Eu estava a trabalho e fui mandado para outra unidade da empresa, para resolver algum pepino qualquer. Nunca havia trabalhado lá, mas reconheci vários ex-colegas.

Mas um cara com estilo malandrão, cabelo comprido e correntes na jaqueta chegou me zoando, como um velho conhecido.

Ele realmente me era muito familiar, mas eu não conseguia recordar de onde eu o conhecia. Lembrando do quanto eu acho chato quando a pessoa não tem a menor idéia de onde me conhece e tenta fingir que sabe, disse na lata:

- Cara, eu esqueci seu nome.

O malandrão riu, tirou com a minha cara, mas me disse o nome – o qual eu não me recordo novamente.

Instantaneamente, eu me lembrei dele.

Ele esteve no meu grupo de pedal. Havíamos feito uma viagem de bike por uma estrada sombria e quase deserta, até que, na altura de um restaurante lotado de vikings, no meio de uma montanha, essa estrada havia sido interditada por causa do assassinato brutal de uma moça. Cheguei a ver uma poça de sangue, e um braço e uma perna de cada lado da pista.

Eu decidi continuar a viagem e peguei sozinho um desvio por uma trilha. Fui parar num bairro de ruas de terra de uma cidade na qual já estive várias vezes, mas que não sei o nome.

18-Dark-Road-430

Essa estrada na montanha foi a mesma em que, algum tempo depois dessa história do desvio, minha prima desceu de um ônibus, por causa de uma informação errada minha. Soube depois que ela também havia sido assassinada naquele trecho. Chorei muito, não só porque eu gosto muito dela, mas porque ela estava morta por minha causa.

Mas eis que ela apareceu vivinha na minha frente. Fora tudo uma brincadeirinha de mau gosto de uma ex-namorada minha, que foi devidamente xingada.

Inclusive foi durante os xingamentos que eu acordei com meus próprios gritos. E ainda por cima estava atrasado para meus compromissos. Comecei o dia com raiva pelo atraso e ainda com raiva do que minha prima e minha ex haviam feito em meu sonho.

O fato interessante é que o sonho da bike aconteceu faz mais de um mês, o da minha prima na semana passada e um dos meus colegas de pedal apareceu no meu sonho ontem.

A tal cidade de ruas de terra também é recorrente. 90% dos meus sonhos se passam em Mafra-SC, mesmo que eu sonhe com coisas recentes. Mas quando viajo, sempre vou para essa cidade desconhecida. É sempre a mesma. Vejo-a em detalhes, conheço seus caminhos, reconheço sua entrada e seus bares.

Mas ela só existe em sonho. Bem como a tal estrada sombria.

Para falar a verdade, eu não sonho. Eu tenho uma segunda vida que começa quando eu durmo. Há vários personagens que se repetem, lembranças de coisas que aconteceram em outros sonhos, lugares que só existem quando eu estou a sonhar.

E às vezes eu tenho noção de que é um sonho – mas não deixo de ter sensações intensas por causa disso: medo, raiva, espanto, terror, alegria.

Talvez isso explique algo que poucos além de mim têm: preguiça de dormir.

Maior sono, altas horas da madrugada, despertador implacável marcado para tocar às 6h da manhã, e eu lendo feeds, escrevendo, navegando, fazendo alguma coisa qualquer. Só para enrolar e não ter que ir dormir.

Talvez assim não dê tempo de sonhar.

Vai que um dia eu não acorde e fique preso nesse mundo paralelo?

Estradas sombrias e membros decepados só são bons nos filmes do Tarantino.