Eu tenho uma teoria. Posso até não acreditar em anjo da guarda individual, aquele serzinho vestido com cortina branca e com grandes asas nas costas que teria a dura missão de proteger cada pessoa.

Mas em um anjo eu acredito: o Anjo da Praça Cívica.

Praça Cívica é o marco zero de Goiânia, primeira praça a ser construída. Também é um local em que todos os motoristas encarnam o “Pateta Motorista”, como o clássico desenho que todo mundo deveria ter assistido.

Na verdade a bagunça é completa. É algum fenômeno que acontece no local. Passar por uma das pistas que circunda a praça torna os pedestres cegos e tontos, os motoristas furiosos, os motoqueiros suicidas (bom, o caso dos motoqueiros geralmente não é culpa da praça, a maioria é assim mesmo) e, pra completar, há pelo menos um sinal de trânsito bem confuso.

Há 3 anos, eu a cruzo ou a contorno à pé, e não há um dia em que eu não veja uma quase batida, um quase atropelamento, um quase suicídio sobre duas rodas. O material para dar merda por lá é imenso. Mas eu nunca vi acontecer nada.

Eu disse: é o Anjo da Praça Cívica.

Ele fica lá, com seu vestidinho branco, usando da indefinição de sexo para soltar a franga, trabalhando igual louco protegendo qualquer um que entre em seus domínios. E a maioria nem merece!

Claro que às vezes ele precisa de uma pausa. Não sei se anjos sentem cansaço, precisam ir ao banheiro ou podem comer – tomara que possam, uma existência sem pizza, celestial ou não, é muito triste! E é nessas horas que acontece uma batidinha aqui, uma infraçãozinha menor ali… Muito pouco perante o real potencial para o mal que existe naquele local, construído sobre um antigo cemitério de duplas sertanejas.

Anjo - ou anja - da Praça CívicaAnjo da Praça Cívica – prefiro imaginar que é assim, uma anja, apesar de anjo supostamente não ter sexo – dando uma descansadinha. É quando acontecem os pequenos acidentes, e não mais que isso.

Mas eu nunca havia comentado com ninguém sobre essa teoria.

Até que um dia eu falei sobre ela com a Renata Checha. Pouco depois, nos dirigimos para a praça e… tava lá! Um capotamento sinistro! Acidente feio, uma pista inteira interditada, polícia, ambulância.

Eu falei que o Anjo protege a Praça Cívica e alguém se feriu gravemente!

Não, minha teoria não está errada! O anjo existe!

Eu sei porque também sei que a culpa do acidente foi toda minha!

Pois, afinal, não era a primeira vez!

Muitos anos antes, eu estava com uma câmera digital novinha em mãos, louco para sair fotografando as bizarrices que eu via diariamente ao redor da empresa em que eu trabalhava. Sério, todo dia acontecia algo bizarro naquela região de Curitiba.

Empolgado, tirei a hora do almoço para caçar fotos. Sempre havia imagens que mereciam ser eternizadas, das mais singelas às mais grotescas, e daquele momento em diante eu poderia fazer isso.

Perambulei, perambulei, ia esquecendo até de comer – acredite, eu nunca esqueço de comer! E não encontrei nada! Nem um único flagrante, nem uma fotinho mais-ou-menos.

Voltei para o trabalho frustrado.

E, naquele dia, para piorar, trabalhei até tarde. As ruas ficaram desertas e escuras e não mais haveria possibilidade de flagrar nada.

Ao me despedir antes de ir embora, comentei com alguém sobre minha frustração.

- Só porque hoje estou com câmera, não acontece nada para eu fotografar!

Saí e caminhei tranquilamente até perto da esquina, quando ouvi uma buzina, depois outra. Depois, avistei um motoqueiro na contramão.

E, depois de mais alguns instantes, eu o vi voando.

Ele havia sido colhido por um carro que não conseguiu desviar dele. O motorista estava em pânico, não sabia nem o que fazer. O motoqueiro sangrava e era atendido por uma moça que dizia ser enfermeira. Eu ligava para sei lá que número para comunicar o ocorrido.

Fato é que eu reclamei que nada acontecia, e logo depois eu tinha a minha foto.

Não tive coragem – achei desrespeitoso – de tirar foto da vítima. Mas a chance eu tive.

moto quebrada

Pra quê eu queria tanto tirar foto se eu não sabia fazer isso?

Então tudo que eu quero agora é saber como – como???? – eu posso usar esses poderes malignos para causar um mal decente?