Uma das minhas maiores habilidades é a de demorar muito para guardar a fisionomia de alguém. Sabe aquela história de “não importa como uma pessoa é por fora”? Pois é, eu acho que levo isso a sério demais.
No mochilão para a Europa, no ano passado, eu paguei o preço disso.
Chegamos, eu e meus amigos, a Praga, capital da República do Duplo Sentido e, antes de sairmos para o restaurante onde eu iria me arrepender do meu pedido, fizemos o check-in no hostel.
Não sabíamos quantos dias exatamente iríamos ficar, então o funcionário (aparentemente uma espécie de dono ou gerente) fez uma proposta: ele nos faria uma reserva para todos os dias que talvez fôssemos ficar, mas se quiséssemos sair antes, bastaria avisarmos na portaria até às 10 horas da manhã do dia da saída. Não teríamos que pagar o dia se não usássemos, mas ao mesmo tempo garantiríamos o quarto se quiséssimos ficar. Aceitamos.
Depois de muito turistar pela cidade, acabamos decidindo ficar um dia a menos e zarpar de volta para a Alemanha. Então, logo depois do café, meus amigos subiram para fazer as malas, e eu fui à portaria comunicar, conforme combinado, que iríamos embora.
A funcionária que estava ali lembrava muito a atriz Jaime Murray (se ela não se parecesse com alguém, eu hoje não faria idéia de como ele era!), que fez a Lila na segunda temporada de Dexter. Só que era provavelmente mais alta. Isso eu reparei porque afinal tive que olhar pra cima.

A recepcionista do hostel em Praga
Gastei todo o meu, ahn, maravilhoso domínio do idioma dos inventores do futebol para explicar que, conforme o acordo feito no check-in, eu estava comunicando que iria embora um dia mais cedo.
— Mas quem fez o acordo com você? — foi a resposta da “Lila”, polida mas severa.
— O funcionário que estava aqui ontem.
— Mas quem era o funcionário que estava aqui ontem?
— Ah, eu não sei o nome dele…
— Ok, mas como é ele?
Eu definitivamente não estava preparado para uma missão difícil assim: uma enorme e espetacular mulher me interrogando tão severamente quanto uma policial que tenta arrancar inconsistências no depoimento de um suspeito.
— Humm… Eu infelizmente não sei dizer.
— Você não sabe como ele é?
— Hãããã… — e começou a gagueira — Eu não sou bom em guardar rostos, mas ele me falou que era só avisar aqui se fôssemos sair um dia antes.
— Ok, mas como é a pessoa que te disse isso? É alto ou baixo? É gordo ou magro? Velho ou novo? Você não sabe?
A Lila me fuzilou com um olhar que dizia “eu sei o que você está tentando fazer aqui, seu brasileiro metido a malandro” — ou pelo menos era o que eu temia que estivesse passando na cabeça dela.
Eu estava quase falando que o cara era careca. Era careca! Tinha certeza que ele era careca! Humm, tinha? É, tinha. Mas talvez fosse meio cabeludo. Talvez portasse um longo rabo-de-cavalo. Ao mesmo tempo em que podia ter algumas entradas. Mas e se ele tinha franja? Não, era careca! Definitivamente era careca. A menos que… a menos que não fosse!
— Ah, não é velho, mas também não é novo — comecei, como se uma descrição genérica fosse me salvar.
Mas dei ao menos uma certeza:
— É mais velho do que eu.
— Humm…
Antes o tom severo vinha acompanhado de um semi-sorriso. Irônico, mas ainda um sorriso. Porém, seu semblante havia se fechado.
Silêncio.
— Quer saber? Vou lá chamar meus amigos, eles devem lembrar melhor do cara que nos falou isso.
— Não não! É simples, é só você me dar uma dica de quem ele é que eu confirmo. Se alguém te falou isso, alguma coisa dele você tem que saber!
“Cérebro, me ajuda!“, implorei em pensamento.
A resposta foi “Piiiiiizza!” É a resposta do meu cérebro pra tudo.
Mas com muito esforço, botei as engrenagens para trabalhar e repassei todos os momentos desde que chegamos ao hostel até subirmos para o quarto. Se eu não guardo feições, pelo menos guardo fatos e palavras razoavelmente bem. Se eu não estiver no mundo da lua, o que também é raro.

Cérebro gumpesco em funcionamento
Nhec, nhec, nhec. “Ei! Isso pode servir!“. Achei uma informação talvez relevante.
— Olha, o cara que nos recebeu disse que só trabalha aqui uma vez por mês.
A Lila fez uma cara enigmática, botou a cabeça pra dentro de uma porta atrás do balcão e falou algo em código secreto tcheco. Quando virou para mim novamente, o rosto era o mais doce e simpático sorriso que eu já havia visto na Europa. Falou que estava tudo certo e desejou boa viagem.
Depois desse dia, comecei a me forçar a reparar na fisionomia das pessoas.
E também a torcer para que eu nunca tenha que fazer um restrato falado!

6 comentários
Anderson says:
Jan 31, 2012
Sei como é: quando eu assisto um filme novo do 007 ou o “Cowboys & Aliens” fico pensando que já vi aquele cara em algum blog, mas não consigo lembrar qual… Será que não era mais gordo, sei lá… Aí penso “bacon!” e deixo isso pra lá enquanto procuro o telefone de entrega de algum veículo pro bacon (pizza, sanduíche, pastel, etc…). Eu nunca lembro de nomes… No máximo, rostos. Falando sério, por algum motivo, toda vez que eu vejo seu blog eu lembro de Goiânia, do sanduíche da “One Way”, na calçada da UCG no Setor Universitário. Coisa de gordo, vai entender…
Christian Gump says:
Jan 31, 2012
hahahaha!
Michel Japa says:
Jan 31, 2012
Já te disse Gump, olhe para os rostos das pessoas, mulheres principalmente..deixa pra olhar o traseiro e air bags depois que o papo deixar de ser importante..ehehe
Profeloy says:
Feb 1, 2012
Essa é a recepcionista ou a Jaime Murray? (sério)
Profeloy says:
Feb 1, 2012
A da foto do seu post, digo.
Christian Gump says:
Feb 1, 2012
É a Jaime Murray, mas poderia muito bem ser a recepcionista (bom, não sei a altura da Murray, mas acho que a do hostel deve ser mais alta, apenas). Bem que eu gostaria de depois de tudo isso ainda ter conseguido pedir pra tirar uma foto da recepcionista pra mostrar como eram iguais! hehe!