Parece que resolveram me crucificar. Tudo é culpa minha.
“Blá blá blá trânsito.”
“Blá blá blá poluição.”
“Blá blá blá lei seca.”
“Blá blá blá desrespeito ao pedestre.”
Tudo o que eu quero é andar por aÃ, tranquilo, na minha. Andar, é claro, é maneira de dizer. Eu não ando, não preciso mais disso. Andar é coisa de homem das cavernas. Pra que andar se hoje existe carro?
Eu tenho o último modelo. Com todos os acessórios. Não me interessa o tumulto lá fora. Dentro do meu veÃculo, tudo é paz e tranquilidade. Funciona para o Jack Bauer, por quê não funcionaria para mim?
Aliás, você não vê televisão? Está tudo lá, você não vê porque não quer. O carro é a maior expressão da liberdade. Isso está em todos os comerciais. É o carro que me chama para sair do trabalho mais cedo, que me lembra que eu tenho uma vida. É o carro que me faz ficar interessante. É o carro que me faz ser alguém. Ter é ser!
Trânsito? A culpa é dessas bicicletas no meio da rua. Desses caminhões andando em plena luz do dia - bem fez a prefeitura de São Paulo: botou os caminhões para transitar à noite. O que é um pouquinho de barulho, de funcionários fazendo extra noturno, de incômodos, diante do meu direito de ir à padaria sobre quatro rodas?
E dizem que a culpa é minha?? A culpa é do ônibus! Para que tanto ônibus na rua afinal?
A culpa é, também, desses prefeitos que não constroem mais elevados, mais viadutos. Que insistem em manter praças arborizadas no meio da cidade só porque são bonitinhas. Bonitinhas! Quem liga para isso se a real beleza está no design de um carro zero? E as calçadas? Para que servem calçadas tão largas? Elas não precisam ter mais do que a largura de um veÃculo, para o caso de eu precisar estacionar ali. E corredores exclusivos para ônibus? Estão tirando uma pista que eu poderia utilizar. Simplesmente absurdo!
Olha o tamanho dessas calçadas! Dá e sobra para os carros estacionarem e ainda colocar outra pista automotiva!
E me culpam pela poluição? Eu abasteço em um posto ecológico. Não sei bem o que isso quer dizer, mas é o que diz o cartaz do posto. E eu tenho um cartão que diz que neutraliza a emissão de carbono do meu carro. Estou isento de culpa!
E essa lei seca, hein? Um desrespeito aos meus direitos. Querem me proibir de beber. Como vou chegar ao bar sem dirigir? Deixar meu precioso carro nas mãos de minha esposa? Ir em grupos em que um não beba para levar os outros para casa? Pegar táxi? Eu?
Querem tirar minha personalidade. Deixar-me igualado a um qualquer que anda de ônibus. Ou no máximo tem um carrinho 1.0 e não sai da garagem porque não tem grana para a gasolina.
Que gracinha… os pés-rapados e os excêntricos também querem estacionar, e ao mesmo tempo reclamar que eu ocupo muito espaço! Eu é que tenho pouco espaço na cidade com todas essas calçadas e ciclovias!
Teve um desses hippies aÃ, desses que falam em baboseiras como “uso consciente do automóvel“, que bateu o recorde. Chegou ao ponto de dizer que como eu, minha esposa e meu vizinho vamos para o mesmo lado e no mesmo horário, deverÃamos ir todos no mesmo carro. E a minha privacidade, como fica? Passo 2 horas por dia dentro do carro cuidando de minha privacidade. Como seria minha vida sem esse momento de reflexão?
Meu carro tem um bom som, DVD, ar-condicionado. Meu carro é minha vida.
Agora, com sua licença, tenho que sair. Esse assunto me estressa. E também, você sabe, precisamos cuidar da nossa saúde. Vou à academia aqui do bairro.
De carro, é claro.
Todas as imagens são do blog Apocalipse Motorizado, o qual recomendo fortemente a leitura. Independente de ideologia, é bom ter contato com idéias diferentes daquelas que nos empurram diariamente.
3 Comentários em "Manifesto pela bolha de metal"
hehehe… adorei esse post!
[Responder ao comentário]
ótimo post Gump, no melhor estilo cardoso… (rss)
e obrigado pela dica do apocalipse motorizado, já está devidamente assinado no meu reader, rss…
abraço cara
[Responder ao comentário]
[...] Manifesto pela bolha de metal [...]
Deixe um comentário