Janela Quebrada

- Christian!!!!!!

Ouvir minha mãe chamando esse tal de Christian me estremecia. Ser chamado assim é sinal de coisa ruim.

- Quem foi que quebrou o vidro? Foi você?

A pergunta da gumpesca mamãe vinha com uma alta carga de acusação. Algumas mães sabem como são os filhos. Mesmo depois de eu me tornar adulto, a minha, quando vou visitá-la, escolhe a cadeira mais reforçada para eu sentar, e tira tudo do alcance da minha mão, para não correr o risco de eu quebrar algo importante.

Então, era óbvio que tinha sido eu. Ela só queria uma confirmação.

Minha mente tentava achar uma maneira de eu me safar mas, inevitavelmente, um sorrisinho aparecia no meu rosto. Amarelíssimo!

Era o sorrisinho de culpado!

Isso não é uma característica somente minha. Tem gente que mesmo depois de adulto mantém esse denunciador. Um colega, por exemplo, adora contar umas mentirinhas para depois zoar. Mas ele não consegue fazê-lo sem um princípio de sorriso num dos cantos da boca. Não é ator o suficiente para disfarçar o quanto está rindo da cara dos outros por dentro.

Voltando à época em que eu era um pirralho fazedor de gumpice. Com o tempo, eu passei a tentar evitar o sorrisinho, já que eu sabia que ele me denunciava. Mas era como pedir para alguém não pensar num fusca branco. Foi como no post anterior eu querendo agir normalmente para não parecer suspeito e, aí sim, parecendo mais suspeito ainda.

“Não dê o sorrisinho!”

Eu ficava repetindo esse mantra e, inevitavelmente, os dentes apareciam.

Mas até aí tudo bem. Levar a culpa de algo que eu fiz ao menos não era injusto.

Um belo dia, fui acusado de algo que eu não tinha feito!

A primeira coisa que me veio à mente foi que eu não podia sorrir de maneira alguma ou levaria a culpa.

- CHRISTIAN!!!! Foi você que arranhou o piano???

“Não dê o sorrisinho!”, eu pensava.

“Não dê o sorrisinho!”

“Não dê o sorrisinho!”

Sorriso

- Não fui eu não, mãe!

- Como não, CHRISTIAN??? E esse sorrisinho de culpado? Eu te conheço!

E pronto, eu estava de castigo. Isso aconteceu muitas vezes!

Ainda bem que na época não havia internet. Tenho certeza que ficar sem acesso por alguns dias seria o castigo default.

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