[Este texto é a décima-primeira parte de uma série. Leia a parte 10 ou então vá para o início da saga.]

Morro de São Paulo, 3 de janeiro de 2011

Logo ao chegar à ilha, reparei que as coisas ali seriam complicadas: paguei mais caro na taxa pra entrar do que tinha pagado pelo barco. Realmente, se eu respirasse um pouco mais forte, seria cobrada uma taxa pelo excesso. Estranho o dinheiro continuar circulando em época de mortos voltando a andar, mas assim foi.

A próxima missão foi evitar os “taxistas”. Não são permitidos carros na ilha, mesmo porque eles não teriam onde circular, mas há veículos para transporte de bagagem que são chamados de táxi. São esses da foto abaixo:

Táxis

Os Táxis de Morro de São Paulo

O mané aqui esqueceu de tirar uma foto de um detalhe: existem vários desses “táxis” que são realmente pintados e têm a palavra “táxi” escrita neles. Pitoresco.

Missão seguinte: encontrar a pousada. Eu não entendi nada do que meus amigos me explicaram. “Vira à direita não sei aonde, vira à esquerda no beco, vai até o fundo sei lá de onde, passa por sei lá o quê…

Muito complicado. Eu só me lembrava da empolgação do Fedora com a reserva que ele tinha feito.

— Gump, você não faz ideia! É muito perto do mar! A gente vai atravessar uma calçadinha e pronto! Tá no mar!

Essa descrição, que eu confirmei no mapa, não batia com tal instrução doida de virar em não sei que beco. Eles deviam estar bêbados quando eu liguei.

Caminho rebaixado para passagem de táxi

Todas as calçadas por ali são adaptadas para a passagem dos "táxis"

Então eu passei pela Primeira Praia, pela Segunda Praia, fui quase até o final da Terceira Praia (sim, é assim que elas se chamam) e, já cansado pelo peso das mochilas, finalmente encontrei: Pousada Paradise.

Totalmente fácil de achar! Por que é que os manés tinham complicado tanto?

Perguntei por eles, e aí as coisas começaram a ficar estranhas…

— Ah, eles estão lá na outra pousada, vou levar o senhor lá.

Hum… Outra pousada?? Não entendi, mas não me restou outra opção a não ser seguir a mulher que me guiava por uns becos por trás da “rua” principal. Agora sim aquelas explicações todas faziam sentido .

Cheguei num longo salão de café, atravessei-o inteiro, passei por um portão estranho, percorri uma área cheia de tanques e máquinas de lavar roupa e cheguei enfim ao que parecia um “puxadinho”, onde havia mais quartos. Era lá que meus amigos estavam!

Já encontrei-os meio indignados com algo relacionado ao quarto, mas nem dei muita bola. O que me assustou foi a notícia de que havia zumbis do outro lado da ilha e que alguns atravessavam pelas pedras até o nosso lado.

Nem ali eu teria paz??? O mundo estava perdido mesmo!

Mas então meus amigos me passaram a sugestão deles: ir embora da ilha já no dia seguinte, ainda antes do almoço. Nem tanto por causa da segurança, mas principalmente porque haveria ensaio do Olodum em Salvador e eles queriam ir. Depois, procuraríamos abrigo na Praia do Forte, mais um lugar dito como “livre de zumbis”.

Eu detestei a idéia do Olodum e lamentei deixar a ilha tão cedo, mas topei. E tratei de tentar aproveitar a praia. Como eu tinha virado a noite em claro, “aproveitar a praia”, no meu caso, significou dormir numa sombra, acordando de vez em quando para tomar uma cerveja.

A vida não estava tão ruim afinal.

À noite, um acontecimento terrível me acordou de um pulo. Zumbis? Não. Aquele puxadinho da pousada era tão mal-feito que a água que saía do ar-condicionado ia direto para um garrafão. Quando ele enchia… bem, a água saía pelo outro lado: dentro do quarto! Resultado: um quarto totalmente alagado!

Só percebi porque estava dormindo num colchão no chão. O resto da noite foi reservado a salvar as malas e mochilas encharcadas. Sendo assim, decidi não voltar a dormir e sair cedão para tirar fotos da ilha, já que não teria tempo de conhecê-la direito.

Informação altamente precisa...

Informação altamente precisa...

Quando subi ao alto do morro, onde há a tirolesa e o farol, consegui ver algumas pessoas matando zumbis ao longe. Sim, havia zumbis na ilha. Estava confirmado!

Mas aparentemente seria difícil para eles conseguirem atravessar para o “nosso” lado. Pelo menos por um tempo.

E eu inventei de cortar caminho por essas pedras até a praia, com uma mochila cheia de eletrônicos e armas... Não sei como não fiz gumpice!

Voltei para a pousada a tempo de tomar café com o Malandrão e o Fedora. E aí o estabelecimento mostrou o quanto bom atendimento não é a sua praia.

Saímos do quarto no “puxadinho”, passamos pela área de serviço e chegamos ao salão. O Malandrão comentou algo sobre eles tentarem nos matar se sentássemos em algum lugar, mas eu não entendi direito. Não deu pra perguntar, porque logo ambos encontraram duas argentinas conhecidas que tomavam café, e foram lá conversar.

Como eu estava sobrando e morrendo de sede, deixei-os lá e resolvi pegar uma água. Mal eu cheguei na frente do bebedouro, um cara da pousada chegou correndo, gritando e me xingando. Ele estava tão agressivo e vociferava tantas coisas por segundo com sotaque baiano que eu não entendi nada e virei pro povo que me olhava, em especial pro Malandrão e pro Fedora, em busca de uma explicação do que acontecia ali.

— Não pode! Não pode!

Foi a única coisa que eu entendi o cara da pousada falar, enquanto ele arrancava violentamente o copo da minha mão.

Meus amigos me tiraram de lá, pois eu já estava em posição de retribuir a grosseria, enquanto me explicavam a bizarra situação em que a gente se encontrava.

Bizarra mesmo!

Nossa reserva era da Pousada Paradise, aquela que fica na frente da praia, mas como não havia mais lugar na pousada em si, fomos passados para um “anexo”. O problema é que esse anexo, pertencente à Pousada Paradise, fica nos fundos de outra  pousada (chamarei aqui de pousada X, pois não lembro o nome dela), com outros donos, que aparentemente não se dão bem com os donos da Paradise. Tínhamos que atravessar o salão inteiro da pousada X para chegar ao nosso puxadinho, e os funcionários da X ficavam sempre nos olhando de cara feia, prontos para o ataque em caso de cometermos inomináveis abusos como pegar um copo d’água.

Soube que um dia, quando eu ainda estava em Itacaré, faltou água no puxadinho. Meus amigos, que ainda não sabiam desses detalhes todos, foram então escovar os dentes no banheiro do salão da Pousada X. Foi um escândalo, foram quase chutados de lá!

Finalmente entendendo (mas não compreendendo) o ataque que eu tinha sofrido minutos antes, caminhei, junto de meus amigos, até aquela que oficialmente era a nossa pousada, onde tínhamos mais ou menos o direito de tomar café. Digo “mais ou menos” porque lá eles também ficavam de olho, desta vez para não pegarmos comida numa quantidade que eles considerassem além da conta, e deixavam claro que estavam fazendo isso. Suco? Só um copo e nada mais! Simplesmente não repuseram mais a jarra ao lado do buffet, chegando  a dizer que tinha acabado a laranja.

Tentaram nos fazer enxergar as coisas pelo lado bom: Já que íamos pegar o barco para o continente, era bom comer bem pouquinho. Assim não passaríamos mal…

Logo que nos dirigimos à saída do salão de café, a moça da pousada foi correndo repor a jarra de suco. Daquela mesma laranja que tinha acabado.

Tudo bem que era alta-temporada e o mundo tinha acabado, mas pelo valor que estavam cobrando de pobres refugiados, merecíamos um tratamento melhor.

Enfim, fomos embora dali e embarcamos na lancha rumo a Valença. A saída demorou pra caramba. Muita gente querendo embarcar e sem receber permissão por algum motivo, enquanto a lancha não ia embora porque ainda não estava estupidamente lotada.

Quando todos já estavam impacientes, uma gumpice (curiosamente não cometida por mim) deixou o ambiente ainda mais hostil. O piloto da lancha carregava uma mala aparentemente pesada nas costas e a deixou cair exatamente em cima de um bebê!

Enquanto a mãe saía desesperada procurando atendimento médico para a criança, o idoso que a acompanhava enchia o piloto da lancha de socos. Felizmente para o infeliz piloto gumpesco, a chuvarada de socos não tinha potência. Assim que o senhor idoso também desembarcou, o piloto, com medo, decidiu que era hora de partir, mesmo com lugares vagos.

Ambulancha

A ambulância, digo, AMBULANCHA, que atendeu a criança vítima de gumpice.

A travessia foi tranquila. Já no continente, pegamos o carro do Fedora e partimos rumo a Salvador. Não vimos um único zumbi em momento algum, mas numa parada na estrada ouvimos uma conversa e nos intrometemos para saber mais.

Soubemos então que a balsa que liga Itaparica a Salvador estava com uma fila gigantesca devido a constantes ataques de zumbis. Muitas pessoas largavam seus carros ou eram mordidas no meio do engarrafamento, o que tornava a chegada até a balsa ainda mais complicada. Quem conseguia, e era autorizado pelo exército a embarcar mediante comprovação de não estar contaminado pela “epidemia Z”, enfrentava uma espera de seis horas!

Não daria para chegarmos a tempo de ver o ensaio do Olodum. Eu não estava achando ruim, já que estava cogitando nem ir, mas meus amigos estavam preocupadíssimos.

Seguimos caminho mais um pouco até chegarmos a uma área urbana, onde paramos o carro. Eu desci para confirmar a história da balsa com alguém que chegava num carro que parecia estar vindo de lá. Mal eu me aproximei, o cara desceu do veículo e começou a gritar!

— Me ajuda! Me ajuda!

Estava com uma criança ensanguentada no colo. Olhei melhor e vi que ela era uma pequena zumbi! Estava amarrada, mas assim que o pai virou-a para me mostrar e pedir ajuda, ela se soltou.

criança zumbi

No meio do caminho tinha uma menina zumbi...

Veio em minha direção fazendo barulhos horrendos — não era muito diferente de uma criança normal, portanto. Por um momento senti a dor do pai, mas eu sabia o que precisava fazer. Justo quando fazia seu barulho mais estranho, a criaturinha foi silenciada por um tiro certeiro.

Dentre as crianças, as zumbis são tão mais fáceis de lidar…

Difícil foi explicar para o pai que aquilo era necessário. Diversos moradores vieram para tentar me defender da fúria dele, cientes de que eu havia feito o correto, mas logo que perceberam as diversas mordidas em seus braços e pescoço, saíram correndo.

Uma reação inteligente que eu tratei de imitar! Saímos cantando pneu!

O pobre homem já estava condenado.

Depois de um breve debate, decidimos dar a volta pela BR, já que pelo caminho mais curto, a balsa, seria impossível chegar a Salvador.

Calculamos ser possível chegar mais ou menos a tempo, mas teríamos que ir direto, sem passar no hotel. Eu estava cada vez mais detestando a idéia! Estava suado de toda a viagem e com pedaços de cérebro de criança zumbi por toda a camiseta. Ansiava por um banho!

Teria então o tempo do contorno até Salvador para cumprir duas missões: manter-me vivo e, a mais importante, convencer os caras a passarem no hotel para eu tomar um banho antes de ir ao show…


[Continua… Em breve, a 12ª parte do relato. E sim, um dia eu termino essa história!]