[Este texto é a oitava parte de uma série. Leia a parte 7 ou então vá para o início da saga.]
Itacaré, 28 de dezembro de 2010
Acordamos razoavelmente cedo, tipo umas 9h. O objetivo era ir para a praia de Jeribucaçu, que eu ainda não conhecia. Mas antes meus amigos me apresentaram um restaurante nordestino que serve o melhor café da manhã que eu já tive o prazer de devorar ferozmente! É de ficar triste por ter somente um estômago (no meu caso são dois, mas ainda assim faltou espaço para comer tudo que eu queria).
Depois, rumamos para a saída da cidade, onde achamos o início da trilha. Uma pequena parte podia ser feita de carro, mas o resto tinha que ser do jeito certo: caminhando!
E olha que caminhada gratificante:

A vista da trilha
Então, o dia foi o básico: cervejinha, mar, caminhada, descobrir outras prainhas, jogar bola… Minto! O Malandrão ganhou uma bola de futebol americano quando esteve nos EUA ensinando um pouco de malandragem para um time juvenil, mas guardou-a no armário como troféu e nunca vai usá-la para não estragar. Então como ele não a levou para a praia, brincamos de arremessar côco mesmo, o que obviamente não terminaria bem. O pé do Fedora foi a vítima.

Raro espécime de Baleia Branca encontrado pela segunda vez no litoral da Bahia!
Na volta, achei estranho que meus amigos resolveram subir correndo, mesmo sem calçados adequados, à toda.
Então eu entendi: zumbis saindo do meio do mato e chegando na trilha!! De alguma forma o bloqueio da epidemia de zumbis tinha falhado e estávamos rodeados de mortos-vivos. E eu, que levei trocentas coisas na mochila, incluindo o iPod, não tinha levado nenhuma arma! Só restou correr, e ignorar os gritos das pessoas que eram trucidadas terrivelmente pelos dentes dos cadáveres ambulantes!
Lá em cima, pegamos o carro no estacionamento e saímos à toda, até que eu gritei:
— Volta, volta!!
Meus amigos acharam que eu queria defender alguma donzela contra a terrível ameaça zumbizística e iam me avisando que não ia adiantar parar pra ajudar ninguém.
Eu esclareci:
— Volta, volta! Eu deixei cair a minha carteira!!
Eu, que poucos dias antes carregara fama nacional de talentoso matador de zumbis, voltei a ser um mero fazedor de gumpice! Eles se resignaram e, mesmo com medo, pararam o carro. Eu desci em disparada mas não conseguia encontrar a @#&*#$@ da carteira em lugar algum! Ouvi o derrapar dos pneus do carro e vi que os caras estavam fugindo de uma horda assustadora de mortos-que-andam. Eles gritavam:
— Corre, Gumpeta!
Zumbis saindo do mato à minha frente me fizeram desistir da maldita carteira e correr para interceptar o carro, que parou já abrindo a porta traseira. Fechando a bela manobra, eu me joguei para dentro do Fedoramóvel e seguimos à toda rumo à estrada principal.
Com a brusca aceleração, algo que estava embaixo do banco foi jogado contra meus pés.
Era a minha carteira!
Tem horas que nem eu me aguento!
Mais pra frente, enquanto o Fedora derrapava loucamente com o carro em nossa fuga desenfreada, eu dei pela falta do iPod. Merda!! Tentei olhar embaixo do banco mas a trepidação causada pela estrada de terra me impedia de obter sucesso, e dessa vez eu não tive coragem de pedir para parar. Para quem está tão agoniado quanto eu estava, afinal iPod é sagrado, não se preocupe, eu o encontrei depois.
Conseguimos chegar à cidade sem esbarrar em mais nenhum zumbi, e demos o alarme. A notícia se espalhou e o resultado foi rápido: à noite já se encontrava muita gente armada, e o exército se posicionou na estrada que dava acesso a Itacaré.
Mesmo com medo, saímos para curtir a noite. Dessa vez eu comecei a me preocupar com meu futuro e passei a economizar, o que resultou numa noite não tão bem aproveitada da minha parte. Mas ela terminou bem: com pizza!!
Itacaré, 29 de dezembro de 2010
Nem dormi muito. Estava absurdamente quente! Meus amigos decidiram ir conhecer outra praia, mesmo com o risco de zumbis, e eu acabei não indo porque estava absurdamente queimado do dia anterior. Sim, eu passo protetor solar! O problema é a reaplicação, o que eu acabo esquecendo de fazer com a frequência necessária para a minha pele desprovida de melanina. Antes de eles irem, perdemos a hora do café da manhã fantástico do dia anterior e acabamos tendo que comer num café que tem um péssimo atendimento! Péssimo!
Tirei o dia então para a leitura, longe do sol. E vi que Stieg Larsson é ótimo para iniciar conversas. Primeiro foi o italiano que estava no meu quarto coletivo, depois foi a vez de uma alemã do quarto vizinho. Ambos vieram conversar sobre a Trilogia Millenium e falar do quanto gostaram dela. Vi mais duas pessoas no Hostel lendo livros da trilogia.
Mais pro fim da tarde, com o sol baixando um pouco, fui até a praia da Tiririca, e notei que a vida já seguia um curso diferente. As pessoas continuavam aproveitando a praia e se vestindo como o litoral baiano pede, mas já precavidas para caso o pior acontecesse.

Mulher em Itacaré trajada para curtir a praia e matar alguns zumbis.
Veio a noite e meus amigos chegaram sãos e salvos, mas trouxeram com eles relatos de novos ataques de zumbis. A coisa começava a ficar um pouco tensa. Antes de sairmos, eu acessei a Internet no Hostel para ver notícias sobre a situação dos funcionários públicos de Goiás. Afinal, o mundo estava acabando mas ali na Bahia a grana continuava existindo e valendo, e eu ia precisar de alguma logo logo. Descobri que ainda havia vida em Goiás, e o jornal que publica foto minha com cara de bobo ainda estava circulando. Li que todo mundo ia continuar recebendo o salário até segunda ordem e, melhor ainda, receberíamos armas e munições como parte do pagamento. O governo estava armando a população achando que naquele momento era a melhor solução para enfrentar os zumbis. Havia o receio de que as pessoas começassem a se matar umas às outras ao invés de matar zumbis, mas parece que eles achavam que não tinham alternativa. Eu até gostei, já que minha munição estava acabando.
Mas a Bahia não é lugar para se ficar preocupado, então fomos brincar de adolescentes pobres: compramos vodka e suco de pêssego no supermercado e fomos tomá-los na pracinha com copinhos plásticos, num “esquenta” para a noitada.
Mas eu não estava curtindo aquele suquinho:
— Tá fraco! Tá fraco!
O Fedora então jogava mais vodka no meu copo. Eu provava.
— Tá fraco! Tá fraco!
Mais vodka no meu copo.
Aquele pêssego parecia eliminar todo o álcool presente no copo. Fiquei frustrado. Muito fraquinho!
Fomos então para o programão da noite Itacaré (sem ironia): caminhar na Pituba e ver o que acontece.
Dessa vez encontramos três meninas de Belo Horizonte que o Malandrão e o Fedora já tinham conhecido dias antes. Eles as chamavam de “As Namoradas”. Em teoria, era uma pra cada um, sem dar briga, já que cada um preferia uma. Eles nem precisaram perguntar qual eu iria preferir, pois sabiam exatamente qual seria a “minha”. Ela aliás foi a personagem da noite: estava no maior papo com um carinha qualquer e mal deu bola pra gente. Cumprimentou e virou as costas para continuar “o que estava fazendo”. Num dado momento, para não ficar tão rude, ela voltou para a roda, e mais pra frente o Malandrão decidiu ajudar:
— Tá na hora do beijo!
O casal em formação ficou constrangido e aí é que acabou não rolando nada. A mineira bufava e olhava ferozmente para o Malandrão, que estava vivendo um momento raríssimo em toda a sua vida: o de estar sem graça. Até os maiores caras-de-pau como ele passam por isso uma ou outra vez na vida. Para a sorte dele, até o fim da noite o casal finalmente acabou ficando e ele foi perdoado.
Será que, como das “namoradas” aquela era a “minha”, eu fui corno? Pior, corno sem nem ter tido a parte boa com ela antes!
Do resto da noite eu só lembro de flashes, incluindo pessoas correndo e gritando “zumbis!“, mas não sei direito como foi. Parece que era zoação do povo, mas não tenho certeza. O tal do suquinho que “tava fraco” era só enganação. O que acontece é que o sabor do pêssego esconde o do álcool. Eu bebi pra caramba e nem tinha noção! Se um dia você quiser tomar um porre homérico sem fazer esforço, anote a dica: suco de pêssego com vodka!
Itacaré, 30 de dezembro de 2010
Acordei com um pouco de ressaca por causa dos suquinhos “fraquinhos”, mas tomei uns dorflex e acabei indo até a Prainha com uma das minhas colegas de quarto no hostel e uns gringos. A trilha até lá é fantástica! E a praia é considerada umas das mais lindas do Brasil, e não é à toa. Mas lá eu fiz a gumpice do dia: levei um pouco de dinheiro para comprar água e afins, mas deixei na bermuda com a qual tomei banho de mar. Obviamente o oceano me roubou, aquele safado!
Na volta, o que encontramos na trilha? Sim, zumbis! Maldição! Na hora de atravessar um riozinho, achei que pessoas deitadas estavam ali para curtir a água morna e gostosa, mas estavam mortas. Resolveram levantar em forma de zumbi bem quanto eu estava passando. Em homenagem ao meu professor de muay thai, que eu tinha encontrado na noite anterior também ali em Itacaré, dançando um forró, dei um chute em cada um dos zumbis, que foram então levados pela correnteza. As pessoas não me agradeceram, porque o rio ia sair na praia. Mas felizmente ouvimos alguns tiros saindo da trilha e vimos que os zumbis não seriam mais nenhum problema.

Quando cheguei à cidade, fui logo ao posto de troca, onde eu poderia receber minhas armas e munição como parte do salário, bem como sacar o resto em dinheiro. Descobri então que o governador FDP que estava deixando o cargo tinha f… a vida de mais de 75% dos funcionários públicos. E não havia qualquer perspectiva de pagamento, já que em dois dias mudaria o governo e com certeza o novo governador iria adorar dizer que recebeu o estado falido pelo seu adversário político e demorar ao máximo para pagar o funcionalismo. Provavelmente botaria a culpa dos zumbis nele também.
Esta foi a última noite dos meus amigos em Itacaré. Eles estavam assustados com a presença constante de zumbis e concluíram que o Morro de São Paulo seria um lugar mais seguro, por ser uma ilha. Rumariam para lá para passar o ano novo e, quem sabe, construir vida nova se o mundo viesse a acabar mesmo. Eu preferi arriscar em Itacaré, pois gosto muito de lá e fazia questão de passar a virada do ano na cidade.
Então a idéia era só darmos uma voltinha para eles voltarem cedo para o hostel e descansarem para a viagem, mas acabou sendo a melhor noite de todas! Conhecemos gente nova, incluindo duas meninas que mentiram pra gente até dizer chega, e sempre descobríamos tais mentiras. Mas elas eram gente boa. Meus amigos também insistiram na “amizade” com “As Namoradas” — o que não deu muito certo pra eles, mas não deixou de ser divertido. E, milagre dos milagres, até eu dancei lá no bar que era o grande agito da noite.
Uma menina até disse que eu devia parar de falar que eu não danço, porque eu danço bem.
Não preciso dizer que quem disse isso foi uma das mentirosas, preciso?
A noite terminou com o Malandrão realizando seu grande desejo: tirar a camisa para mostrar seus músculos. Ele passou a noite inteira falando mal dos nativos sem camisa no bar, na rua, “suados, nojentos”. Falava isso com voz de despeito e um pouco de inveja. Provavelmente pensava: “de que adianta malhar tanto se eu nem posso mostrar meu físico na noite de Itacaré?“. Até que ele largou seus conceitos para trás e gritou:
— Ah, foda-se!
Tirou a camiseta e ficou lá feliz da vida. Por uns 30 segundos! Porque logo uma das “namoradas” nos encontrou e o censurou por estar sem camisa. E assim foi, uma após uma das nossas conhecidas de lá (incluindo quem mal nos conhecia), chegando e comentando com censura o fato de ele estar “descamisado”. Nunca o vi tão puto, xingando porque os baianos estavam sem camisa e ninguém falava nada, e ele foi só tirar para imediatamente ouvir críticas.
Isso é porque ele não me ouviu. Eu já tinha avisado que só pode tirar a camisa lá quem tem tatuagem. Sério! Acho que nós 3 éramos as únicas pessoas em toda a Bahia que não tínhamos tatuagem. Eu tenho até uma teoria. Você não está interessado nela mas eu vou contar mesmo assim:
Houve um tempo em que as pessoas que tinham tatuagem sofriam vários tipos de preconceito. Hoje isso já é bem mais raro. E, segundo minha teoria, daqui 2 ou 3 anos quem não é tatuado é que vai sofrer preconceito.
Na Bahia acho que isso já começou!
Saldo da noite: todo mundo se divertiu como nunca, e ninguém pegou ninguém, como sempre!
Mas o que importa é que teve pizza, às 6h da manhã!
Faltavam poucas horas para eu me despedir dos meus amigos, que iriam tentar a sorte no Morro de São Paulo.
Para mim, o destino já tinha seus planos, ali em Itacaré mesmo.
[Continua em Minhas férias de verão 2010/2011 — Parte 9]

5 comentários
Minhas férias de verão 2010/2011 — Parte 7 | ChristianGump.net | ChristianGump.net says:
Apr 4, 2011
[...] em Minhas férias de verão 2010/2011 — Parte 8] Post anteriorGordo leva vantagem… e não é em rodízio! Próximo postMomento [...]
Jessy says:
Jul 12, 2011
Ei! Esperando ansiosa a parte 9 da saga! Li tudinho! To adorando! hehehehehe…
Christian Gump says:
Jul 18, 2011
Hahaha! Oi Jé, está na ar a parte 9. Um dia eu termino a saga, falta pouco agora!
Minhas férias de verão 2010/2011 — Parte 9 | ChristianGump.net | ChristianGump.net says:
Jul 17, 2011
[...] 9 17/07/2011 • 23:35 Nenhum Comentário [Este texto é a nona parte de uma série. Leia a parte 8 ou então vá para o início da [...]
Minhas férias de verão 2010/2011 – Parte 9 | ChristianGump.net | ChristianGump.net says:
Jul 17, 2011
[...] 9 17/07/2011 • 23:35 Nenhum Comentário [Este texto é a nona parte de uma série. Leia a parte 8 ou então vá para o início da [...]