Era o primeiro dia da fantástica viagem ao Uruguai, aquela em que fui agraciado por ser preguiçoso. Então ainda não sabia bem como as coisas funcionavam por lá.

Estávamos, eu e minha amiga que fala por telepatia, caminhando pelas ruas da Ciudad Vieja de Montevidéu, quando um senhor sentado em algum canto se virou para mim e disse algo que me soou como:

Peroquesíperoquenocuecacuelaabuelamañana!

Pego de surpresa eu não entendi nada, mas desconfiado e escaldado FDP que sou já supuz que ele estava me pedindo grana.

Respondi algo que eu não me lembro, mas acho que foi em espanhol também (talvez “no tengo“) e segui meu caminho, enquanto minha amiga me olhava com sua tradicional cara misteriosa e indecifrável, mas desta vez com um levíssimo toque de algo que eu interpretei como espanto.

Não deu um segundo e o senhor uruguaio começou a xingar:

— Tinha que ser argentino mesmo!

E continuou soltando impropérios destacando a falta de educação não só minha como de todos os meus “conterrâneos argentinos”.

Eu, argentino???

Eu, argentino???

Fiquei sem entender direito o que estava acontecendo, quando minha amiga deve ter desistido de estabelecer contato telepático e começou a usar sons para falar comigo. Segundo ela, o senhor estava apenas pedindo ajuda para se levantar…

Eu havia levado a Montevidéu toda minha brasileira desconfiança, ampliada pelo meu costume em ser abordado na maioria dos lugares ao ser confundido com um gringo cheio da grana. Logo eu, tão sociável e simpático, que adoro parar minha caminhada para conversar com estranhos!

Senti-me muito mal por isso, envergonhado mesmo, mas não havia mais o que fazer.

Pelo menos tenho certeza que muitos brasileiros me considerarão um herói: queimei o filme da Argentina!