Goiânia, 17 de dezembro de 2010
Apesar de ter tido apenas duas horas de sono, eu deveria ter amanhecido animado. Faltavam poucas horas para iniciar o recesso no trabalho, o que para mim seria, na prática, um período de férias. Mas alguma coisa me incomodava, e não era o tanto de afazeres que eu teria naquela manhã. Talvez tenha sido um momento de premonição.
Com dificuldade, ralei pra caramba, encerrei os trabalhos do dia, e voltei para casa. Tinha ganhado a tarde de folga.
Não me lembro de ter ido para a cama, mas no fim da tarde eu acordei ali, com uma horrível gritaria vinda lá de fora! Foi o que me despertou. Porém, agora reinava o silêncio.
Quando olhei pela janela, a movimentada avenida em que eu moro encontrava-se totalmente vazia.
Muito estranho!
Desci até a portaria para averiguar. A porta do prédio encontrava-se trancada por dentro com uma grossa corrente. Havia rastros de sangue no chão.
Olhei pelo vidro da porta, que agora estava inteiramente quebrado, e avistei pelo menos uns 5 corpos, todos com a cabeça esmagada, ou simplesmente sem cabeça!
Um arrepio ainda percorria a minha espinha, quando ouvi resmungos guturais atrás de mim. Virei-me a tempo de ver o administrador do prédio, com o rosto todo desfigurado, a roupa ensanguentada e um pé quebrado virado para o lado de fora, vindo em minha direção.
— Miooooooooooolos! — ele rosnava.
Hesitei por um instante. Tal cena me era muito familiar, mas apenas em filmes de zumbis.
“Zumbis não existem”, era o que eu pensava no exato instante em que as fedorentas mãos cheias de feridas do administrador se puseram nos meus ombros e sua mandíbula abria e fechava em bizarras tentativas de morder minha cabeça. Eu me defendia instintivamente, ainda atônito pelo inusitado da situação! Só quando caí na real, muitos instantes depois, é que comecei a lutar ferozmente pela minha vida e consegui me livrar do zumbi, jogando-o com força na parede.
Corri em direção a um depósito nos fundos do prédio, com o morto-vivo rosnando e vindo atrás de mim. O depósito estava uma zona, exatamente como eu esperava e desejava. Procurava algo para usar como arma, e minhas habilidades peculiares foram muito úteis nessa tarefa: tropecei num pedaço de madeira que formava um perfeito porrete!
Levantei-me já com o porrete na mão, bem a tempo! Acertei com vontade uma porretada na cabeça do administrador! Ela se estraçalhou, fazendo voar sangue e miolos para todos os lados.
Eu não pude deixar de esboçar um sorriso: havia matado meu primeiro zumbi!
O silêncio novamente reinava no prédio de dois andares. Corri para confirmar que a porta da frente estava bem fechada, e sabia que era o único lugar por onde alguém poderia entrar. Já houve um incêndio no prédio e naquela ocasião constatei que não havia como sair para fugir do fogo. Entrar no prédio então, seria impossível para um ser não pensante como um zumbi.
Sem idéia do que fazer a seguir, comecei a revistar a portaria. Fui abrindo as gavetas e, na última, encontrei nada menos que um fuzil, uma pistola e munição para ambas!
Isso provou que os filmes de zumbis estavam certos! Quando há uma epidemia de zumbis, você sempre encontra armas dando sopa!
Eu não sabia usá-las, mas a internet ainda funcionava. Foi só procurar no Google, fazer alguns disparos e pronto! Se eu não sabia atirar como um profissional, ao menos não estava indefeso.
Notei que não só a internet, mas também as redes de telefonia celular ainda funcionavam. Saí percorrendo todos os apartamentos do prédio, a procura de outros sobreviventes, mas parecia que todos já tinham fugido. Consegui juntar alguns smartphones largados para trás, armas e até um rádio transmissor! Eu comprovei mais uma vez que os filmes estavam certos: em caso de infestação de zumbis, você sempre conseguirá um rádio e saberá usá-lo instintivamente!
Não captei nada, mas navegando num dos smartphones, descobri um fórum de sobreviventes de Goiânia, onde eles discutiam, em igual intensidade, música sertaneja e formas de sobrevivência. Estavam todos muito sensibilizados porque uma adolescente postou o link para um vídeo ao vivo em que ela se matava. O motivo: descobriu que Luan Santana tinha virado zumbi.
Então, um tópico novo surgiu: “Venham para o Araguaia Shopping! Teremos transporte para lugares seguros!”
Claro!! Aprendi em “Madrugada dos Mortos” que se houver ataque de zumbis, eu tenho que procurar refúgio num shopping. Tudo bem que o Araguaia Shopping é meio peculiar, mas tudo depende do ponto de vista. Afinal, o local também funciona como rodoviária de Goiânia. Então é um Shopping xexelento, mas uma rodoviária de alto nível.
Constatei que fugir para lá era a segunda coisa mais urgente no momento! A primeira era comer as pizzas e outras comidas que achei nas geladeiras dos vizinhos.
Numa sacada do primeiro andar, com pizza na barriga e mochila nas costas, olhei a rua. Estava deserta. Era chegada a hora de sair.
Desci silenciosamente por uma corda e comecei a caminhar, com toda atenção, rumo ao shopping-rodoviária.
Mas não fui longe. No cruzamento triplo entre a av. Araguaia, a rua 4 e a rua 20, surgiu uma horda de zumbis que vinham de todos os lados e andavam, de forma trôpega porém veloz, em minha direção, gritando dessincronizadamente “mioooooolos”.
Comecei a atirar. Cabeças explodiam maravilhosamente, não graças à minha pontaria, mas sim porque independente de onde eu atirasse, acertava em algum zumbi. E para cada um que eu abatia, surgiam 5 no lugar.
Mas eu era a coragem e a tranquilidade em pessoa. Enchi os pulmões e deixei minha valentia transparecer em um só grito de guerra:
— Puta que o pariu, tô fudido!
Então, subitamente, me lembrei de algo que vi em um filme. Nele, os zumbis tinham algum tipo de recordação do que fizeram em vida e repetiam certas ações instintivamente. Minha esperança era que esse filme estivesse com a razão! Era minha única chance!
Então, corri para o bar da esquina, juntei as mesas em tempo recorde e abri algumas cervejas.
Por um momento os zumbis pararam, parecendo confusos. Então, foram se sentando em volta das mesas.
Funcionou!!!
É que goiano não pode ver uma mesinha que já tem que sentar. É por isso que há 1,56 boteco por habitante na capital do estado. É algo que faz parte da vida aqui no Centro-Oeste.
Enquanto os zumbis iam juntando mais mesas e se acomodando, eu saí correndo pela rua 20 sem olhar pra trás. Sabia que a qualquer momento eles iriam constatar que o garçom estava demorando demais para trazer o espetinho de miolos com feijão tropeiro e mandioca e voltariam a me perseguir!
Nisso um táxi passou por mim buzinando e parou bruscamente um pouco mais à frente, esmagando o braço de um cadáver. A porta se abriu. Zumbis já começavam a surgir novamente, vindo de todos os lados! Então eu corri, abri a porta e entrei.
Era meu motorista particular, digo, taxista de estimação. Poucas pessoas sabem mais da minha vida do que ele, só de me transportar para os lugares. Quem diria que justamente ele seria minha salvação.
Então, ele ligou o taxímetro e perguntou:
— Para onde hoje, chefe?
Filha da puta!
Deixou-me, conforme pedi, no Araguaia Shopping e cobrou 30 reais pela corrida. Dois terços deste valor eram referentes à taxa para dirigir no meio dos zumbis. Apesar dos meus avisos de que no local haveria transporte para uma região segura, o taxista preferiu ficar em Goiânia.
— Estou ganhando 5 vezes mais transportando sobreviventes! Não saio daqui por nada!
Depois de ser comprovado que eu não havia sido mordido, o grupo que fazia a segurança do local me deixou entrar. Não sem uma grande discussão antes.
— Uai, ele tá pálido demais, tá morto não? — disse um deles.
— Uai, ele é gaúcho! É branco assim mesmo!
Guardei meu tradicional “gaúcho é a mãe!” para mim mesmo.
Uma vez na área protegida do shopping/rodoviária, me atualizei sobre a situação. Soube então que havia algumas regiões ainda consideradas livres de zumbis. Teria um comboio saindo de Brasília e indo para uma dessas regiões. Segundo informações, a “epidemia” estava contida para baixo da divisa entre São Paulo e Paraná, então optei por ir para lá.
A previsão de chegada do transporte ali na rodoviária era por volta das 22h30, mas já eram 23h15 e nem sinal deles. Eu já estava desesperado! A todo momento era possível escutar os tiros do grupo que defendia o local, bem como os gritos dos zumbis tentando furar o bloqueio.
Será que o comboio desistiu de recolher os sobreviventes de Goiânia? Será que passariam direto? Será que sofreram um acidente e viraram refeição de mortos-vivos?
Para piorar, uma senhora veio me perguntar se eu ia até Porto Alegre, destino final do comboio. Falei que pretendia ficar em Curitiba, para encontrar meus amigos. Ela disse que poderia jurar que eu ia ficar em Porto Alegre, porque eu tenho cara de gaúcho.
Sério, qual o problema desse povo?
Enfim, por volta da meia noite, o meu comboio chegou. Vários outros indo para diversos destinos já haviam chegado e saído antes disso. Como todas as vezes em que precisavam abrir os portões para deixar os veículos entrarem na rodoviária, foram disparados fogos de artifício, que tinham o poder de atrair a atenção dos zumbis. Por um momento eles esqueciam sua obsessão por miolos e ficavam a admirar o colorido no céu.
Porém, justo na hora em que o meu comboio chegou, os zumbis pararam de se impressionar com o espetáculo e começaram a invadir a rodoviária. Peguei meu fuzil e fui ajudar na defesa, estourando várias cabeças de zumbis. Mas eles eram muitos! Não havia como fechar o portão. Então eu gritei:
— Toca Victor e Leo!
Alguém dentro da rodoviária pensou rápido e botou os auto-falantes para tocarem o som da dupla.
Mais uma vez meu conhecimento de estereótipos funcionou! Os zumbis ficaram estagnados, curtindo o som, enquanto nós pegávamos armas mais silenciosas, como bastões e machados, e batíamos com força em suas cabeças, até liberar o caminho para o fechamento dos portões.
— Pronto, podem desligar a música!! — gritei.
Mas me ignoraram. O povo estava curtindo. Concluí que na verdade minha idéia tinha sido péssima. Agora eu tinha que aguentar Victor e Leo! Melhor teria sido enfrentar os zumbis!
Tirando a música, o embarque foi tranquilo. Muita gente dormia tranquilamente no ônibus em que eu entrei, como se não estivesse acontecendo o princípio do fim do mundo. Consegui uma poltrona bem na frente, onde estava bem geladinho. E o melhor: eu estava sem vizinho de poltrona!
Partimos. Os zumbis continuavam sob o efeito de Victor e Leo, aparentemente mais duradouro que o dos fogos de artifício, e o ônibus não tinha problemas em atropelá-los, esmagá-los e mutilá-los.
A viagem seguiu bem tranquila, mas eu não consegui dormir. Não por causa da situação, e sim da minha insônia natural mesmo. Fiquei assistindo filmes de zumbis que baixei no iPod, afinal conhecimento nunca é demais.
De vez em quando o comboio fazia algumas paradas, mas poucos sobreviventes eram encontrados no caminho. Zumbis sim, encontrávamos vários, que eram devidamente atropelados.
Às 7 da manhã, paramos num restaurante de beira de estrada, aparentemente abandonado, exceto por duas funcionárias zumbis. Eu mesmo matei uma delas, não sem antes constatar que era uma pena. Tão bonitinha pra virar zumbi!
Refizemos nosso estoque de comida e voltamos para o busão. Eu morrendo de sono e feliz por finalmente ter chegado meu horário natural de dormir. Enfim iria descansar e deixar a preocupação com o fim do mundo para depois.
Porém, as pessoas decidiram que já tinham dormido demais e o motorista da vez colocou um DVD em alto volume. Nhaca! Não ia conseguir dormir. O jeito era assistir.
Nhaca de novo! O filme era “Desafiando Gigantes”. Que filme ruim! Não é nem um filme, é pura pregação religiosa, para falar a verdade.
Comemorei muito quando ele acabou e começaram a passar uns filmes ruins do Martin Lawrence.
Então, o comboio parou em Lins, já no estado de São Paulo. A cidade estava devastada, mas silenciosa. Não se via nenhum zumbi. Algumas pessoas corajosas desembarcaram ali mesmo, dizendo que iriam procurar notícias dos parentes que moravam nos arredores. Mas muitas outras embarcaram, incluindo várias famílias. Muitas mulheres bonitas procuravam poltronas vagas, mas nenhuma sentou ao meu lado. Torci então para continuar sozinho. No fim, só restava um casal com seu filho gordinho. O casal entrou e se sentou atrás de mim. Faltava a criança… O que se passava na minha cabeça era…
— Não… Não… NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO!!!
E o molequinho sentou-se ao meu lado, todo melado de chocolate.
[Continua em: Minhas férias de verão 2010/2011 – Parte 2]

11 comentários
Camila Vieira says:
Jan 24, 2011
Chorando de tanto rir com o seu drama com os zumbis-sertanejos. Curiosiossima pra ler a proxima parte do relato, rsrs
Masaru Hoshi says:
Jan 25, 2011
Agora faz o favor de escrever rápido porque quero saber o que acontece quando se chega em Curitiba e os zumbis não te atacam porque não comem miolos de quem não conhecem =)
Minhas últimas palavras | ChristianGump.net says:
Jan 28, 2011
[...] ainda continuarei a minha linda redação sobre o que aconteceu quando tirei minhas férias de verão e o mundo foi assolado por uma epidemia de [...]
Minhas férias de verão 2010/2011 – Parte 2 | ChristianGump.net says:
Jan 30, 2011
[...] Arquivado em: Contos, viagens Sunday30/Jan/2011 [Este texto é a segunda parte de uma série. Leia a parte 1.] [...]
Pessoa says:
Feb 2, 2011
PQP, Pessoa, eh uma hora da manha e eu vou ter que ler outro post pra saber o final?????
btw, chorei de rir com: “— Toca Victor e Leo!”
Gump says:
Feb 2, 2011
Pessoa!!
Até parece que não me conhece! Eu lá sei ser sucinto? Ainda faltam umas 200 partes até o final da história
E aqui é bem mais tarde, mas a insônia veio me fazer uma visita!
Minhas férias de verão 2010/2011 – Parte 3 | ChristianGump.net says:
Feb 3, 2011
[...] em: Contos, viagens Thursday3/Feb/2011 [Este texto é a terceira parte de uma série. Leia a parte 2 ou então vá para o início da [...]
Minhas férias de verão 2010/2011 – Parte 4 | ChristianGump.net says:
Feb 22, 2011
[...] em: Contos, viagens Tuesday22/Feb/2011 [Este texto é a quarta parte de uma série. Leia a parte 3 ou então vá para o início da [...]
Minhas férias de verão 2010/2011 – Parte 5 | ChristianGump.net | ChristianGump.net says:
Mar 10, 2011
[...] 04:24 Nenhum Comentário (Forever Alone!) [Este texto é a quinta parte de uma série. Leia a parte 4 ou então vá para o início da [...]
Minhas férias de verão 2010/2011 – Parte 6 | ChristianGump.net | ChristianGump.net says:
Mar 12, 2011
[...] 01:28 Nenhum Comentário (Forever Alone!) [Este texto é a sexta parte de uma série. Leia a parte 5 ou então vá para o início da [...]
Minhas férias de verão 2010/2011 — Parte 7 | ChristianGump.net | ChristianGump.net says:
Mar 25, 2011
[...] 02:30 Nenhum Comentário (Forever Alone!) [Este texto é a sétima parte de uma série. Leia a parte 6 ou então vá para o início da [...]