[Este texto é a nona parte de uma série. Leia a parte 8 ou então vá para o início da saga.]

Itacaré, 31 de dezembro de 2010

Mesmo tendo chegado ao amanhecer, não deu pra dormir até tarde. O calor na Bahia é implacável e o quarto no Hostel não tinha ar-condicionado. Ainda não sei como eu consegui não reparar nisso na hora de fazer a reserva.

O meu salário e as armas que os funcionários públicos estavam recebendo junto com o pagamento ainda não estavam disponíveis. Eu já começava a ficar preocupado. Na Bahia, em alta temporada, se você respirar mais forte terá que pagar uma taxa pelo ar adicional. Imagine então quando, além de alta temporada, a Bahia é um dos poucos lugares no Brasil, e quiçá no mundo, ainda livre de zumbis!

Mas não deu pra manter o foco na preocupação. Um carro cujo som dava pra ser ouvido do outro lado da cidade, alternando “Vou não/quero não/minha mulher não deixa não” com “Foge foge Mulher Maravilha” ininterruptamente, simplesmente explodiu! Ninguém entendeu o que aconteceu. Curioso, fui olhar. Vi que, ao contrário do ditado popular, a curiosidade ali tinha matado um barango! Muitos dos que curtiam o axé em volta do carro na verdade eram zumbis e estavam sob a mesma influência que os zumbis goianos ao som de Victor & Leo! Um carinha desdentado que tinha se aproximado para ver o que tinha acontecido foi devorado em questão de segundos!

O pânico se instaurou entre nativos e turistas, e eu corria conclamando para todos tocarem axé no som de seus carros! Porém eles não entendiam por que diabos aquele “gringo” estava querendo ouvir música baiana quando deveria estar correndo para salvar sua vida!

Esses baianos ainda eram muito inexperientes com zumbis, coitados!

Os mortos-vivos começaram a correr atrás dos turistas que voltavam da praia da concha, provavelmente por já estarem “temperados”. Os humanos davam meia volta e corriam pelas ruas de terra que terminavam na praia, deixando chinelos, pranchas e outros pertences para trás, enquanto seus pés se ensanguentavam ao pisar nas pedras. Iguais a tubarões, os zumbis ficavam loucos com isso e, mesmo sendo baianos, aumentavam a velocidade.

Talvez o que estava faltando nesse meu período baiano das férias fosse exatamente um pouco mais de ação. Corri para o hostel buscar as armas, peguei uma das bicicletas de aluguel e pedalei loucamente rumo à praia da concha! Chegando lá, descobri que é muito difícil pedalar e atirar ao mesmo tempo! O massacre de humanos era estarrecedor e a grossa areia da praia manchava-se de vermelho!

Zumbi na Praia da Concha

Zumbi na Praia da Concha

Descendo da bike, pude mirar melhor e atirava sem dó! Porém era muita gente, viva ou não, espalhada por uma longa faixa de praia. Eu já perdia as esperanças de conseguir ajudar alguém, quando um turista, em fuga, esbarrou num carrinho de acarajé, derrubando tudo.

A visão daqueles acarajés todos espalhados pela praia atraiu a atenção dos zumbis, que largaram o que estavam fazendo (devorando cérebros — o que mais zumbis poderiam estar fazendo?) para se encaminhar, como que em transe, em direção ao carrinho tombado pelo turista. Imagino que se eu fosse zumbi, entraria num transe parecido se alguém derrubasse um carrinho cheio de pizza!

Ao ver as criaturas sanguinárias naquele estado, o turista sorriu, aliviado. E este sorriso ainda estava no seu rosto quando um zumbi enorme arrancou o topo de sua cabeça com uma só mão e jogou longe, retirando com a outra mão o cérebro do infeliz. Rasgou então nacos de miolos e tacou dentro de um acarajé, junto com vatapá e vinagrete, e banqueteou-se. Mais zumbis seguiram-no, recheando com cérebros de suas vítimas os acarajés que encontravam no chão.

E eu encontrava-me paralisado, olhando fixamente o corpo já sem cérebro do turista, que mantinha um mórbido e tenebroso sorriso no rosto.

Fui despertado do meu torpor por uma explosão que trucidou todos os zumbis que se encontravam na minha frente. Era o exército que chegava tomando conta da situação. Eu só conseguia gritar:

— Não sou zumbi, não sou zumbi!

Um soldado que apontava um fuzil em minha direção parecia aguardar uma comprovação. Foi quando eu vi os restos de cérebro que a explosão fez grudar em minha camiseta. Fiz uma máscula cara do nojo.

— Ok, acredito em você! — convenceu-se o soldado.

Fui agarrado por dois militares que me inspecionaram à procura de mordidas. Outros dois me apontavam suas armas, enquanto um quinto me dava instruções:

— Você não viu nada! Foi apenas um foco isolado e o exército mantém pleno controle da situação, entendido?

Não discuti. Queria manter-me vivo e entendia que criar pânico não ajudaria nada. Segui com a minha vida.

Passei o fim do dia com a turma do Hostel, que realmente acreditava que estava tudo tranquilo, conforme o exército noticiava. Eu mesmo tentava acreditar que estava tudo certo.

À noite foi cada um para um lado. Eu estava bem decidido: iria passar a virada na orla, de graça. No ano anterior eu havia feito isso e tinha sido perfeito! Tão bom que eu cheguei a pagar por uma festa e nem entrei nela. Doei minha entrada para um amigo baiano. Por tudo isso eu tinha esperanças de que, estando no mesmo lugar, a chegada de 2011 seria tão boa quanto foi a de 2010!

Mesmo sem salário e com poucas armas.

Mesmo com zumbis destruindo o mundo tal qual eu conhecia.

Fui então com um colega brasiliense para um pré-reveillon num bar novo na orla. Uma irlandesa chamava cada um dos possíveis clientes:

— Venga, Venga!

Depois ela nos explicou que só falava “un poquito” de português. Notei.

Os bartenders eram todos gringos, o DJ era inglês e o ambiente muito bom, apesar de quase vazio. Na pista, um gringo de uns 50 anos tentava dançar meio embasbacado enquanto uma baiana de no máximo 20, em trajes mínimos, dançava se esfregando nele. Esse encontrou tudo o que esperava da Bahia: mulheres  e segurança contra zumbis.

Há que se dizer, de passagem, que aqueles gringos donos do bar faziam a melhor caipirinha que eu já tive o prazer de provar nos últimos tempos!

Não ficamos muito tempo lá, já que fecharia cedo e ainda iríamos procurar o lugar para passar a virada do ano em si. Sem falar que a mulherada ia chegando e rodeando apenas os gringos endinheirados. Eu até passaria por gringo se tentasse, mas a parte do endinheirado seria bem complicada, graças ao meu nada amado atual ex-governador (e graças à minha pobreza natural, claro).

Fomos até o ponto central da orla, de onde eu tinha tão boas recordações do ano anterior. Para minha frustração, estava meio caído. Pior, estava tocando sertanejo!! Ainda pior, era um sertanejo tão absurdamente ruim que nem goiano suportaria. A baianada então, estava totalmente com cara de bunda. Maçante!

Como meu plano estava um fiasco, optamos pelo de meu amigo, que era passar a virada do ano na Casa Amarela, onde estava rolando uma festa anos 80. Entramos. O ambiente também era muito bom, a música perfeita e os drinks altamente embebedadores! Porém, estava bem meia boca, havia apenas turistas e em pequena quantidade.

De repente, ele chegou! O já capenga 2011, que iniciava em meio a uma das maiores crises que a humanidade já enfrentou.

Nessa hora, todo mundo sempre se abraça, e a gente aproveitava para socializar. Um gringo bêbado chegou todo feliz perguntando de onde a gente era, e ficou puto com a resposta. Não entendia como podia ter tanto brasileiro ali. Pois é, né? Quem diria que tinha tanto brasileiro no Brasil?

Nesse abraça daqui, abraça dali, conhecemos duas moças muito bonitas e simpáticas, A Perla e a Asdrubalina (este último nome é obviamente fictício, já que eu não costumo lembrar dados supérfluos como nome, de onde são, etc). Nós quatro conversamos e rimos bastante por uns 10 minutos, quando elas falaram que iam andar um pouco na orla porque a festa ali na Casa Amarela estava caída, e nos convidaram para ir junto. Quase nos puxaram. Meu amigo falou que ia depois, que tinha fé que a festa ficaria melhor, e que as encontraria mais tarde. Enquanto isso eu procurava todas as maneiras possíveis de dar um soco nele sem elas perceberem.

Desisti e passei a argumentar claramente com ele que deveríamos acompanhar as moças, enquanto elas  me ajudavam a a tentar convencê-lo. Em vão!

Então eu tomei a primeira péssima decisão do ano, com apenas alguns minutos de 2011 — praticamente um recorde mundial: optei por permanecer com meu amigo na festa e encontrar, quem sabe, por acaso, as meninas em qualquer lugar de Itacaré mais tarde.

A festa não rendeu muito. A música estava espetacular, mas o local não bombou, e acabamos saindo para dar uma volta mesmo. Fomos até o ponto central da Orla novamente, e ainda estava bem caído por lá. Nem parecia o local em que eu tinha passado o melhor reveillón da minha vida um ano antes. O único “agito” grátis na cidade era em volta de algum carro que ligava o som. Sempre juntava algumas mulheres ávidas por rebolar e alguns caras ávidos por mulheres rebolando. Não era exatamente o tipo de festa que eu tinha em mente. No ponto central, permanecia uma grande multidão parada com cara de bunda.

Multidão chateada na orla de Itacaré

Multidão chateada na orla de Itacaré

Eis que surge alguém correndo gritando o meu nome. Isso era totalmente inesperado naquele momento. Era uma das mentirosas (ver capítulo anterior), que chegou desejando feliz ano novo. Fui dar um abraço nela e ela se afastou. Depois de conferir discretamente se eu estava fedendo (e constatar que não estava), reclamei, indignado:

— Calma, eu só vou te dar um abraço!

Ela me abraçou, meio sem jeito, quando eu lembrei que ela tinha me dito que passaria o reveillón na “Cabana Corais”, onde rolava a festa fechada mais tradicional da cidade. Inclusive ela tinha insistido muito para eu ir lá nessa festa para encontrá-la. Ah, Mentirosa… Te peguei no pulo, de novo!

Mas nem pude perguntar nada. Pessoas começaram a correr desesperadamente para todos os lados, gritando “Zumbis, zumbis!

Eu não quisera carregar peso e, portanto, estava desarmado novamente. Mas a correria logo parou. Aparentemente havia acontecido apenas uma briga e, quem não sabia o porque do corre-corre, achou se tratar de mais zumbis e espalhou o boato.

Estava tudo bem, mas eu havia me perdido tanto da Mentirosa quanto do meu amigo. Comecei a rodar a cidade sozinho, com uma ou outra conversa isolada e sem graça aqui ou acolá. Sempre que uma conversa não rendia ou ficava chata, eu tinha a desculpa de “tenho que ir procurar meu amigo”.

Depois de dar uma volta na praia da concha, que após grande operação de limpeza feita pelo exército encontrava-se sem sinal da carnificina daquela tarde, resolvi encerrar a um tanto quanto frustrante primeira madrugada do ano. No hostel, apenas o casal italiano encontrava-se dormindo, e eu me sentia mal por ser o primeiro a chegar da noitada.

Eu ainda não sabia, mas no fim foi melhor assim…


[Continua em Minhas férias de verão 2010/2011 — Parte 10]