada, eu percebi que eu ainda estava emagrecendo bastante, apesar de não ter feito muitos exercícios depois da viagem, e estar comendo a quantidade “normal” (leia-se bastante).

Como eu tinha que ir ao médico pra ver outras coisas, acabei perguntando disso também. Após alguns fedorentos exames, descobri que estava com vermes! Provavelmente obtidos naquela fazenda sem água tratada onde comi carne de porco.

Mas qual o problema?? Era a simbiose perfeita!

seus problemas acabaram

- Eu como e os vermes se alimentam!

Eu comia pizzas, sandubas, lasanhas, churrasco! E emagrecia. E por seu lado, os vermes ganhavam alimento mastigadinho, pronto para nutrir toda a colônia!

Melhor que isso só os vermes do Fry (episódio 4 da 3a. temporada de Futurama), que o faziam ficar mais inteligente. Eu precisaria muito disso também!

colonia de vermes

Colônia de vermes no intestino do Fry. No meu, devia ser parecido

Mas só de emagrecer comendo tudo estava muito bom!

E eu tive uma conversa imaginária com os meus hóspedes, onde rolava uma linda relação em que eu era Deus, que lhes dava a fartura!

Mas eis que a médica estragou o delírio. Avisou que eu corria o risco de aqueles vermes irem parar no cérebro, alguma coisa escrota do tipo. E com certeza eu não ficaria mais inteligente.

Malditos! Eles tinham tudo! Tudo do bom e do melhor! Eu faria de tudo para alimentá-los. Nunca os deixaria na mão! Sempre haveria abundância, exceto na minha abundância posterior, que já estava diminuindo! Era só continuar como estava!

Mas nãããããão! Eles tinham que querer subir ao meu cérebro! Nunca estava bom! Nada que Deus eu fizesse lhes agradava, não é mesmo?

E eles sentiram a ira gumpesca!

Em vez de alimentos, receberam vermífugo!

Malditos ingratos!

Monday
25/Feb/2008

Uma coisa que eu não escondo que eu acho fascinante aqui em Goiânia é a facilidade com que as pessoas conversam umas com as outras. Eu digo, brincando, que basta estabelecer contato visual para dois desconhecidos estarem conversando como se conhecessem há anos. Para quem não está acostumado, isso chega a ser estranho no começo. Mas é muito legal.

Mas algumas histórias se sobressaem. Essa aconteceu com um amigo meu, o Figura.

Diz que estavam lá o Sr. e a Sra. Figura saindo da locadora, quando uma velhinha o abordou, cutucando sua protuberância abdominal com a bengala:

- Deixa eu te perguntar: quer perder essa barriguinha?

Ao que o Figura, um tanto atordoado pela surpresa, respondeu:

- Uai, quero!

E a velhinha lhe passou uma receita de chá para emagrecer.

Definitivamente, não é o tipo de coisa que se vê de onde eu venho. Lá, as velhinhas não abordam desconhecidos. E desconhecidos não dão bola pra velhinhas!

Só espero que ela não tenha passado uma dessas pra ele:

Garrafada

A cura para todos os males em uma garrafa perto de você!

Sunday
24/Feb/2008

balsa ararangua

Balsa para atravessar o Rio Araranguá

Depois de um dia puxado que terminou no Morro dos Conventos, eu saí do camping e descobri o caminho por estradinhas de terra que levava a uma balsa para atravessar o rio Araranguá. Chegando do outro lado, não sabia que caminho seguir, e perguntei pra um morador local. Ele me perguntou:

- Quer ir por dentro ou por fora?

- Como assim, por dentro ou por fora?

- Por fora é pela praia, por dentro não.

Ah, certeza que eu queria praia! eu estava de férias! E ele me indicou então o caminho “por fora“. Mas eu nunca ia imaginar que “pela praia” significava literalmente “pela praia“. Não há estrada, e sim uma faixa de areia muito grande que é usada como estrada.

Imagine eu, com a Lucy e seus pneus finos, o meu próprio peso e mais as bagagens. O pneu se enterrava na areia, por mais dura que ela estivesse. E pra piorar, havia o vento. Contra , é claro.

Não tenho noção de quantos quilômetros eu fiz apenas na areia. Esqueci de marcar. O bom é que conheci bastante gente lá, ao menos. É engraçado que o lugar não constava no meu mapa, não o nome. O pessoal de Criciúma, que usa ali como sua praia (Criciúma é perto mas não tem praia), chama de “Ilha”. Simplesmente Ilha.

A melhor parte do dia foi ver um golfinho, brincando com os pescadores igual um cachorrinho! Consegui tirar uma foto dele. Mas tenho que jurar que é um golfinho, senão ninguém acredita! (obs.: Preciso urgente de um scanner! )

Quando consegui sair da praia, exausto, procurei uma forma de voltar pra BR-101. Quando consegui, descobri que teria que enfrentar 12km em que o acostamento não existia! Foi terrível, estressante, com caminhões e carros argentinos passando lambendo. E um desses carros argentinos resolveu me sacanear. Veio buzinando desde bem atrás, passando bem rente, e me obrigando a me jogar no mato.

Consegui achar um hotel de posto de gasolina em Içara, apenas 45km depois de ter saído do Morro dos Conventos. Estava terrivelmente exausto. Tive forças apenas pra jantar e fazer as contas. Vi que tinha gastado demais com a vida boa. Fiz o planejamento pra fazer a viagem na raça, acampando a maior parte do tempo. Mas na prática, de noite eu queria mais é ficar em hotel. Também planejava fazer minha própria comida, mas eram tantas iguarias pra se provar… Eu não resisti e gastei enormidades com comida. E por fim, eu estava chateado com a história do argentino. Juntando com a saudade e a oportunidade de ter uns dias pra resolver algumas coisas em Curitiba, decidi encerrar minha viagem mais cedo. Assim, aproveitava pra descansar um pouco no final das férias.

Isso decidido, acordei animado no dia seguinte, para pedalar mais uns 90km até Tubarão. Seria meu penúltimo dia. Cheguei em Tubarão no final da tarde, depois de uma maravilhosa pedalada com uns bikers que conheci no trajeto. Eu me despedi deles e entrei na cidade, fui ao hotel, guardei a bike num depósito do hotel e fui pro meu quarto. Custou baratinho e era um hotel muito bom! Fiquei vendo filme e descansando.

rio tubarao

Rio Tubarão e vista do centro da cidade - clique na imagem para ver mais fotos no Turismo Catarinense

Acordei tarde no meu último dia de viagem, e fui pedalar pela cidade e adjacências. Tubarão é uma cidade bonitinha. É dividida pelo rio Tubarão, e há várias pontes ligando os dois lados da cidade. Vi uma ponte pênsil, e decidi que tinha que atravessá-la. Era estreita, alta e balançava muito! Tenho um certo medo irracional de altura, apesar de gostar de enfrentá-lo. Atravessei com a Lucy. Chegando do outro lado, descobri que era impossível passar com a bike! Tinha uma passagem feita para só um pedestre e olhe lá! Tinha que ser um pedestre não muito gordo, não sei se eu passaria… Mas como eu estava com a Lucy, nem tentei. Tive que voltar… A volta foi pavorosa. Estava ventando muito e parecia que a ponte ia virar!

ponte pensil

A tal ponte…

Passeei até de noite, quando fui pra rodoviária pegar o busão para Curitiba. De madrugada, eu já estava em Curitiba e, no caminho da rodoviária até minha casa, faltando duas quadras, o pneu furou.

O único pneu furado da viagem toda!

E o Projeto Fat Biker chegava ao fim, com cerca de 8 kg a menos e 8 centenas de quilômetros pedalados a mais.

Sunday
24/Feb/2008

Acabado meu descanso em Tramandaí , comecei a pedalar novamente, passando por dentro das cidades do litoral norte gaúcho.

Mas a chuva começou a castigar logo cedo. O tempo estava bem feio. Foi triste: a Lucy saiu novinha da oficina, toda engraxada, e com tanta água de poças às margens da praia, a corrente já se encheu de areia.

Mas foi muito legal de qualquer forma. Conheci cada cantinho de cidades do litoral gaúcho: Capão da Canoa, Xangrilá, etc… Mas num dado momento o caminho por dentro das cidades se tornou muito intransitável e por fora só tinha a Estrada do Mar que, como eu disse antes, me informaram erroneamente que não podia-se pedalar nela.

capao-novo

Praia de Capão Novo

Chegou um momento em que a dificuldade das estradinhas que beiram a praia era tanta, que eu fui em direção à Estrada do Mar, decidido a arriscar. De cara, encontrei um carro da Polícia Rodoviária Estadual-RS, e perguntei. Disseram que sim, eu podia andar de bike nela, e que todo mundo fazia isso mesmo. Foi aí que eu percebi que me enganaram em Osório.

Bom, como não tinha muita opção, entrei nessa estrada. E foi o máximo! O acostamento era praticamente uma terceira pista. Um tapete! A melhor estrada que eu já peguei. Dava gosto de pedalar. Mais à frente, encontrei um posto da Polícia Rodoviária Estadual e eles foram muito simpáticos, até me ofereceram água. Aí comecei a tirar o atraso causado pela chuva e pelas condições das estradas. Ainda tinha 50km pela frente, e como o tempo melhorou, rendeu bem! Cheguei em Torres quando o ciclocomputador marcava 99 quilômetros percorridos no dia. Foi nesse instante que começou a despencar água de novo. Mas apesar da brutalidade da chuva, ela logo parou, bem quando eu cheguei ao camping, 101 km depois de sair do hotel em Tramandaí.

O pessoal do camping foi super gente fina, e ele estava quase vazio. Tive todo o espaço pra mim. Montei minha casinha de cachorro (minha barraca antiga era igual uma casinha de cachorro azul!), e fui comer alguma coisa. Comi a tal da À La Minuta, e eu estava com tanta fome que foi uma das melhores refeições da minha vida.

Às 21h eu já estava dormindo… o que não faz o cansaço e a falta de opção?

Não tinha nem como ler ali, pois à luz de lanternas eu não queria ler não. O bom é que acordei cedinho, pela primeira vez na viagem, desmontei acampamento e fui conhecer Torres.

Entrei vários quilômetros dentro da cidade até chegar ao mar. Lá é tudo muito bonito. Tem vários morros, nos quais subi de bike pra tirar foto e admirar a paisagem.

torres

Torres - Clique na imagem para mais informações sobre a cidade

Uma vendedora de sorvetes, muito gente boa, puxou assunto. Contava que estava indignada com os argentinos e uruguaios brigando entre eles, e ela tendo que aprender as expressões características de cada um para eles entenderem. Na verdade, segundo ela, eles entendiam, mas pra implicar faziam de conta que não, até ela falar o termo certo.

Não me demorei muito lá, porque ainda teria um longo dia. Pelo meu planejamento, eu teria mais uma pedalada de 100km me aguardando, mais os quilômetros que faltavam pra eu sair da cidade.

Então fui. Entrei finalmente na BR 101. No início foi um trecho meio assustador, cheio de caminhões, e tudo meio confuso. Mas logo a BR tornou-se deserta e bem segura. Toda duplicada. Não tardou e eu cheguei à minha primeira divisa de estados atingida de bike! Emocionante! Estava em Santa Catarina!

Obviamente, começaram a aparecer as primeiras lanchonetes. Mas ainda havia lancherias também. Muito gaúcho montando empreendimentos um pouco acima da divisa de estados.

Não resisti e entrei em algumas cidadezinhas no caminho. Em especial Sombrio . Apesar do nome, achei bem legalzinha! E como eu vi menina bonita em Sombrio. Fiquei surpreso!

Lá pelas 17 horas eu estava em Araranguá , que era meu destino do dia. Sabia pelo guia que tinha praias bem bonitas por lá. Mas achei estranho, porque a cidade em si é bem longe do mar.

Perguntando, e vendo as placas, descobri que para chegar no mar eu teria que pedalar 14 km até um de dois distritos da cidade. Eu optei por Morro dos Conventos, que o Guia 4 Rodas dizia que valia a pena.

Depois de me alimentar com sorvete, encarei mais essa quilometragem pra se somar aos mais de 100 km que já havia feito. Ao fim do percurso, fui direto a um dos muitos campings, montei rapidamente a casinha de cachorro barraca e fui pra praia… eu estava precisando muito de água do mar!

Foi legal pra molhar os pés. O mar lá era muito bonito mas não era muito legal pra entrar. Tinha que ir muito longe e tinha ondas bem traiçoeiras, ao menos para mim, é claro. Mas só de molhar os pés já foi gostoso.

O que me encantou mesmo foram as magníficas dunas e os morros cheios de trilhas pra percorrer.

morro dos conventos

Balneário Morro dos Conventos - Clique na imagem para ver mais informações no Guia Santa Catarina

Como já anoitecia, voltei ao camping, e fui procurar lugar pra comer. Fiquei jogando conversa fora até perto da meia noite. Viajar de bike facilita isso: sempre alguém vem puxar assunto ou chamar pra fazer alguma coisa.

Mesmo depois do dia cansativo e de não ter ido dormir assim tão cedo, no dia seguinte já tava bem disposto e fui percorrer os lugares. Longa caminhada: dunas, morros onde o pessoal pratica rapel, farol, igreja.

Voltei cansado, mas ainda disposto a seguir viagem no mesmo dia. Desfiz acampamento e fui para o dia que, mal sabia eu, seria o mais puxado da viagem, e o menos produtivo em termos de quilômetros percorridos. Tema do próximo post.

A seguir: Projeto Fat Biker - Um gordo na estrada - Parte VIII - O dia mais cansativo e o fim da viagem