[Este texto é a décima parte de uma série. Leia a parte 9 ou então vá para o início da saga.]
Itacaré, 1º de janeiro de 2011
Dormi pouco. A gritaria no quarto era infernal. Não, não foi por isso que eu acordei; foi por causa do calor, é claro!
Mal abri os olhos e já fiquei sabendo do que tinha acontecido pouco antes de amanhecer: ataques de zumbis por todos os cantos!!
Meu amigo de Brasília salvou-se por pouco, mas encontrava-se ferido devido a uma bala perdida. Quase havia sido linchado e morto na porta do hospital por suspeitarem que o ferimento havia sido causado por mortos-vivos.
A Kelly também repetia freneticamente sua história de terror. Ela estava num show numa praia cujo acesso foi fechado para o público em geral. Mas zumbis não respeitam bloqueios, e invadiram o local pela mata. Atacaram dançando ao ritmo da batida do Olodum. Sim, zumbis baianos dançam!
“Olodum tá hippie“, 10 pessoas foram mordidas!
“Olodum tá pop“, mais 30 tiveram seu cérebro devorado!
E o Olodum realmente pirou de vez quando os zumbis subiram ao palco!
Minha colega de hostel conseguiu escapar, e disse que felizmente os membros do Olodum também fugiram. Mas entre os fãs, foi um massacre!

Era esse o tal paraíso seguro de que tanto os militares falavam? Não, eu não poderia mais ficar naquele lugar, por mais que amasse Itacaré!
Tomei a decisão: iria encontrar meus amigos no Morro de São Paulo. O lugar é uma ilha, então teoricamente era muito mais fácil conter a “epidemia Z”.
Consegui um transporte para Valença para o dia 3. Não foi fácil, mas novamente usei de meu “prestígio” como criador de técnica para matar diferentes tipos de zumbis e consegui o meu lugar.
Além da difícil missão de manter-me vivo, outra coisa me afligia: meu salário não saía nunca. Li na internet que o novo governador de Goiás tomou posse em meio ao caos e, como eu imaginava, disse que recebeu o estado falido e cheio de zumbis e que tudo era culpa do governador anterior. Eu precisaria me virar com a pouca grana que eu tinha.
Acabei eu mesmo fazendo meu próprio almoço na cozinha do hostel. E cozinhar, como se sabe, é uma atividade que envolve quase tantos riscos quanto enfrentar uma horda de zumbis famintos por cérebro humano!
Foi só me distrair com algo que uma alemã dizia que, ao voltar os olhos para o que eu estava cortando, somente tive tempo de ver a faca se enterrando na carne do meu dedo! Já contei isso aqui antes. Zumbis parecem farejar sangue, e essa ferida teimava em abrir a toda hora. Estava bem arranjado!

Pra completar, o visor do meu celular morreu. Fiz um malabarismo gigantesco para ligar para o Malandrão e pegar o endereço da pousada em que eles estavam se abrigando no Morro de São Paulo. No fim da tarde, a Mentirosa me ligou no hostel, quando eu não estava. Quer dizer, ela usou o nome falso com o qual havia se apresentado. “Devia estar zoando”, foi o que eu pensei na hora.
Consegui ligar de volta e ela falou que queria me ver, que no dia seguinte haveria um evento na pracinha em frente ao hostel e que era pra eu esperá-la no local. Achei estranho, porque nunca tem evento naquela praça. Mas ela garantiu que desta vez teria. Hmm…
No mais, achei estranho que os italianos foram embora sem se despedir e sem pagar. Depois que eu os encontrei dormindo quando voltei pro quarto de madrugada, ninguém mais os tinha visto.
Um potiguar e um inglês ocuparam os lugares deixados pelos italianos no quarto. Gente boníssima os dois. A menina com jeito de patricinha, cujo nome não me recordo, também nos deixava. Acabou se acertando com o pai e voltou pra casa dele.
O novo grupo que se formou naquele quarto coletivo de hostel imediatamente se deu bem! Passamos a primeira noite conversando animadamente, esquecendo os problemas do mundo.
De madrugada, acordei com o maior susto: dois zumbis horripilantes mexiam as mãos sem parar enquanto tentavam devorar os infelizes que ocupavam as camas de baixo dos beliches.
Não precisei nem ver seus rostos para saber de quem se tratava: gesticulando daquele jeito só poderiam ser italianos! Tão rapidamente quanto um Gump cheio de sono consegue ser, peguei a arma embaixo do meu travesseiro e soltei um grito delicioso:
— MALDITOS ITALIANOS!
Nunca meu bordão tinha sido tão bem utilizado!
Um tiro certeiro na testa de cada um e problema resolvido!
Mentira… era só o começo. Como diria uma mãe para um filho em época de fim de mundo: “matou zumbi, tem que limpar“. Passamos mais uma hora na faxina até podermos dormir de novo.
Pelo menos o dia seguinte foi bem calmo. No começo da noite, fiquei um tempo na porta do hostel olhando a pracinha, só para confirmar o que eu já imaginava: não haveria evento nenhum ali! “Ah, Mentirosa, você não me enganou dessa vez não!” Até fui lá olhar mais umas duas vezes se por acaso ela aparecia, só pra ser justo, mas eu ficar sentadinho lá esperando, ah, isso eu não fiz não!
E é claro que não a vi nenhuma das vezes.
Virei a noite percorrendo a cidade com meu novo amigo potiguar, sem encontrar nenhum rosto conhecido: nada da Kelly, do inglês, do brasiliense, do meu professor de muay thai, da alemã, da Mentirosa e das “Namoradas”. Mas não encontramos nenhum zumbi também, então estávamos no lucro!
O Potiguar se retirou para dormir, mas eu tive que me manter acordado ou perderia o transporte, que sairia às 5h da manhã.
Acabei tendo uma conversa surreal com um islandês na portaria do hostel, às 4h da madrugada. Já estava ficando com medo dele, então sair pra enfrentar zumbis na estrada me pareceu uma idéia bem aprazível!
Quando estava saindo, encontrei a Kelly voltando. Nos despedimos, e em pouco tempo cada um foi procurar um lugar mais seguro para tentar sobreviver…
Valença, 3 de janeiro de 2011
A viagem para Valença foi muito difícil! O transporte era um ônibus velho e unicamente ocupado por civis. Eu era o único armado e com experiência em matança de zumbis presente no veículo!
Fomos atacados em diversos trechos, e era muito difícil identificar se as pessoas no caminho eram zumbis ou simplesmente civis procurando ajuda para sobreviver: todo mundo andava beeem devagar por lá. Cometer erros era algo muito fácil!
Mas acho que não matei ninguém que já não estivesse morto.
Acho!
Desci na rodoviária de Valença, e sofri para achar o lugar de pagar o barco para a ilha. Atravessei o centro da cidade bem na hora em que o exército tentava conter o que chamava de “foco de epidemia Z”. Com todas as minhas mochilas, tive muita sorte de conseguir fugir dali sem ser atingido!

Difícil mesmo foi resistir ao cheiro de umas 200 coxinhas e pastéis que um vendedor colocou ao meu lado no busão que nos levaria até o “porto” onde embarcaríamos. Matar zumbis dava uma fome!
Uma vez no barco, me senti momentaneamente tranquilo. Conseguia ouvir os tiros no continente e era capaz até mesmo de distinguir o peculiar som de cabeças de zumbis explodindo. Concluí que eu sentiria falta de matar zumbis, sem dúvida. Mas preferia um pouco de tranquilidade e continuar vivo. E a pousada que nos abrigaria, pelo que eu tinha visto no mapa, tinha tudo para ser show de bola.
Como em 100% das vezes nesta viagem, eu estava redondamente enganado!
[Continua em Minhas férias de verão 2010/2011 — Parte 11]

4 comentários
Minhas férias de verão 2010/2011 – Parte 9 | ChristianGump.net | ChristianGump.net says:
Sep 30, 2011
[...] [Continua em Minhas férias de verão 2010/2011 — Parte 10] [...]
Camila Vieira says:
Oct 12, 2011
A dúvida que fica é: será que o fim da história chega antes das próximas férias? Rsrs
Gump says:
Oct 12, 2011
Verdade… mas é questão de honra terminar isso em outubro ainda!
Minhas férias de verão 2010/2011 – Parte 11 | ChristianGump.net says:
Oct 27, 2011
[...] • 03:12 Nenhum Comentário [Este texto é a décima-primeira parte de uma série. Leia a parte 10 ou então vá para o início da [...]