No começo de novembro, cheguei a Paris para uma rápida mochilada pela Europa com dois amigos, o Fred e o Japa. Além deles, havia outro, o Piá, que estava levando a mãe (que doravante chamarei criativamente de Mãe do Piá) para conhecer a França e a Itália e aproveitou para ir com a gente.

Primeira vez acima do Equador!

Registro do momento em que, segundo ilustrações no canal de informações do vôo no monitor à minha frente, passávamos sobre o Equador. Eu adoro esses marcos.

Foi uma grande euforia! Mais do que pisar na Europa, pisávamos pela primeira vez acima da linha do Equador, e isso é um marco! No entanto, tínhamos que dar uma pausa na empolgação, pois ainda faltava passar pela imigração e depois chegar ao hotel.

Todo o transtorno que esperávamos na hora de receber o carimbo no passaporte não aconteceu. O cara do guichê estava jogando Angry Birds, e nem conferiu nossos nomes do passaporte. Deu uma carimbada toda torta sem nem olhar na nossa cara. Toda a aventura ficou guardada então para o trajeto até o hotel.

Enfim, Europa!

Enfim, Europa! E não me perguntem o que o gordo estava querendo apontar. Eu não lembro!

Como eu não acreditava que algum taxista francês pudesse nos apresentar a cidade e ainda nos levar para ver de graça algum jogo da Liga dos Campeões, como aconteceu no Uruguai, sugeri pegarmos um trem do aeroporto até a cidade, e o Piá e sua mãe nos acompanharam.

Mal chegamos ao acesso à estação e fomos abordados (atacados não seria um termo mal-empregado) por um grande número de jovens mulheres com papéis, canetas e caras de pidonas. Elas pediam, com gestos, uma contribuição sugerida de 20 euros para alguma entidade de apoio aos surdos-mudos, e o faziam de forma a parecer que era obrigatório o pagamento para sair do aeroporto. Eu consegui me esquivar, o Fred assinou o papel até entender direito o que elas queriam — e aí quando não pagou, a coisa ficou ligeiramente tensa, mas deu tudo certo. Os outros acabaram pagando 10 ou 20 euros cada um.

Vencida esta etapa inesperada, com uns mais satisfeitos que os outros, achamos o acesso à estação, descobrimos como comprar bilhetes naquelas máquinas automáticas, e nos dirigimos para a área de embarque.

Só então soubemos que a estação de trem do aeroporto estava fechada temporariamente aos domingos!

Como já tínhamos os tickets, o negócio foi dar um jeito de ir mesmo de trem, seguindo uma gambiarra organizada pelos franceses. Conseguimos mais ou menos entender as informações que funcionários da estação berravam para os viajantes, em francês mesmo, obviamente.

Pegamos um tipo de trem interno do aeroporto, descemos em outro terminal, e lá pegamos um ônibus que nos levou até a estação de trem mais próxima — que não era tão próxima assim.

Para a Mãe do Piá estava bem mais difícil essa viagem, é claro. Esse comentário é relavante porque o Fred está se sentindo mal até hoje com a gumpice que ele fez. E lugar de gumpice é neste blog!

O que ocorreu foi que a Sra. Mãe do Piá disse que estava atrapalhando a gente, que estava prejudicando o nosso ritmo. O Fred não escutou direito e achou que o mais correto seria fazer uma cara bem séria, confirmar com a cabeça e dizer “humrum”.

Foi o mesmo que dizer “sim, a senhora está atrapalhando a gente!

Para a sorte dele, milagrosamente eu estava atento e respondi rapidamente para ela que, na verdade, nós é que a estávamos atrapalhando. Se só estivessem ela e o filho, ele a teria levado de táxi pro hotel.

Gumpice superada, chegamos à estação certa. Mas mesmo lá, para saber qual o trem pegar, foi complicado. Um funcionário gritava “Parrí, Parrí!” apontando um trem, então jurei que era o nosso. Mas não, o nosso estava parado do outro lado da estação.

Mas enfim, chegamos à Gare du Nord, uma grande estação de trens relativamente central, onde faltava pegar o metrô para a estação Pigalle, a mais próxima do nosso hotel, e pronto. Seria um percurso bem curto no metrô — não fossem as bagagens, dava até para ir à pé.

Mas não conseguíamos entender onde estava o bendito acesso ao metrô.

Usando e abusando do “Bonjour” e do “s’il vous plaît“, consegui algumas informações em francês, mas estava difícil de compreender o que eles queriam dizer, mais do que de entender.

Em um dado momento, um homem se aproximou dos meus amigos falando algo que parecia ser português de Portugal. O instinto brasileiro já os fez pensar que ele queria assaltá-los ou aplicar algum golpe, ou mesmo pedir algum dinheiro. Na verdade, tal cara, que era de Guiné Bissau, tentou foi nos ajudar a achar nosso caminho, mas graças à minha pronúncia errada da palavra Pigalle, ele não entendeu bem aonde estávamos indo.

Foi então que tive a magnífica idéia: escrever Pigalle no iPhone e apontar. Ele olhou, deu um sorrisinho misterioso, mas explicou como teríamos que fazer. Nós falamos que entendemos, agradecemos e saímos. Mas andando um pouquinho descobrimos que não entendemos coisa nenhuma e continuamos perdidos.

Nisso o Piá decidiu sair da estação com a mãe e procurar um táxi mesmo.

Sobramos nós três, a resistência, e continuamos a saga. Afinal, chegar ao hotel de metrô fazia parte da aventura. Abordei um funcionário gigantesco da estação:

S’il vous plaît… — E apontei para o nome da estação escrito na tela do iPhone.

Eu ia transcrever a reação dele, mas posso fazer melhor: posso publicar o áudio da gravação que fizemos disso:

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Ok, eu menti!

Não é uma gravação real e sim uma imitação feita pelo Fred. Mas devo dizer que é uma imitação bem fiel, tirando, claro, a pronúncia de Pigalle. Faltou também completar que depois disso ele ainda deu uma gargalhada.

Enfim, o grandão nos zoou e depois morreu de rir da nossa cara. Quando ele já estava quase chorando de tanto rir da gente, parou e explicou que teríamos que sair da estação de trem pelo acesso à estação La Chapelle do metrô.

Finalmente!!!  Finalmente entendemos como chegar ao hotel. O que não entendemos foi o porquê de ele rir da nossa cara!

Quer dizer, o Fred sacou tudo na hora, mas não falou nada… Já eu segui o estereótipo das pessoas de cabelo claro e o Japonês não seguiu o dele: ficamos boiando.

Só ao sair para a rua, saindo da estação do metrô, é que caiu a ficha. Mais ou menos quando vimos coisas assim:

Sexodrome

O que vimos logo ao sair do metrô.

Folies Pigalle

Também visível da saída do metrô

Moulin Rouge

Moulin Rouge, ali pertinho

Pigalle é a região conhecida como sendo um “inferninho” de Paris, recheado de cabarés (e outros estabelecimentos que merecem nomes menos leves) e sex shops — é até meio turístico por conta disso.

Ou seja…

O grandalhão da estação viu 3 estrangeiros com mochilas nas costas perguntando como chegar lá e teve certeza:

— Eis três turistas tarados sedentos por sexo!

Obs.: Sabíamos que toda a região próxima do hotel tinha seus inferninhos, apesar de ser uma região residencial normal também, com jovens passeando com o cachorro ou pedalando e idosas carregando suas baguetes tranquilamente. O que não sabíamos é que a região da estação de metrô mais próxima era quase uma versão francesa do Red Light District.

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