Finalmente, depois de ter ficado preso no Chile, eu estava embarcando num busão rumo à belíssima Mendoza , na Argentina. Conhecer um novo sotaque e novas pessoas, estar em um novo país, beber muito vinho, pedalar, praticar rafting. Tudo isso me esperava.

Faltava apenas uma travessia dos Andes. Nada de mais. Seis, sete horas de belíssimas paisagens. Ou pelo menos era o que eu pensava.

Com essa vista, a viagem não poderia ser ruim.

Logo ao embarcar, ganhei um exemplar do jornal El Mercurio. Sim, esse fato é muito relevante!

Para servir de distração, ligaram um DVD. Infelizmente, era Carga Explosiva , que eu já estava enjoado de ver. Aliás, nada de “infelizmente”! Na verdade, ainda bem que era um filme que eu não queria ver, já que minha colega de viagem era uma senhora argentina de 86 anos, louca por viagens e por bater um papo, e bater papo com alguém com tanta experiência era mais interessante.

O café foi servido, bem completo, como é costume nas loucas empresas argentinas de ônibus , com um belo alfajor, sanduíche, biscoitos. E café, que poucos tomaram. A maioria dos passageiros era composta por argentinos, então para eles bastava uma água quente para tomar um mate – tal qual os gaúchos no Brasil. Ajudei a senhora argentina com seu café, e nisso iniciamos nossa conversa de louco.

Fora muito difícil para mim entender os chilenos, mas já foi bem mais tranquilo entender o que a argentina dizia. Só que a recíproca não foi verdadeira. Mesmo! Ela não entendia nada do que eu falava!

O que mais sofri foi pra explicar o que eu faço da vida. Quanto mais eu explicava, mais longe da minha real profissão ela entendia. Quando ela achou que eu tinha meu próprio negócio sei lá do que, decidi parar antes que ela entendesse algo pior.

Mas ela era um grande exemplo de vida ativa. Eu jamais diria que ela tinha 86 anos se ela não me contasse. Conhece toda a América do Sul, incluindo boa parte do Brasil, e conta suas aventuras com uma alegria contagiante.

Mas, claro, ela não conseguiu esconder uma certa rivalidade com a amiga que viajava com ela.

- Ela é bem mais moça que eu, mas nem parece, não é mesmo? Quem mandou ela não se manter ativa como eu?

Eu concordei. Não só para agradá-la, mas porque realmente não dava para acreditar que a outra senhora tinha uma década a menos de vida.

E assim, a viagem corria bem tranquila, até a saída de Los Andes (onde há o incrível Campeonato de Cueca).

Nessa hora, um certo mal-estar me revelou que a chorrillana do dia anterior não passaria impune. Nem as pipocas no cinema. Nem o buffet de comida italiana. Nem o fato de eu ter ignorado os avisos de minha amiga chilena:

- Gump, não tome água da torneira aqui em Santiago! Eu tomo, mas eu estou acostumada com a água que vem da cordilheira. Todo brasileiro vem aqui e passa mal.

Eu, que já tinha tomado um copo de suco feito com água da torneira (que aliás foi minha amiga que fez) sem que nada tivesse me acontecido, achei que estava acima dessas coisas intestinais de meros mortais. Na sede extrema, e sem água mineral em casa, tomei um belo copo de água torneiral . O que uns mineraizinhos a mais na água poderiam fazer comigo?

A cordilheira, em sua imponência, resolveria então se vingar da minha prepotência.

Quando estávamos no início da subida, eu já me sentia muito mal. Suava. Vagamente ouvia palavras em espanhol ao meu lado, mas já não prestava atenção. Sei que era alguma coisa sobre uma viagem ao Peru. Eu só pensava numa magnífica viagem ao toalete mais próximo.

Pedi licença. Saí dali. Fui sentar no fundo, sozinho. Andava de um lado para o outro no fundão vazio do busão. Entrava e saía do banheiro. Não me atrevia a usá-lo para o fim que eu necessitava, pelo bem dos demais passageiros.

Por um momento achei ter melhorado. Voltei para o meu lugar. Não disse meu real problema para a senhora argentina, disse que era enjoo. Ouvi a típica bronca de avó, dizendo que se eu tinha esse problema, de enjoar na viagem, não deveria comer no ônibus. Com mais ênfase, ela disse que eu deveria ter dado meu alfajor para ela! :)

Depois de não muito tempo, mas muuuuito sofrimento, chegamos aos famosos caracoles chilenos (veja um vídeo de alguém que fez uma descida neles aqui.) Ainda bem que já havia passado por lá antes e apreciado a vista. Porque desta vez não deu nem para sentir medo nem ficar maravilhado com o visual. A única coisa que eu sentia era uma pontinha de esperança: o posto de fronteira ficava logo acima daquelas curvas todas, e com sorte subiríamos rápido. Lá eu acharia um tão sonhado banheiro.

Mas lá no topo, eu descobri por que a esperança é a última que morre: é ela que mata todo mundo!

De cara já estranhei que não havia o esperado engarrafamento após 2 dias de fronteiras fechadas. Só então caiu a ficha: o ônibus não pararia na aduana chilena, e sim na da Argentina. Vários quilômetros para frente!!

Nem preciso descrever o tamanho do meu sofrimento nesses quilômetros, preciso? Imagine. Lembre-se de alguma situação parecida. Aumente. Você vai saber o que eu senti!

Finalmente, engarrafamento. Era chegado o posto de fronteira. Catei um pedaço do meu Mercurio (não disse que ter recebido um jornal no embarque era uma informação relevante?), e mal o busão parou eu desci apressado.

A cena seguinte foi patética. A alva montanha de pano de fundo. O ar gelado. Um grande número de veículos parados. Uma grotesca e gumpesca figura correndo pelas rochas ao lado da estrada.

“Você é tudo que eu quero!”

Para cada guardinha argentino que eu via eu perguntava, demonstrando todo o meu desespero, aonde ficava o banheiro mais próximo. Minutos pareceram eternidade, até o salvador encontro com o trono.

Depois, outro desespero. Eu demorara muito mais do que pretendia. Onde estaria o ônibus? Já teria ido sem mim? Não o vi na fila de veículos parados na estrada, nem dentro do posto de fronteira.

Eu havia chegado na hora certa. Meu busão era o primeiro veículo parado na entrada do posto. Mal cheguei e minha colega de viagem, em sua preocupação de avó, perguntou se eu tinha conseguido vomitar (lembre-se, eu não tive coragem de dizer qual havia sido o meu real problema), se estava melhor, essas coisas.

A seguir, um pouco de tranquilidade. Trâmites normais de fronteira, dar gorjeta “voluntária”, etc. Até consegui apreciar um pouco da viagem, apesar de ainda não estar me sentindo bem. Só consigo me lembrar de uma menininha argentina voltando da escola em um vilarejo de montanha, numa cena parecida com um quadro. Ou, numa versão moderna, um e-mail com power point com música emocionante de fundo. :p

Mas chegando aos arredores de Mendoza, o desespero recomeçou com os avisos do meu organismo de que eu iria perder mais alguns quilos no banheiro. E teria que ser logo! A cidade parecia nunca chegar. E o detalhe: eu não havia conseguido reservar nenhum hostel (como eu já contei, é difícil quando você não sabe com antecedência quando estará na cidade), então ainda tinha que descobrir onde ia ficar.

Nunca uma rodoviária me pareceu tão bonita quanto a de Mendoza. No estado em que eu estava, foi a segunda melhor visão que eu poderia ter!

Fui a primeira pessoa a descer do busão. É claro! Um jovem argentino, cheio de folhetos, me abordou perguntando se eu precisava de hotel. Isso é bem comum na Argentina, ajudar turistas perdidos a encontrar um dos hotéis que obviamente pagam para esses agentes.

- Sí! Sí! Sí!

Já fui pegando uns folhetos, agoniado. Ele me mostrou o mapa da cidade, indicou alguns hotéis bons para mochileiros, falou tudo que eu poderia fazer em Mendoza, indicou onde conseguir contratar passeios e, ao saber que eu era brasileiro, quis puxar papo sobre futebol. Nessa hora eu tive que interromper e falar que estava mal e precisava ir para o hotel logo. E falei em inglês. Na real nem sabia bem em que língua estava falando, só sabia que não era a minha.

Achei um hotel não muito caro. Dessa vez não quis ficar em hostel. Precisaria de privacidade. E de um banheiro só para mim!

O rapaz informou que o transporte que a agência dele fornecia chegaria logo, mas decidi ir de táxi. O taxista foi bem gente boa e atuou como guia turístico enquanto passávamos pelos lugares. Pena que eu não estava em condições de absorver nenhuma informação.

Tudo se resolveu minutos depois. Fiz o que tinha que fazer, tomei um banho e descansei. Em uma horinha eu já estava animado para uma rápida caminhada pela cidade.

Cidade, aliás, que viria a ser o ponto alto da minha mochilada. Seria tudo muito bom!

Depois de tanta bizarrice, eu estava merecendo.