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Os Nerds, uma épica vitória de Sessão da Tarde e a Copa do Mundo

Tuesday
15/Jun/2010

O ano era o longínquio 1996. Um grupo de amigos, todos calouros de computação na UFPR, foram ao Centro Politécnico numa tarde de sábado, usufruir de um campo de Futebol e ratificar a amizade que surgira nas primeiras semanas de faculdade.

Como se pode imaginar pelo curso, quase todos eram nerds. Não tinham lá muita intimidade com a redonda, mas estavam ali só para brincar.

Aquecimento

Nosso aquecimento

Mas, pouco tempo após o início do castigo da bola da pelada dos nerds, tal qual um filme de sessão da tarde, surgiram no pedaço os garotões sarados, bons de bola, populares e cheios de si. Os estudantes de medicina.

Sim, também existem muitos nerds no curso de medicina, mas esses provavelmente não se interessariam em jogar bola num sábado à tarde. Aliás, sabe-se lá por quê os nerds da computação estavam ali.

Os futuros médicos chegaram tentando botar o terror, invadindo o campo, avacalhando nosso jogo, mas por fim, após alguma conversa, decidiram que mais divertido que tentar nos expulsar, seria nos humilhar em uma partida. A nós, restava encarar o desafio e sair num fracasso futebolístico, ou ir embora num fracasso total de covardes, ou brigar. Um tanto mordidos, optamos pelo confronto pacífico na bola.

A diferença era gritante. Todos eles pareciam ter alguma intimidade com o jogo, enquanto a gente tinha apenas um cara muito bom, outro que jogava regularmente mas não necessariamente bem, e de resto alguns magrelos (eu incluso, acredite se quiser) que pelo menos conseguiam correr.

Eu, especificamente, só tinha duas grandes habilidades futebolísticas: a auto-marcação e um chute razoável — mas apenas em bolas paradas. Como o jogo era sério, eu não poderia fazer uso da primeira característica.

Outro problema. Tínhamos um jogador a menos. Num lampejo de bondade, o líder da turminha deles ofereceu seu priminho, um piazinho de uns 12 anos no máximo, para jogar no nosso time. Assim teríamos o mesmo número de jogadores.

Então a partida começou, tal qual a briga em “Te Pego Lá Fora”, clássico da Sessão da Tarde (ou da Tela Quente, para os anciãos quem tem a minha idade), com a galera do jaleco massacrando. Driblinhos pra cá, chapeuzinhos pra lá. Mas não é que eles não conseguiam converter aquela superioridade toda em gols com tanta facilidade?

Jogador do nosso time dominando a bola

Primeiro, apareceu a figura de um japa que era o nosso goleiro. Ele parecia estar achando que era ping-pong e pegava tudo com reflexos inimagináveis. Alguns dos nossos viram conseguiam pelo menos atrapalhar os adversários. Outros corriam o campo todo e davam chutões para o ataque. E lá o craque do time sabia o que fazer.

Mesmo assim, os prováveis futuros médicos aproveitaram a melhor técnica para abrir o placar. Com o tempo, porém, os nerds começaram a se achar em campo, e os desnecessários lances humilhantes dos adversários nos davam gana de lutar. O fato de o priminho do líder dos adversários estar deliberadamente nos atrapalhando em vez de jogar do nosso lado, e todos eles rindo disso, fez o jogo se tornar mais sério para nós.

Tivemos uma falta no ataque e eu fui cobrar. O líder dos adversários estava xingando na barreira, exigindo que eu não chutasse nele para não acertar seu piercing sobre o olho. Obedeci, achando a cabeça do nosso craque, que empatou a peleja! Apesar dos deboches, comemoramos muito.

E eles vieram pra cima. Todos! Ótimo para nosso contra-ataque, que sempre encontrava um dos nossos, o que realmente sabia jogar. Assim foi o jogo até perto do fim, eles fazendo um gol e a gente empatando em contra-ataques; eles fazendo firulas, nós chutando pro mato; a gente brigando por cada bola, eles reclamando; nós nos motivando uns aos outros e cada um jogando do jeito que suas limitações permitiam, eles brigando porque todos iam para o ataque e ninguém ficava na defesa.

Num dado momento, eles pararam de rir. Vieram com raiva, dividindo, atacando com tudo. Nosso goleiro salvava todas as boas e, não bastasse isso, ainda descolou uma ligação direta, um lançamento maravilhoso para o nosso desmarcado atacante, que virou a partida.

Médico

Adversário tentando entender o que acontecia

— O problema do nosso time é que somos todos bons atacantes, aí ninguém quer defender — justificava-se o líder dos adversários. Seu ar era superior. Mas os risos já eram mais amarelados.

E eles vinham todos para o ataque. Nós ficávamos na defesa chutando furiosa e estabanadamente a bola para qualquer lado longe do nosso gol. Um desses chutes achou, meio que sem querer, nosso atacante, que mais uma vez não teve dificuldades para deixar o goleiro adversário sentado e abrir 2 gols de vantagem para os nerds.

O sol sumia no horizonte, o cansaço de jogar num campo grande caía sobre todos os presentes, e nossos adversários começaram a se retirar, deixando claro que era por causa da hora, e que nossa vitória se devia ao rabo do nosso goleiro.

Para nós, a glória! Que ficou gravada em nossos corpos na forma de dores musculares que duraram mais de uma semana, e em nossas memórias por muito tempo.

Por que eu estou escrevendo como um louco contando isso? Por nada, só deu vontade de contar a saga e glória dos Davis nerds!

Mas já que contei isso, aproveito para fazer um paralelo com a Copa do Mundo e a Seleção Brasileira e parecer que a história teve um motivo.

Talvez daqui a pouco (estréia da Seleção Brasileira na Copa de 2010) eu me arrependa do que eu vou dizer agora, mas… ao contrário da maioria, eu até entendo um pouco o técnico Dunga.

Essa seleção, em termos de nomes, é fraquinha, se comparada às outras que eu já vi jogar em copas. Já a de 2006 era até covardia, de tão forte. Ronaldo, que havia sido eleito por 3 vezes o melhor do mundo, Ronaldinho, que era o atual craque mundial, Kaká, que viria a ser o melhor do mundo, Roberto Carlos, de tantas atuações fantásticas pelo Real Madrid… 

Mas o super-timaço-nerd (hahaha!) da UFPR/1996 provou que uma equipe ruim, mas motivada e que funcione como equipe, pode ir bem mais longe que um time de craques onde todo mundo quer jogar para si ou simplesmente não tem gana de vencer.

Então espero que as escolhas do Dunga funcionem para montar um time, e que eles se inspirem na nossa épica vitória de 1996 (ok, ok, parei com a megalomania) para compensar no coletivo a falta dos craques que a torcida está acostumada a ver com a camisa amarela!

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1 Comentário em "Os Nerds, uma épica vitória de Sessão da Tarde e a Copa do Mundo"

  1. @$%¨&$# 16 de June de 2010 em 18:13

    Veja como e a vida. As vezes gosto de ser diferente, entao escolhi por meio de um modelo estatistico torcer para a Espanha. Depois da estreia (ainda estou otimista) resolvi me distrair e quem eu acho. Tudo inspira contra, estou no trabalho, stress total, decisoes importantes, mas nada como um pouco de humor negro para recarregar as energias. Adoreiiiii (e serio!!!!!). Bjs.

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