[Este texto é a sexta parte de uma série. Leia a parte 5 ou então vá para o início da saga.]

Três Corações e Belo Horizonte, 26 de dezembro de 2010

O caminho para Três Corações foi algo meio estranho. Algumas pessoas insistiam em descer pelo caminho, imploravam para ficar em alguma fazenda ou sei lá o quê, e mais de uma vez vimos algumas delas serem devoradas por zumbis pouco depois de nos deixarem.

Pelo menos uma vez eu consegui, com um tiro certeiro, matar um zumbi que estava prestes a atacar um carinha que tinha acabado de descer.

Apesar destes sobressaltos, chegamos bem à terra do Pelé. Sim, Pelé é tricordiano. É o orgulho maior da cidade. Até o muro contra zumbis, recém-construído, enfatizava isso:

Bem-vindo a Três Corações, cidade livre da epidemia Z e terra do rei Pelé

Epidemia Z é o nome que usam para não falarem “zumbis”, “mortos-vivos”, etc. Você sabe, esses termos são politicamente incorretos. Um advogado paulista entrou com um processo contra um apresentador de TV que usou o termo “zumbi” em um programa, por considerar tal termo racista (???). Porém o processo não deve dar em nada, já que o apresentador, o advogado e boa parte dos juízes de São Paulo viraram zumbis foram afetados pela Epidemia Z.

Enfim, uma vez em Três Corações, fui apresentado a alguns dos caçadores de zumbis que eu acompanharia até Belo Horizonte. Achei mais coerente ficar ali esperando com eles no terminal rodoviário, em frente a uma antiga estação ferroviária. Porém logo mudei de idéia, ao ouvir duas cantorias competindo entre si para ver qual era a mais horrível ou quem chamava mais a atenção de Jesus.

Sim, havia nada menos do que duas igrejas cristãs concorrentes lado a lado, em frente ao terminal, ambas lotadas e com os fiéis cantando a plenos pulmões. A proximidade do fim do mundo deixava as pessoas mais desesperadas ainda em busca de salvação, qualquer que fosse ela.

Três Corações-MG

Antiga Maria Fumaça em Três Corações.

Resolvi então dar uma rápida caminhada para conhecer um pouco da cidade e poupar meus ouvidos. Foi quando aconteceu algo que me partiu o coração! Primeiro vi um cachorrinho cujo pelo se camuflava na calçada, deitado, tomando sol, mas não detive o olhar por mais que alguns segundos, pois recebi um chamado pelo rádio. Era um convite para virar caçador de zumbis em São Paulo. Estava andando pra cá e pra lá, concentrado no rádio e explicando minhas negativas à oferta, quando, sem ver, chutei o cachorro! :(

Imediatamente virei olhando para baixo e gritei pro cachorro:

Desculpa, desculpa, desculpa!

Sim, eu estava pedindo desculpas pro cachorro. Senti-me ridículo, mas foi instintivo. Também morri de culpa por ter chutado um cachorro sem querer. Se ainda fosse uma pessoa, mas um cachorro??

Enfim, ainda cheio de culpa embarquei no transporte de caçadores de zumbis, rumo a Belo Horizonte. Descobri, dentro do ônibus reforçado que nos levaria à capital do pão-de-queijo, que eu de alguma forma era famoso entre eles!

Minhas técnicas de enfrentar zumbis goianos, curitibanos e vegetarianos se espalharam e me deram um certo nome. Descobri que ali em Minas eles até criaram a sua própria “Técnica Gump de Sobrevivência a Zumbis“: cada caçador de zumbi sempre carregava vários queijos para jogar para a horda de mortos-vivos!

Mas gostei principalmente do nome que eles deram à técnica!

Eu tinha me comprometido com a matança de tudo que já estivesse morto pelo caminho e cumpri a promessa. Botar o corpo pra fora pela ventilação no teto do ônibus e atirar com uma metralhadora automática foi uma experiência até que bem divertida! Mas após ter passado novamente pela altura de Carmo da Cachoeira, não se via mais mortalma!

Logo mais à frente chegou a primeira e única real missão da qual eu participaria junto aos caçadores de zumbis: buscar mantimentos no Graal. Tudo tranquilo e sem graça, nem um único zumbi para matar. Só escrevo isso para contar que essa foi a primeira vez que eu parei triste no Graal.

Graal é tipo um oásis na estrada, cara! Comida, comida e mais comida, tudo de qualidade! Por um $$$precinho$$$ nada justo, mas ainda melhor que pagar só um real por um salgado nojento numa parada de ônibus no interior de Goiás ou da Bahia.

Parei para pensar e vi que o Graal deserto e sem deliciosos salgados prontos era o que me entristecia a alma.

A viagem prosseguiu basicamente em silêncio, que aumentava proporcionalmente com a chuva. Na altura do que eu acho que era Betim, já era uma verdadeira tempestade! Aquilo me incomodava bastante, já que eu tinha minha própria missão em Belo Horizonte e teria que andar bastante para cumprí-la. Porém, notei também que a chuva era tão forte que dava pra ver alguns zumbis sendos carregados pelas enxurradas. Isso me trouxe boas lembranças de São Paulo.

Realmente a chuva acabou sendo algo bom. Entramos em Belo Horizonte de forma até tranquila. Não fosse o visual de destruição, a cidade não meteria medo, o oposto de quando eu havia entrado em São Paulo dias antes.

Como de costume, o exército havia escolhido a rodoviária como centro de operações no combate aos zumbis à epidemia Z. Lá eu segui minhas prioridades. Na ordem: comer um pão-de-queijo e descobrir de onde sairia meu transporte para a Bahia, o paraíso livre de zumbis.

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Rodoviária de Belo Horizonte, que antes de se tornar zona segura viu seus arredores sofrerem um intenso bombardeio para matar todos os “infectados pela epidemia Z” que se encontravam no local

Segundo as informações obtidas, seria muito fácil chegar aonde eu queria! Um militar mineiro disse que bastaria eu chegar ao Mineirão e então andar só mais um pouquinho, porque o transporte partiria de uma garagem praticamente ali do lado.

Massa! Ali eu conheço! — pensei

Melhor ainda: descobri que estavam levando sobreviventes a um acampamento improvisado dentro do mineirão. Aproveitei para pegar uma carona com eles. Mas como o transporte dos sobreviventes era feito em um ônibus urbano normal e sem escolta, eu acabei virando o segurança armado da bagaça.

Alguns minutos e dois zumbis mortos depois, desci nos arredores do estádio, agradeci e segui meu caminho. Eu estava tão adiantado que cheguei a pensar a sério em dar um passeio na Lagoa da Pampulha. Primeiro porque a região parecia tranquila, sem zumbis. Segundo porque o lugar para onde eu tinha que ir era bem pertinho do Mineirão, então eu iria realmente chegar cedo demais e ficar sem nada pra fazer por lá!

Mas o céu estava com uma formação de nuvens terríveis de chuva (além da fumaça dos incêndios na cidade) o que me fez desistir da idéia. O jeito era chegar cedão, mas são, salvo e seco.

No entando eu caminhei um bom trecho e nada de avistar tal garagem de onde partiria meu transporte para a Bahia. E o tempo ia se fechando. Andei mais outro bom trecho e ainda não avistei nada! Já achava que tinha sido enganado!

Passei em frente a um hipermercado em cujo teto alguns atiradores montavam guarda. Perguntei aonde ficava o local e eles me avisaram que ainda era mais pra frente.

Foi quando eu entendi tudo!

Eu havia sido enganado pelo mais puro e característico “LOGO ALI DE MINEIRO”!!!

Eu já tive uma aula de mineirês ministrada por uma amiga mino-paranaense (ou sabe-se lá como se denominaria alguém com as duas naturalidades), e qualquer um minimamente iniciado no idioma sabe que não se pode levar a sério quando um mineiro diz “É logo ali”!

Primeiro que mineiro não diz “logo ali”, diz “logalí”. Segundo que a noção de distância em Minas é um pouco diferente da do resto do mundo. Dependendo do mineiro, um logalí e um pertim podem significar até duas horas de caminhada!

E lá estava eu, andando igual um doido, carregando mochilas pesadas cheias de armas, iPods, smartphones e coisas menos importantes como roupas, num tempo que se armava para tempestade e numa cidade infestada de zumbis! Fantástico!

Então, alguns pingos. Apressei ainda mais o passo.

Em seguida, seres maltrapilhos cambaleantes. Comecei a correr, do jeito que era possível.

Por fim, veio a chuva, com gosto! Procurei abrigo onde foi possível. No caso, num ponto de ônibus, mas tendo que subir no banco para não ser arrastado. É que em BH eu vi tantos bueiros quanto em Goiânia, ou seja, muito poucos!

Junto comigo estavam mais dois sobreviventes, com aspecto deplorável e desarmados. Dei uma pistola para cada um. Desse jeito eu ia acabar sem armas! Estava distribuindo armamento tal qual Papai Noel distribuindo balinha barata em dezembro. Eu deveria começar a vender!

Os zumbis se aproximavam, mas os que nós não conseguíamos abater, a água levava. Finalmente entendi porque há tão poucos bueiros nas terras em que se fala “Uai”! Já estão prevendo a utilidade dessa característica nas proximidades do fim do mundo.

A chuva, felizmente, não durou muito. Os zumbis não passaram de uma dúzia, todos agora com chumbo devidamente posicionado no meio dos olhos!

Pus-me a caminho, novamente solitário. E, finalmente, avistei o lugar que batia com a descrição que eu tinha. Peguei minhas identificações e, despreocupadamente, já fui me aproximando da entrada.

Quase levei chumbo!

Sério, foi por muito pouco mesmo! Antes de eles atirarem, um dos vigilantes estranhou o fato de um zumbi estar com mochila e resolveu confirmar antes de atirar.

Sem a menor simpatia, falou que eu não estava no lugar certo e me mandou sair da frente dele. Arriscando a minha vida, insisti em perguntar onde então era tal local, e outro vigia, tão mal-encarado quanto o primeiro, apontou com o queixo para a direita dele. Ok, melhor não perguntar uma terceira vez.

Já inseguro com toda essa situação, continuei caminhando, já sem saber direito por quê. Em minha cabeça, meu sonho de ir de encontro à segurança em Itacaré nunca mais iria se concretizar. Tinha certeza de que havia tentado entrar no lugar certo, mas não fora bem recebido.

Felizmente eu estava errado. Bastaram 200 metros para eu encontrar outro lugar que batia com a descrição, e dessa vez eu fui aceito, após uma vistoria em busca de mordidas e ferimentos.

O local estava completamente lotado! Não era à toa: dezenas de famílias, geralmente incompletas, buscavam a salvação na Bahia. Mesmo assim, eu havia garantido meu lugar num transporte de sobreviventes, e ele saiu pontualmente às 20h. Havia até assento marcado, igual ônibus. O meu era o de número 1, mas é claro que quando eu entrei já havia alguém no meu lugar. Mas sem problema! Para quem estava enfrentando zumbis havia mais de uma semana aquilo era de menor importância.

Na verdade, quase nada parecia produzir em mim algum sentimento. Nem mesmo o medo era igual. Nem a vontade de matar zumbis falava alto. O transporte passava ruidosamente por sobre o asfalto destruído dos arredores de Belo Horizonte, as armas da nossa escolta faziam um barulho incessante e ensurdecedor, e eu não esboçava qualquer reação. Só ficava pensando no que me aguardaria no caminho.

E, realmente, a viagem me reservaria algo muito desagradável, e não teria nada a ver com zumbis…


[Continua em Minhas férias de verão 2010/2011 — Parte 7]