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Thursday
14/Aug/2008

Tem muitas coisas que eu faço que assustam as pessoas normais: tomar chá com leite; ignorar, às vezes, feijão e arroz num buffet por quilo para pegar outras fontes de carboidrato mais gostosas; assistir filmes tailandeses, chineses e iranianos; sentir arrepio ao morder uma maçã; e por aí vai.

O queeee?

“O que??? Arrepio ao morder maçã???? Chá com leite???”

Mas nada causa mais espanto que minha relação com os sonhos.

Sabe quando você está tendo aquele sonho maravilhoso e acorda na melhor parte? Aquele sonho que você sente vontade de voltar a dormir para voltar para o mesmo sonho?

Pois bem, eu não fico na vontade! Eu acordo, fico indignado por ter interrompido o sonho, e decido voltar a dormir e sonhar. E volto para o mesmo sonho!

Chego até a levantar, ir ao banheiro, e ao voltar pra cama, volto pro mesmo sonho. Se eu assim quiser. Com pesadelos isso não acontece. Eu acordo de um pesadelo e não volto para ele ao pegar no sono novamente

Infelizmente, eu normalmente vou para outro pesadelo!

Outra coisa que eu tenho é consciência de que estou sonhando.

- Ah, isso é só um sonho, então tudo bem.

Já me salvei de muita agonia em pesadelo ao ter essa noção.

Mas esses dias eu me surpreendi com uma nova habilidade sonhística. Eu estava num mega-pesadelo com tortura psicológica (esses são os piores) mas, no meio do sofrimento, eu tive a noção de que era um sonho. Mas isso não bastava para eu me livrar do tormento. Eu precisava sair dali. Tentei, então, gritar para alguém me acordar. Mas não tinha controle sobre minha voz. Era uma agonia adicional: não conseguia pedir socorro.

Socorro!

“Alguém me tira desse pesadeeeelo!”

Mas eu não desisti. Perseverança nota 10! E inteligência nota zero, já que eu moro sozinho e não tem ninguém pra me acordar.

Continuei insistindo:

- Mmmm orrr!
- Mmmm rrrd!

- Me orrrrda!

Até que saiu:

- ME ACORDA!

Enchi os pulmões e continuei a gritar:

- ME ACORDA!
- ME ACORDA!
- ME ACORDA!
- ME ACORDA!
- ME ACORDA!

Até que acordei com o meu próprio grito.

De alguma forma funcionou. Mas, por algum motivo, uns 3 vizinhos ligaram a luz…

E eu fui dormir cheio de vergonha.

E fui direto para outro pesadelo, é claro. Tem noite que é reservada para eles.


Veja também:

Monday
4/Aug/2008

Mas não me venha com decoração de interiores e outras boiolagens! Estou falando de saber algo “de cor”, reter algo na memória.

Não sei qual a utilidade de se decorar algo, exceto na época do colégio, quando os professores dizem que você tem que entender a matéria, e não decorar, mas só cobram decoreba na prova. Mas vejo que quando as pessoas precisam, sofrem muito, e desnecessariamente, com isso.

Mas se você me conhece, com certeza vai perguntar:

- O Gump, o ser mais desmemoriado do planeta, querendo ensinar algum macete envolvendo memória?

Pois justamente. É um esquema tão bom que funciona até com alguém que, como eu, já esqueceu até do seu próprio aniversário. 3 vezes!

Tudo começou há 20 anos, quando eu precisei decorar um poema para uma atividade da aula de língua portuguesa. Eu estava lá, sofrendo, como todos os outros estudantes, lendo o poema diversas vezes e tentando decorá-lo assim. A forma mais burra de tentar fazer isso. Foi quando minha sábia progenitora me ensinou o que venho aqui compartilhar. E o ensinamento funcionou tão bem que até hoje eu lembro de cor dos dois poemas que eu estudei, e também da lista de todas as proposições, que eu precisei decorar pra uma prova.

- Pára de enrolar, Gump! Fala logo como é o tal esquema!

É bem simples, e até óbvio. Se quiser decorar o poema “No meio do caminho”, por exemplo, em vez de ler o poema inteiro várias vezes, leia apenas o primeiro verso, até decorar:

No meio do caminho tinha uma pedra

Decorar um verso é tarefa fácil, né? Então, agora, acrescente mais um:

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho

Depois, mais um:

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra

E assim por diante. Dá pra decorar longos textos desse jeito, eu já tentei. Ajuda para decorar discursos, listas, fórmulas, qualquer coisa que você possa colocar numa sequência.

Obviamente, você pode dividir o texto tem blocos grandes, e aplicar o método acima em cada um dos blocos.

Tudo óbvio. Mas você sofria tentando decorar da forma errada.

Tuesday
29/Jul/2008

Esse texto é o terceiro da série A vida em 4 linhas de ônibus.

Linha 3: Estudantes - O busão das desilusões amorosas

Apesar de longe do ideal, o transporte público de Curitiba é exemplo para muitas - se não todas - cidades grandes do país.

Mesmo assim, pegar um “alimentador”, trocar de ônibus no terminal, pegar um biarticulado lotado e trocar de ônibus mais uma vez em uma estação-tubo qualquer, é uma grande aventura.

Há muitas linhas famosas na cidade. O Inter 2 é uma dos mais marcantes. É um “ligeirinho” (ônibus que tem menos paradas que os convencionais) que contorna a cidade. Quem não conhece bem e pega no sentido contrário também chega ao seu destino, mas com algumas horas de atraso. Já até escreveram o Guia de Sobrevivência no Inter 2.

Mas o ônibus que mais me marcou em Curitiba foi o Estudantes. Trata-se de uma linha convencional que sai do Centro, passa na Casa do Estudante e tem ponto final no Centro Politécnico da UFPR.

Primeiro, porque tinha o motorista mais louco de toda a cidade. Na Avenida das Torres, ele saía costurando no meio dos carros, deixando-os para trás com seu busão velho. Dentro, os passageiros se seguravam como podiam. Alguns rezavam.

E enquanto isso, o motorista ia contando suas frustrações para quem quisesse ouvir. A maior delas foi não terem-no deixado dirigir um biarticulado (ônibus que, como o nome diz, tem duas articulações), sob a justificativa de que ele iria dar um nó no bicho.

Totalmente injusto, ele dizia. A gente fingia que concordava, enquanto torcia para chegar vivo.

Outros motoristas gostavam de xingar os estudantes.

Um dia eu saí de casa e vi o ônibus chegando. Como qualquer um que tem horário a cumprir, saí correndo para o ponto. Cheguei a tempo, mas ouvi a bronca, pesada, do motorista, que erradamente supôs que eu ficava esperando longe do ponto e corria quando o ônibus chegava. Fomos discutindo até que ele quase bateu num caminhão. Decidi que chegar vivo era melhor que ter razão e fiquei quieto.

Nesse itinerário deu-se, também, uma de minhas grandes frustrações. Indo para o Centro Politécnico uma noite, simplesmente parei de prestar atenção na conversa dos meus amigos ao avistar, no fundo do ônibus, a menina mais bonita que eu já havia visto. E, para minha surpresa, a japonesinha correspondeu o olhar. Trocamos olhares e sorrisos, à distância, a viagem toda. Quando chegou o ponto dela, pouco antes do meu, ela atravessou o ônibus para descer na porta mais próxima de mim. A porta abriu, e ela não desceu de imediato. Olhou-me firmemente por intermináveis dois segundos, sorrindo, e por fim disse “tchau“, acenando. E eu tive o impulso de descer, de agir, de fazer alguma coisa finalmente.

Mas fiquei ali parado, com minha cara normal cara de bobo.

Depois, não consegui me conformar!

Por mais de duas semanas, peguei o ônibus toda noite naquele horário, mesmo estando de férias na faculdade. Apenas para tentar encontrá-la de novo.

Nunca mais a vi.

O que vi, numa dessas noites, foi o motorista, o doido, bater em outro ônibus e botar a culpa no colega de profissão.

O Estudantes, aliás, foi o meu busão das desilusões.

Bem no começo da facul, eu gostava de uma menina (que conheci no Estudantes!), que gostava de um amigo meu, que só gostava de computador. Nós 3 éramos vizinhos e voltávamos juntos no Estudantes. Quando eu aceitei que estava fora da parada, cansado de ter que aguentar vê-la dando em cima do meu amigo, inventei uma desculpa para descer do ônibus antes deles; enquanto isso, como bom perdedor, resignado, eu desejava felicidades para os dois em pensamento: “vão os dois pro inferno, seus fdp!

Disse que desceria antes para passar num supermercado. Estaria, ao menos, livre.

- Eu vou com você, Gump! - disse o meu amigo nerd.

- Ah, então eu vou com vocês! - disse, saltitante, a menina.

PQP! Eu devia ter ficado na segurança do Estudantes, que a tortura acabava logo. Mas ela acabou durando ainda mais uns 40 minutos…


A vida em 4 linhas de ônibus:

Monday
28/Jul/2008

Esse texto é o segundo da série A vida em 4 linhas de ônibus.

Linha 2 - 484-Olaria-Copacabana - O ônibus que não me esquece

Realizei, enfim, em 1993, o sonho de infância de morar em uma cidade grande. E nunca peguei tanto ônibus na vida quanto nos anos em que morei no Rio de Janeiro.

De cara, fui apresentado ao 474-Jacaré-Jardim de Alah, para ir de São Cristóvão a Copacabana. Já tive ali minha noção do que era o transporte público em um cidade caótica grande. Mas não importava, eu adorava estar ali e, mesmo com medo, eu pegava esse e outros ônibus todo dia. Muitas vezes só pelo prazer de conhecer a cidade.

Para ir para o trabalho, também peguei por muito tempo o 175-Central-Barra da Tijuca. Aquele do Gabriel o Pensador.

Até que arrumei o meu emprego mais divertido até hoje (é, eu achava divertidíssimo, sem ironia): entregador de uma farmácia de manipulação. Minha função era percorrer todo o Rio de Janeiro e Niterói de ônibus, rumo às profundezas mais distantes e não tão maravilhosas da Cidade Maravilhosa.

Poucos cariocas conheciam tão bem as linhas de ônibus do Rio quanto este brasiliense com sotaque do sul e cara de gringo aqui.

Já fui assaltado e já escapei de assalto, já me joguei no chão do ônibus ao ouvir suposto barulho de tiroteio, já entrei em pânico, e já desci só por considerar que pessoas que embarcavam pareciam suspeitas.

Apesar de haver muitas linhas marcantes no período, elegi o 484 como a linha de ônibus para representar essa época da minha vida. E com um detalhe: eu nunca peguei o 484!


Na época ele era bem mais ‘feiinho’…

Mas eu explico. Meu mundo antes do Rio era restrito ao interiorrrr de Santa Catarina, e chegar na bagunça de uma cidade como o Rio pode ser um tanto assustador. E logo no primeiro dia, na Av. Nossa Senhora de Copacabana, eu avistei o 484, com gente saindo pelas portas e janelas. E eu falo isso num sentido literal. O ônibus andava com as portas abertas e pessoas penduradas ali. Extremamente lotado. E muita gente gritando, mexendo com as pessoas na rua. Também dava para ver muitas figuras pitorescas, com cabelos e vestes bem chamativos.

E meus amigos ainda me botavam pilha:

- É o ônibus da morte! Fuja dele!

O fato é que tivemos uma ligação, o 484 e eu. O 484 me marcou, e eu fui marcante para parte dos passageiros do 484. Todo dia, enquanto eu esperava meu ônibus, o 484 passava por mim, e zoar com a minha cara era a alegria da viagem de muita gente:

- Lôra Burra!!

Era a época em que a música do Gabriel tocava no rádio.

Não importava em que parte do trajeto do busão eu me estivesse. Eu era imediatamente reconhecido:

- Lôra Burra!!

No aterro do flamengo, era hora de eles mostrarem suas habilidades como surfistas rodoviários. E eu ali, vendo-os escalar o ônibus naquela pista de alta velocidade, e se equilibrar em pé sobre o teto.

A diversão deles era dupla. Surfar e gritar:

- Uhú! Lôra Burra!!

E, caminhando em Copacabana, eu esbarrava frequentemente com meus “conhecidos” do 484. Um entregava panfletos; outro atendia numa lanchonete; outro estava sempre perambulando por lá. Não trocávamos palavras, mas a gente se reconhecia. Nossas caras denunciavam nossos pensamentos:

Cara do 484 - Caraca, maluco, ó o Lôra Burra aí!

Gump - Putz, ó o cara do 484 aí!

Mas isso estava prestes a acabar, eu pensei. Afinal, um belo dia, destrocei minhas madeixas de tamanho médio com uma máquina 2. Quase careca, eu não seria mais reconhecido!

Esse pensamento durou até que nos cruzamos novamente, o 484 e eu:

- Lôra Burra Careca!!

O 484 me reconhecera!

Não tem pro 175, pro 474, nem pro 882 e sua rota longínqua, nem pra nenhum outro. O busão desse período da minha vida, sem dúvida, foi o 484. Mesmo sem eu nunca ter viajado nele.


A vida em 4 linhas de ônibus:

Monday
28/Jul/2008

Um bom transporte público é fundamental para o bom funcionamento de uma cidade grande. Mas como “bom” e “transporte público” no Brasil são palavras que normalmente não podem ficar juntas, não só as cidades não funcionam, como quem já pegou ônibus com certeza tem muitas histórias para contar.

Assim, decidi dividir minha vida em quatro partes. Cada uma com uma linha de ônibus marcante.

Linha 1 - Bom Jesus-Faxinal - A inocência caipira

Em RioMafra (Rio Negro-PR e Mafra-SC, cidades que, apesar de estarem em estados diferentes, são separadas apenas por um rio e na prática formam um único município) existe apenas uma empresa de ônibus urbano atuando.

Uma de suas linhas, a principal, liga a puta-que-o-pariu de uma cidade ao cafundó-de-judas de outra. Mais especificamente, o bairro do Faxinal, em Mafra, ao Bom Jesus, em Rio Negro.

Há muitas eras geológicas, quando morei lá, a linha era composta de ônibus velhos, sacolejantes, lentos, com algumas pessoas com desodorante bem vencido e gente espremida.

Ônibus da linha Bom Jesus-Faxinal…
brincadeirinha!! Não tenho como ir para Mafra tirar uma foto atual…

Para a criança caipira que eu era, nada no mundo poderia ser pior! E eu sonhava com o dia de morar na cidade grande, onde o transporte seria decente…


A vida em 4 linhas de ônibus: