Já provei que ser bagunçado pode trazer alegrias. Agora provarei que ser preguiçoso poderá ter o mesmo efeito!

Descobri isso em minha viagem para Montevidéu. Logo que pousamos na capital uruguaia, ficamos naquele impasse mochileiro de como proceder para chegar ao hostel. Eu descobri onde teríamos que pegar um ônibus, mas o primeiro que apareceu passou direto e foi parar em outro ponto. A isso somou-se o fato de que teríamos que descobrir não só onde descer do ônibus, mas também onde pegar outro, para só então chegarmos ao nosso destino…

aeroporto

Pronto, chegamos. Agora, como ir ao hostel?

E eu acabei ficando com uma preguiiiiiiiiiça…

Sugeri:

— Bora pegar um táxi? Li que dá uns 50 reais até o centro.

Minha amiga fez sua tradicional cara misteriosa, que pode tanto estar dizendo “Gump, seu idiota preguiçoso!” quanto “boa idéia!“. Mas creio que o que efetivamente ela disse foi “tudo bem“, o que bastou para eu me encaminhar em direção ao ponto de táxi.

Perdemos o primeiro carro para alguém que chegou praticamente ao mesmo tempo que nós. Logo chegou outro senhor muito simpático, o próximo motorista da fila, e já foi guardando nossa bagagem no porta-malas de seu táxi.

Já com o taxímetro ligado, mas ainda dentro da área do aeroporto, perguntei em quanto, mais ou menos, ficaria a nossa corrida. A resposta foi: “Cerca de 100 reais“!

Gaaaasp! O dobro do que o previsto! Aparentemente os táxis do aeroporto são bem mais caros.

Olhei para a minha amiga. Sua cara sempre enigmática parecia dizer “Gump, seu FDP, perdemos 50 reais por sua causa!” ao mesmo tempo em que também aparentava dizer “boa decisão, Gump, conforto acima de tudo!“.

No entanto, a partir daí, a corrida começou a valer a pena. O taxista era extremamente gente boa e já nos apresentava a cidade e o país enquanto dirigia. Virou quase nosso guia turístico, e a conversa seguiu muito agradável o percurso todo.

Mas ele era tão gente boa que tamanha gentileza já parecia suspeita, ainda mais para nós, brasileiros, que temos tantos motivos para desconfiar das pessoas.

Para ficar mais suspeito, o taxista falava o tempo todo do filho dele, que dizia ser ex-jogador da seleção uruguaia. Uma hora perguntei o nome do filho.

— Álvaro — foi a resposta.

Mas peraí. No cartão dizia que o sobrenome do taxista era Recoba. O filho dele seria então ninguém menos que O Álvaro Recoba????

Além disso ele dizia ser o tesoureiro do Estádio Centenário, um dos templos do futebol e que, obviamente, eu estava louco para conhecer.

O suposto pai do Álvaro Recoba insistiu que seríamos os “invitados” dele para assistir ao jogo Peñarol x Universidad Católica e ainda nos apresentaria o museu do futebol, tudo sem pagar nada! Segundo ele, por dois motivos: por sermos os amigos brasileiros dele e, principalmente, por não sermos argentinos! Uruguaios e chilenos adoram fazer cumplicidade com brasileiros para falar mal dos argentinos.

A brasileira desconfiança estava acesa. Eu achava que no mínimo ele iria nos buscar de táxi e cobraria caríssimo pela corrida.

Mais tarde naquele dia, minha amiga reclamou da minha falta de fé na humanidade. Dizia que eu era um pessimista, que deveria relaxar e acreditar que coisas boas podem sim acontecer. Porém, quando contei para nosso amigo de Sampa, que também estava lá no hostel, que iríamos ver o jogo de graça e de lugares privilegiados, ela imediatamente corrigiu:

Supostamente vamos de graça! Vamos ver, né?

Escondida sob o discurso de que eu não devia ser tão pessimista, lá estava a sua desconfiança! ;)

Nosso amigo paulistano, que tinha comprado ingresso para ver o mesmo jogo, recomendou cuidado.

Um dia antes do jogo, arrisquei e liguei, de um telefone público ladrão de moedas, para o señor Recoba.

Ele imediatamente me reconheceu e, após uma rápida conversa com ambos falando um bom portuñol, marcou de ir nos buscar no hostel no dia seguinte.

E assim foi: pegou a gente com seu carro particular (onde havia correspondência endereçada ao Álvaro Recoba, aparentemente comprovando a história), deu uma passada no hospital (a filha favorita dele estava internada), nos apresentou a sua esposa e de lá nos levou ao estádio.

O museu estava fechado por causa do jogo, mas ele usou de sua influência, nos apresentou como “amigos brasileiros”, e outro funcionário do estádio, todo orgulhoso, nos fez uma visita particular guiada, com explicações detalhadas, por todo o fantástico museu!

Claro que ele aproveitou para sacanear e começou o roteiro justamente pela sala referente ao título uruguaio da Copa de 1950, mas tudo bem… ;)

Havia tanto material antigo e tantas imagens provando o fanatismo uruguaio pelo futebol que meu queixo caiu!

Saindo do museu, ainda faltavam duas horas para o jogo e o sr. Recoba novamente foi impressionante: ofereceu-se para nos levar de volta ao hostel e depois ir nos buscar novamente na hora do jogo.

estadio vazio

Ainda estava mesmo muito cedo…

Isso já seria abuso demais de sua boa vontade! Não aceitamos. Dissemos que esperaríamos o jogo no estádio mesmo, sem problemas. Então ele entrou conosco, indicou as cadeiras reservadas à administração e seus convidados, e foi novamente ao hospital ficar com a filha. Não sem antes pedir milhares de desculpas por não assistir ao jogo com a gente, e também por não estarmos no camarote, já que para isso ele teria que estar junto. Vê se pode pedir desculpas por isso!!

A espera foi longa mas valeu cada minuto! Foi fantástico ver o sol se pôr atrás da arquibancada, que ia se enchendo aos poucos, novas faixas das hinchadas surgindo e o espetáculo tomando forma!

E ainda tinha wifi grátis no estádio. Não que eu tenha achado isso relevante, é claro…

Wifi GrátisEu tinha que tuitar isso, é claro!

Também brincávamos de tentar achar nosso amigo na multidão que se formava. Ele estava nas cadeiras inferiores logo à nossa frente, mas resolveu nos sacanear e não usou o seu tradicional gorro. Encontrá-lo sem o gorro seria como alguém me encontrar após eu pintar o cabelo de preto e emagrecer 20 quilos!

O único contratempo da noite foi quando chegou outro senhor da administração e nos expulsou das cadeiras privativas. Eu entendia que ele dizia que eram cadeiras reservadas à CAFO e seus convidados, mas ele não entendia quando eu explicava que éramos sim “invitados” de alguém da CAFO. Ok, fazer o que? Descemos então. Mas foi só por alguns minutos. Ele deve ter ficado matutando sobre o que eu havia dito e deve ter compreendido tardiamente. Desceu e perguntou se alguém nos tinha convidado, e quando entendeu o nome, nos chamou de volta para as cadeiras privativas, todo simpático.

O jogo também foi um episódio inesquecível. Não tanto pelo nível técnico, mas pelo show que a torcida deu, cantando sem parar do início ao fim. Era de arrepiar! Com poucos minutos, eu já era torcedor do Peñarol desde criancinha!

No finzinho do jogo, o sr. Recoba adentrou o estádio. Sim, apenas para nos levar em “casa”!

Para coroar, nos últimos instantes da partida, após um longo e despretencioso lançamento do meio campo do Peñarol, o goleiro do time chileno resolveu nos dar um regalo também: largou a bola na frente do atacante uruguaio. A partida terminou exatamente neste gol, e o estádio todo pulava e se abraçava.

Quando nos despedimos do Sr. Recoba, já no hostel, eu mal sabia como agradecer por tudo que ele havia nos feito, com a filha doente e tudo. Ele apenas se dizia feliz por dar uma amostra do Uruguai e sua hospitalidade a seus amigos brasileiros.

Foi um dia inesquecível!

Mas o importante é a lição que fica: nada disso teria acontecido se lá no aeroporto eu não tivesse ficado com preguiça de pegar o busão, então…

Seja preguiçoso e boas coisas acontecerão! ;)

[ATUALIZAÇÃO] Acabou de sair uma matéria no Terra contando a história do taxista deste post!! Leia, vale a pena!

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