[Este texto é a quinta parte de uma série. Leia a parte 4 ou então vá para o início da saga.]
São Paulo, noite de 22 de dezembro de 2010
Finalmente o busum reforçado, porém desconfortável, iniciou movimento e um pouco de ar começou a circular pelas janelas abertas. Ainda não serviu para amenizar o calor que eu sentia, pois onde eu estava não batia vento diretamente, ao menos com o veículo em baixa velocidade.
Por um momento esqueci do calor por causa de outro problema muito mais preocupante. Mentira, eu nunca me esqueço de um calor infernal! Reformulando: passei a me preocupar com outra coisa ao mesmo tempo em que me preocupava com o calor.
O problema em questão era a quantidade de zumbis que bloqueavam a saída do terminal Tietê, bem como todos os arredores. Impossível abrir caminho por eles, impossível atirar em todos. “Nunca vamos conseguir sair daqui!” — pensei.
Mas os militares que protegiam o terminal já sabiam como lidar com a situação. A primeira providência foi tocar sirenes iguais às dos carros da polícia em todos os arredores do terminal.
Simplesmente genial!!! Todos os zumbis que em vida haviam sido corintianos saíram correndo, devido àquela memória latente que eu tanto havia explorado! Aliás, eu não sei como não pensei nisso!
A quantidade de mortos-vivos nos arredores caiu em cerca de 90%. Com artilharia pesada não foi tão difícil eliminar o resto. E assim que saiu do terminal, o ônibus também ligou uma sirene que, combinada às armas da “tripulação”, foi suficiente para deixarmos a capital paulista e cairmos na estrada.
Mas o calor continuava me enchendo o saco. Parecia que todo mundo no ônibus estava recebendo uma deliciosa brisa na cara, menos eu. A mulher ao meu lado tinha os cabelos esvoaçando! Já eu, o máximo que recebia do vento eram as pontas do cabelo dela no meu olho.
Chegou uma hora em que eu fui até a traseira do ônibus para procurar algum outro lugar para sentar. Não tinha, estava completamente lotado. Fiquei parado em pé no corredor mesmo, porque lá pegava vento.
Quando as pessoas já me olhavam estranho, e meu dedo ferido já tinha deixado o guardanapo totalmente embebido em sangue, voltei para a sauna também conhecida como poltrona do gump e tentei dormir.
Na hora em que fui esticar as pernas, na já apertada poltrona, vi que algo duro me impedia de colocar o pé mais pra frente. Era a cabeça de uma mulher que tinha deitado no chão para dormir!
Foi uma loooonga viagem…
“Longa”, claro, é relativo. No relógio, pelo menos, ela durou menos do que o esperado. Felizmente!
Carmo da Cachoeira, Minas Gerais, 23 a 26 de dezembro de 2010
Por volta das 3h30 da madrugada, o busão adentrou Carmo da Cachoeira, onde, além de mim, desceram basicamente pessoas ligadas a uma comunidade que eu não sei explicar o que é (que a partir de agora vou chamar de A Comunidade). Havia uma barreira protegendo a cidade e outras internas protegendo as fazendas d’A Comunidade. Pelo que eu tinha lido, havia relatos de zumbis na cidade, mas a situação nunca chegou a estar caótica.
Mesmo assim, quando me vi completamente sozinho na rodoviária, depois que o busão seguiu viagem e as pessoas que desceram foram para sei lá onde, senti um enorme arrepio na espinha.
Eu tinha conseguido entrar em contato com a minha mãe rapidamente ainda lá em São Paulo, e tinha avisado mais ou menos o horário em que eu chegaria. Ainda estava muito cedo e eu receava ligar para ela e acordá-la. Resolvi esperar um pouco, até porque eu tinha muitas notícias zumbizísticas para ler na internet.
Porém, não tardou para eu ver um maltrapilho cambaleante descendo uma rua. Um zumbi!!!
Irritado pelas poucas horas de sono desde que acordara em Curitiba quase 48 horas antes, e por não ter sossego pra navegar, peguei a arma de maior calibre que encontrei na mochila e mirei com raiva. Mas felizmente antes de atirar acabei olhando melhor. Não era um zumbi. Era só um dos muitos bêbados típicos da cidade! Na verdade nem é muito difícil diferenciar: zumbis têm um aspecto melhor.
Para mim era o sinal: chega de esperar! Liguei para a minha mãe e ela já estava acordada. Como eu não lembrava o caminho para a casa dela (mesmo a cidade sendo minúscula), ela foi lá me buscar. Já fui caminhando no trecho do caminho que eu lembrava e a encontrei. Fomos então à sua casa, onde fui recebido com ferocidade por sua nova filha, a cachorrinha Jolie.
Minha mãe contou com detalhes a história da Jolie, o que me partiu o coração. Ninguém sabe mais dar um drama a uma história já triste do que ela, e crueldade com animais é uma coisa que realmente me bota pra baixo. Pelo menos hoje a Jolie estava feliz e com um novo lar, mas o resultado dos maus-tratos era evidente: ela não confiava em ninguém que não fosse a minha mãe. Então, ficou naquela sinfonia de latidos e rosnados a madrugada inteira, pela minha simples presença. Os outros dois cachorros da casa, que ficavam no quintal, a acompanhavam. Era ensurdecedor! Só quando minha mãe a pegou no colo ela parou e pudemos conversar.
Depois de quase duas horas, combinamos o horário em que nos encontraríamos e eu fui para um hotel, até porque ia demorar para a Jolie me aceitar por ali. E qual não foi minha surpresa ao chegar em tal hotel e descobrir que estava lotado!? Como assim, um hotel ali lotado???
Parece que devido aos zumbis, a segurança da cidade tornou-a concorrida. Felizmente o outro hotel tinha vaga e não era longe. Nada é longe por lá.
Como todo pobre que se hospeda em hotel, acordei no melhor do sono para ainda conseguir pegar o café da manhã, e voltei a dormir.
O resto do dia, assim como o dia seguinte, foi tranquilo e sem zumbis. Tiramos, eu e minha mãe, para botar assuntos chatos, porém necessários, em dia.
Também matei saudades da leitura de Tintim! Apesar de já ter lido cada um dos livros umas 30 vezes, no mínimo, depois de, sei lá, 17 anos, foi quase como ler de novo. Percebi muitos detalhes novos e continuei achando genial!

Parte da minha coleção de Tintim
A minha leitura do segundo volume da Trilogia Millenium também progrediu deliciosamente.
E até a ceia vegetariana de natal no dia 24 foi muito boa. Tem muita coisa vegetariana boa de verdade. Da outra vez que eu tinha ido pra lá tinha comido num restaurante d’A Comunidade e ficado meio traumatizado. Tinha uns pratos quentes à base de linhaça e aveia cozidas. Uma gosma! A primeira coisa que eu fiz daquela vez ao sair da cidade foi ir para Belo Horizonte comer em uma churrascaria!
Falando em ceia de natal, ela foi tão cedo que tornou-se praticamente um lanche da tarde de natal. Às 21h, enquanto as pessoas se dirigiam para as suas ceias, minha mãe já havia se recolhido e eu estava fazendo jogging.
Até lá eu devia estar ganhando fama de maluco!
O único sobressalto que tive antes do dia do natal foi quando fui conhecer os cachorros brancos da minha mãe, no quintal. A cachorrinha branca, mãe do cachorro branco (esqueci o nome de ambos, de tanto que os chamamos de “Os Brancos”) era uma gracinha, mansinha e carinhosa. Mas o cachorro branco só não me atacava pela presença da minha mãe. Quando ela virou as costas, ele e a Jolie se uniram, me cercaram e ele tentou me morder!!
Nessas horas é bom estar acima do peso. Minha panturrilha não coube na boca dele e deu tempo de minha mãe nos separar. Ele ficou frustrado. E eu, aliviado.
Fiquei chateado pela ausência do Sírio, o gato. Ele estava naquele período em que passa até 3 dias fora de casa, pegando altas gatas.
Enfim, eu vi que a vida estava bem tranquila por lá, apesar de ficar sabendo toda hora de relatos de zumbis sendo mortos dentro dos limites da cidade. Aparentemente minha mãe não corria perigo. E eu não poderia ficar por lá, não combinava comigo. Então soube que meu amigo Malandrão, de Goiânia, estava se dirigindo para a Bahia, outro dos locais considerados livres de zumbi, com um amigo dele, o Fedora. Combinei que dentro de alguns dias iria encontrá-los lá. Pela Internet arrumei vaga num transporte que sairia de Belo Horizonte para Ilhéus no domingo à noite. Só faltava saber como chegar em BH.
Não havia muitos transportes saindo de Carmo da Cachoeira, e nenhum indo para Belo Horizonte, zona tomada pelos zumbis. Consegui descobrir um comboio indo para Três Corações (ou seja, afastando-se de BH) e, de lá, haveria um transporte de uma tropa de caçadores de zumbis voluntários rumo à capital mineira, tudo isso no domingo pela manhã. Consegui entrar em contato com eles, contei da experiência que adquirira matando zumbis em 4 estados e eles concordaram em me dar um lugar vago no transporte. Em troca, eu ajudaria na matança de tudo que já estivesse morto no caminho.
Na manhã de sábado, dia de natal, cheguei bem cedo à casa da minha mãe para fazermos uma caminhada. Encontrei-a muito muito muito mal! Fiquei bem preocupado mas, por questões que seriam uma história muito longa para contar aqui, não pude fazer muita coisa. Enfim, deixei-a repousando e continuei na casa dela relendo vários volumes de Tintim. Nossa reserva para o almoço de natal acabou nem sendo usada, mas eu fui lá no restaurante pelo menos buscar marmitex.
Não existe lado bom em ver a mãe doente, mas se existisse eu saberia dizer qual teria sido. Quando a mulher do restaurante perguntou se eu queria carne (numa cidade em que a maioria dos clientes é composta de vegetarianos, é uma pergunta pertinente), eu pude encher o peito e responder:
— Siiiiiiiim!
Quando voltei para a casa da matriarca do clã Gump, tive o maior susto da minha vida!!!
Entrei e os cães fizeram, como de costume, o maior escândalo. Uma barulheira infernal! Não bastasse isso, a Jolie corria pela casa latindo, invadia o quarto da minha mãe, subia e descia da cama onde ela estava deitada, e minha mãe não só não acordava como não movia um único músculo! Entrei em pânico, já esperando pelo pior!
Por mais que eu encare a morte com muito mais naturalidade que a maioria das pessoas, obviamente não estou preparado para um falecimento repentino assim na família.
Quando eu já me aproximava para tirar o pulso, minha mãe finalmente acordou. Um grande alívio. Mais tarde, ainda naquele dia, ela iria se sentir bem, mas eu nunca vou esquecer tal susto!
Algumas horas depois, uma presença animou o ambiente: o Sírio chegava depois de alguns dias cuidando de tentar perpetuar a espécie felina. Eu e ele nos demos bem, brincamos um pouco juntos, até que a Jolie veio me frustrar novamente. Ao descobrir que eu estava lá atrás, ela veio latir para mim. Vendo a reação da princesa da casa, o gato entendeu que eu deveria ser perigoso e foi na dela: começou a fazer aquela pose de ataque típica dos felinos para mim.
Poxa, Jolie! E eu gostei tanto de você!
No fim do dia, aliviado pela melhora da minha mãe, deixei-a dormindo e me dirigi ao hotel. Tentei ir pra lá por outro caminho, apesar de ser bem perto, e acabei pegando uma rua sem saída. Quando dei meia volta, vi-me com a única passagem bloqueada por uma dúzia de mortos vivos!
Eu não estava preparado! As coisas estavam tão calmas que eu nem sequer estava armado!
Pulei uma cerca e invadi um terreno, e os zumbis vieram em meu encalço. O terreno havia sido de alguma plantação, mas no momento a terra estava revirada. Era difícil correr! Não demorou muito e o mais veloz deles me alcançou. Senti seu cheiro putrefato enquanto o ouvia rosnar “mioooooolos!”
Sorte que ao mesmo tempo também eu alcancei algo: uma enxada! Com o cabo, dei um golpe que o afastou de mim. Depois, com a lâmina, parti sua cabeça no meio!
No entanto isso me fez perder tempo e logo os zumbis restantes estavam todos ao meu redor. Olhei bem para eles: apesar do aspecto peculiar de todo zumbi, dava pra ver que mesmo em vida aquelas pessoas não eram muito preocupadas com o visual, com cortes de cabelos feito por elas mesmas e roupas simples, apesar de terem cara de gente rica; alguns deles inclusive pareciam ser europeus. Estava na cara que eram gente — ou melhor, foram gente — d’A Comunidade!
Olha a ironia: eu estava prestes a ter minha carne destroçada por zumbis vegetarianos! Era o meu fim!
Ei, peraí! Zumbis vegetarianos???? Mas é claro!!!
Gritei:
— Miolos são carne! Miolos são carne!!!
Os zumbis, que já estavam tentando morder minha cabeça, deram uma vacilada. Foi o suficiente para eu dar um violento chega-pra-lá neles. Consegui me soltar e logo vislumbrei a salvação! Corri em direção a um carrinho mão que estava cheio de cabeças de repolho, e comecei a atirá-las para os mortos-que-andam, gritando:
— Miolos vegetarianos!! Quem quer miolos vegetarianos? Não maltrate um animal, coma miolos vegetarianos!

Miolos Vegetarianos
Eles atacaram o repolho, mas sem tanta empolgação. Compreensível. É como para nós humanos optarmos por proteína de soja em lugar de uma picanha. Pode fazer bem para uma ideologia e até para a saúde, mas não dá pra comparar o sabor.
Voltei para o hotel, de onde dei o alarme de zumbis. De lá mesmo ouvi os tiros dos paramilitares que guardavam a cidade, detonando os zumbis comedores de repolho. Por fim, fiz as malas vendo TV aberta, coisa que não fazia aos sábados havia muuuuuuuitos anos, e tirei uma hora para ler um pouquinho e, em seguida, dormi instantaneamente.
Por um milagre, consegui não perder a hora. Pelo contrário, acordei ainda de madrugada e, para não correr riscos, cancelei o resto da noite de sono. Li mais um pouco e fui me despedir da minha mãe. Felizmente ela estava realmente bem melhor. Também me despedi, frustrado, da Jolie. Tirando um momento em que ela pareceu querer uma aproximação, e outro em que ela veio pedir comida, não estive nem perto de conseguir fazer amizade com ela.
Também foi muito estranho não ver minha irmã. Ela estava bem perto, numa das fazendas d’A Comunidade, mas pelos votos que fez na vida, é possível até que eu nunca tenha a chance de vê-la algum dia.
Na rodoviária, embarquei num dos carros do comboio que seguia rumo a 3 corações. Seriam, com muita sorte, dois dias intensos até finalmente ver uma cama de novo. Mas valeria a pena: eu estava buscando refúgio no meu pedacinho favorito do mundo: Itacaré, Bahia.
Mas não iria ser tão fácil chegar lá…
[Continua em Minhas férias de verão 2010/2011 — Parte 6]

6 comentários
Minhas férias de verão 2010/2011 – Parte 4 | ChristianGump.net | ChristianGump.net says:
Mar 10, 2011
[...] em Minhas férias de verão 2010/2011 – Parte 5.] Post anteriorO que acontece no mundo Próximo postMeu [...]
Minhas férias de verão 2010/2011 – Parte 6 | ChristianGump.net | ChristianGump.net says:
Mar 12, 2011
[...] 01:28 Nenhum Comentário (Forever Alone!) [Este texto é a sexta parte de uma série. Leia a parte 5 ou então vá para o início da [...]
Mel says:
Mar 18, 2011
Nossa, agora que fui ver que mudou o layout! Ficou melhor
E deixa eu ver se eu entendi: você vem de uma família que vive em uma comunidade hippie ou algo do gênero?
(mil perdões se isto soa preconceituoso, mas vindo de você com seus Ipods e churrascos, isto é no mínimo muito muito muito engraçado)
Aguardo ansiosamente a próxima parte!!
Mel says:
Mar 18, 2011
agora que fui ver que a outra parte já saiu. duuuh
vou ler x]
Gump says:
Mar 18, 2011
Algo do gênero. Já vi gente definindo como “monastério esotérico”, apesar de o povo lá odiar essa definição. Pra vc ver que cada pessoa é diferente mesmo. Eu e minha irmã tivemos a mesma criação, mas ela virou monja, renunciando a tudo do mundo, e eu sou totalmente mundano!
Putz, eu tinha esquecido de colocar o link para a 6a parte, já coloquei agora! Valeu, Pseudo!!
Mel says:
Mar 28, 2011
Que loucura menino!
Sei como é isso, eu e meus irmãos somos completamente diferentes…