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Thursday
21/Feb/2008

Após acordar no motel com a Lucy, tomar o café da manhã e enrolar bastante, saí finalmente pra pedalar. Na verdade, estava é louco pra passar mais um dia no motel-pousada, só dormindo.

E esse dia foi punk! Muito sol, muitas subidas, pouca sombra. A única sombra foi uma lojinha de beira de estrada, a única de todo o percurso até Bagé. Mas foi muito legal: descobri que a dona já tinha morado em Curitiba e fiquei conversando um tempo, na sombra, tomando água gelada!

Mas depois, só calor. Era tão intenso que eu não conseguia comer, só bebia a minha água quente. Até que uma hora eu tive tonturas e achei que ia desmaiar. Já era final da tarde, mas ainda tinha muito sol. Eu me forcei a comer uma maçã, mole como uma manga. A refeição mais difícil da minha vida. Mas quase que instantaneamente eu melhorei e pude terminar a missão do dia: chegar em Bagé!

Na entrada de bagé, liguei pro meu amigo que me ensinou a chegar ao bairro dele. Consegui chegar à casa dele com facilidade, até porque 3 anos depois eu ainda me lembrava bem da cidade. Cidades do interior não mudam muito.

Passei 3 dias em bagé e continuei a aventura. Seria um dos dias mais marcantes! Foi mais um dia de calor intenso, mas com uma estrada mais arborizada. Eu pretendia pernoitar nas proximidades de um posto de gasolina, a única coisa que existia em 200km de estrada!!! Mas descobri que o posto ficava muito perto de Bagé, uns 30km, nem valia a pena pernoitar lá. Cheguei bem cedo ao posto, cheguei a almoçar lá. Tomei coragem e botei o pé na estrada, sem saber o que seria de mim ao final do dia.

Mas já não havia sol. O tempo estava fechado, e o vento quase me derrubava da bike. Bateu até um certo medo de pedalar na tempestade, apesar de eu estar louco pra pegar chuva e me sentir um cicloturista de verdade!

Mas a tempestade desviou e não teve chuva alguma. No fim do dia, a paisagem mudou, foi muito bom ver morros de novo, formações rochosas, vegetação. Chega de vaca e plantação de arroz, né?

Eu ainda precisava achar um lugar pra acampar e, quando eu cheguei ao rio em cujas margens eu pretendia pernoitar, descobri que até o rio é propriedade particular!!

Eu não queria invadir nenhuma fazenda pra montar a barraca, e não sabia mais o que fazer, enquanto o pôr-do-sol se aproximava. Acabei perguntando para um peão que eu vi na estrada, todo vestido de gaúcho típico, se ele sabia algum lugar onde eu podia acampar. Ele me indicou uma fazenda, apontando uma casa branca ao longe, numa estradinha de terra, dizendo que o pessoal era super gente boa e me deixariam montar a barraca perto da estrada, na propriedade deles.

Fui até lá. Vi um gaúcho todo caracterizado também, de idade, na varanda da casa. Chamei-o e ele todo desconfiado veio falar comigo. Disse que não podia me dar permissão porque as terras eram do filho dele, mas que esse filho logo chegaria. Começou a contar histórias e mais histórias que diziam o porquê de ele ser tão desconfiado.

gaucho

Um gaúcho caracterizado da mesma forma que o que me recebeu

E falava, falava, falava. Depois de algum tempo de “conversa” (eu falei muito sim, um monte de “humrum” e “sei”), ele me chamou pra entrar na propriedade e guardar a bike. Mais um pouco de “conversa” sobre a política do Rio Grande do Sul, a economia do RS, a história do RS, as belezas do RS, a bravura do gaúcho, etc, e ele me chamou pra conhecer a família e tomar um chimarrão. Nisso chegou o filho dele e este gostava de “conversar” tanto quanto o pai. Os dois blablablavam sem parar e num dado momento até falaram que eu era muito bom de papo, que estavam adorando a conversa!

O que não se ganha com o silêncio, hein?

Começaram então a preparar carne pra fazer um jantar especial pra mim. Chamaram os vizinhos pra conhecer o cara de Curitiba que estava viajando de bicicleta, e começou a juntar gaúcho de tudo que é lado, todos falando das tradições locais.

Uma hora eu tive que interromper, pois já era perto das 21h e iria escurecer, pra perguntar se eu podia montar minha barraca na propriedade. O filho falou:

- Não, não pode.

E prosseguiu:

- Tu vais é dormir aqui em casa, tchê!

E arrumou um quarto pra mim.

No dia seguinte, queriam que eu ficasse pro almoço, mas eu não pude, então capricharam no café da manhã. Foi muito legal lá. A água vinha de nascentes (o que me rendeu os vermes que eu tive que tratar depois - ou talvez tenha sido a carne), não tinha luz elétrica, mas o povo foi muito atencioso.

A viagem estava sendo perfeita!

E no post seguinte, o relato continua.

A seguir: Projeto Fat Biker - Um gordo na estrada - Parte IV - O Hotel Lotado

Wednesday
20/Feb/2008

Continuando a aventura, no dia 31/12/2000, eu comecei a minha viagem de bike, propriamente dita, mas não saí cedo como queria. Resolvi aproveitar o café da manhã do hotel, que aquele dia começaria tarde. Acabei saindo só perto do meio-dia. Loucura! 38 graus na cachola!

Ganhei o primeiro patrocínio da minha vida: o dono do hotel me deu uma garrafa de água!

Mas eu disse que eu comecei a pedalar no Uruguai, não disse? Se você prestou atenção no post anterior, até o momento eu continuava no Brasil.

Pois então, eu saí do hotel, fui até a praça internacional, passei para o lado uruguaio da praça (na cidade de Rivera), tirei uma foto, e dei uma pedalada. Após essa pedalada, estava no Brasil novamente. Mas não interessa, comecei no Uruguai!

fronteira internacional

A Praça Internacional.

O primeiro trecho da viagem, apesar do calor intenso, foi muito bom, pois havia eucaliptos nas margens da estrada, fazendo sombra. E de vez em quando eu via algumas pessoas, alguns carros, e algo diferente de vacas ou plantações de arroz. Eu já tinha passado por aquele estrada antes, mas realmente não me lembrava que era só isso, gado e arroz.

Mas esse trecho terminou quando eu tinha que pegar uma estrada que ligava aquele trecho próximo a Livramento e ia até Bagé. A idéia era acampar próximo à cidade de Dom Pedrito, que era a única “civilização” que havia no meio do caminho.

Mas que inferno!!

Todo esse calor na cabeça, em pleno verão, e nenhuma sombra! Acostumado com as arborizadas estradas do PR e de SC, não me liguei que lá só havia fazendas às margens das estradas. Tudo cercado. Nenhuma arvorezinha pra fazer sombra.

A minha água virou chá, de tão quente! Minhas barras de cereal amoleceram. Eu as comia obrigado, pra não desmaiar. Até que (alívio!) achei uma sombra! Uma rara área não cercada na beira da estrada! Tinha que sair um pouco do asfalto, entrar num mato e pronto: uma deliciosa sombra de eucaliptos pra dar uma folga pra cabeça.

Tomei minha água quente, comi uma barra de cereal derretida e, quando voltei pra bike, vi que um ser que jamais conseguiria pedalar havia tomado conta dela! Uma cobra! Pânico. Ela estava ali, toda feliz, enrolada na Lucy. Depois de controlado o medo, principalmente de haver outras ali no mato, eu peguei um galho no chão, e consegui tirar a cobra de cima da Lucy, mas não joguei-a tão longe quanto eu queria. Caiu bem perto da bike!

cobra pedalante

“Eu também quero pedalar, só não sei como!”

A cena seguinte seria linda de ver! Peguei a bike todo borrado em pânico e corri pro meio do asfalto batendo todos os recordes de velocidade. E não saí mais do asfalto. Ele estava tão quente que cobra alguma passaria ali.

Depois, outra tragédia! Acabou a água! Não tinha um único lugar pra comprar e nenhuma casa à vista. Quando encontrei uma que não ficava assim tão longe da estrada (ao menos dava pra ver a casa da estrada), acabei entrando na fazenda… O caseiro quase me botou pra correr, com arma e tudo, e depois ameaçou soltar os cachorros! Mas por fim seu humor mudou do nada e acabou vindo ver o que eu queria. Depois perguntou se eu podia ajudá-lo com o celular (celular, naquela época naquele lugar me surpreendeu) e eu ajudei. Aí ele foi o cara mais simpático do mundo, me deu muita água do poço, convidou-me pra entrar e tal… mas eu recusei antes que o bom humor dele passasse…

Lá pelas 18h eu avistei Dom Pedrito. Parecia perto. Mas a vista enganava muito por lá, e eu só cheguei à cidade perto das 20h, quando o sol estava a se por, mas ainda haveria 1h de claridade (lá escurece bem tarde com o horário de verão). Claro que a idéia de acampar foi pro espaço, pois ao contrário dos lugares que eu conhecia, as margens de estrada por lá são todas propriedades particulares.

Agora o desafio era encontrar um hotel. Dispensei a entrada secundária da cidade, porque me pareceu muito feia, com gente mal encarada. Puro preconceito de quem mora em capital e vive com medo de ser assaltado em lugar assim, creio eu. Continuei na estrada e próximo à entrada principal avistei uma placa dessas de trânsito que tem uma caminha, indicando hotel.

Já estava anoitecendo mas reparei na placa que dizia “pousada”. Do outro lado a placa dizia outra coisa mas não tive curiosidade de ver, na hora. Fui lá e me registrei, me deram uma casa na tal pousada, enorme, muito legal. Mas era meio, ahn, diferente… Só que a cama aliás era maravilhosa, e era isso que me interessava! Deixei pra lá as estranhezas, tomei um banho e deitei.

Comecei a zapear a TV. Globo, SBT, Canal Pornô, Bandeirantes, outro canal pornô, mais outro e… HEIN??? Canais pornôs? Tinha pelo menos 4. Mais tarde descobri, como contei aqui, que o lugar na verdade era um MOTEL que também servia de pousada pra viajantes perdidos no meio do nada tipo eu!

Eu gostava tanto de bike que já fui até pro motel com a minha!!!

Assisti o fantástico e apaguei. Fui acordado às 23h45 pelos caras da “pousada” me chamando pra uma festa de reveillon na cidade, mas eu tava pregado demais pra ir. Agradeci mas recusei. E passei a virada do ano dormindo um sono merecido!

Amanheceu o dia 01/01/2001 e eu acordei tarde. O único cicloturista preguiçoso do mundo! Eram 10h quando pedi o café pelo interfone. O cara colocou num suporte na porta e bateu, discretamente. Eu só tive que girar o suporte pro lado de dentro e pegar meu café. Tudo muito discreto, sem contato com os funcionários. Afinal, eu estava num motel…

E já estava pronto pro segundo dia de pedalada, assunto do próximo post!

A seguir: Projeto Fat Biker - Um gordo na estrada - Parte III - Gump, a atração do interior!

Wednesday
20/Feb/2008

Pedalar é uma das coisas que eu mais gosto de fazer. Conhecer novos lugares, “na velocidade do tempo”. Minha praia não são as competições nem as trilhas. O que eu gosto mesmo é de longas pedaladas, viagens, novidades.

Anos depois... Pedalando no interior de São Paulo

Em São Francisco Xavier-SP. Nessa época eu já não era um biker tão ‘fat’. E não, os cocôs na rua não foram obra minha!

Sempre fui apaixonado por bike e desde criança queria viajar usando-a como meio de transporte. Mas achava que era loucura, uma excentricidade minha. Até descobrir que é uma prática muito comum, principalmente na Europa, e que até no Brasil tem muita gente que é adepto também. Tal prática tem até nome: Cicloturismo.

Apesar de muitas pedaladas intensas, até o ano 2000 eu nunca havia feito nenhuma viagem de bicicleta. Só estradinhas rurais e pedal urbano mesmo. No máximo passeios mais longos nos arredores das cidades em que eu havia morado até então. E nessa época (2000) eu estava bem gordinho (mesmo! 115kg…), e fui junto com dois amigos comprar uma bike melhor. A gente comprou o mesmo modelo e cor. Ficou engraçado! Mas nunca chegamos a andar juntos! Não batiam os horários e também porque a preguiça deles, na época, foi vencido apenas pra ir comprar a bike! Hoje eles estão bem magros (bem mais do que eu, que engordei um pouco de novo) e fazem exercícios regularmente. E não escondem que um dos estímulos foi me ver magro.

E eu continuei as pedaladas pela cidade, na maioria das vezes sozinho, até que por acaso descobri uma lista de discussão na internet sobre bicicletas, ciclismo e afins. Havia muitos cicloturistas nessa lista. Comecei a me empolgar. E por fim, achei um site do projeto de uma cicloviagem pela Rio-Santos, e o relato é maravilhoso! Algo que eu sempre quis fazer! Isso me fez decidir que eu faria uma cicloviagem logo que tivesse uma chance!

Enquanto isso, na tal lista de discussão, alguém indicou um livro de um cara de Curitiba que deu a volta ao mundo de bike. O livro chama-se “No Guidão da Liberdade“, e o cara chama-se Antônio Olinto. Procurei em diversas livrarias até que achei, e devorei! Fiquei fascinado! E já no dia seguinte comecei a traçar planos para a minha viagem.

Marquei férias para janeiro/2001, e comecei a comprar equipamento de camping e a tralharada pra viagem, e o principal: organizar o percurso! Como eu tinha um amigo que estaria em Bagé-RS, que é região de fronteira com o Uruguai, e eu já tinha ido pra lá e queria rever os amigos que fiz, resolvi fazer um caminho que passasse por aquela cidade. Decidi então os pontos extremos da cicloviagem. Sairia do Uruguai e iria pedalando até Curitiba, passando por Bagé.

Passei noites acordado olhando o mapa do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, procurando os melhores caminhos, lendo os roteiros do guia 4 rodas, descobrindo sobre o relevo de cada lugar. Em suma, virei profundo conhecedor dos dois estados mais ao sul do país, ao menos na teoria.

Até batizei a minha viagem: Projeto Fat Biker - Um Gordo na Estrada.

Bom, claro que eu gostaria de fazer uma cicloviagem com mais alguém. Fazer isso sozinho sempre tem os riscos que todo mundo sabe. Mas não ia ser possível coincidir datas com as poucas pessoas que eu conhecia que topariam um desafio desses. E eu não estava disposto a perder a oportunidade.

Também tinha a questão de ser minha primeira cicloviagem. Eu era totalmente inexperiente, então fiz muita bobagem! Levei muito peso desnecessário, coisas que acabei não utilizando. Mas foi bom ter feito sozinho, não me arrependo. Aprendi muito!

Então no dia 29/12/2000 eu peguei a bike, as malas, coloquei tudo num ônibus e parti para Santana do Livramento-RS. Não sem stress. Haviam me garantido que não havia problema em levar a bike, inteira, sem precisar embalar nem nada, no bagageiro do busão. Mas quando eu cheguei lá, não queriam me deixar embarcar. Fiquei um tempão brigando com os caras da empresa de ônibus, até que o ele já estava atrasado por causa dessa indefinição e me deixaram guardar a bike. Mas SEM me dar comprovante de bagagem.

Nesse aspecto a viagem foi realmente estressante, porque o ônibus parava em tudo que é lugar, e em cada parada eu descia para inspecionar se ninguém tirava a Lucy (nome daquela minha bike). Principalmente nas paradas mais demoradas: Florianópolis, Porto Alegre e Bagé (onde desce quase todo mundo).

Depois de 20 horas de viagem, cheguei a Santana do Livramento, fronteira com o Uruguai, e fui para o meu hotel. Deixei as coisas e fui conhecer a cidade. Era a primeira vez em que eu ia pra lá com tempo, pois já tinha ido uma vez a Rivera, cidade uruguaia que faz fronteira com Santana do Livramento, mas só para fazer compras. Passeei bastante e foi engraçado o contato com as diferenças culturais. Por exemplo, existe gaúcho que gosta de Punk-Rock e Música Gauchesca, outros gostam de MPB e Música Gauchesca, outros de Pop-Rock e Música Gauchesca, ou ainda Heavy Metal e Música Gauchesca… Vi o povo numa rodinha conversando sobre o absurdo de um cara que era gaúcho e não gostava de música gauchesca.

Mais ou menos como o goiano com a música sertaneja!

Outra coisa que eu vi na viagem toda é que lá não existe lanchonete, só lancheria. Nos restaurantes, tem um prato que é basicamente arroz, feijão, ovo, um bife estilo t-bone e batatas fritas chamado À La Minuta. Qualquer restaurante, que se preze ou não, tem uma placa com o preço d’À La Minuta na porta.

E não existe pão francês. No Rio Grande (ao menos na região da fronteira) só existe “cacetinho“. É sério! Eu me recusava a pedir isso, então pedia:

- 5 pães franceses, por favor!

E a atendente:

- Ahhh, cacetinho??

Eu concordava com um leve movimento de cabeça.

cacetinhos

Cacetinhos… montes de cacetinhos!
E o baguete, como é chamado por lá?

Outra coisa que tem no Rio Grande do Sul de ponta a ponta é a forma de falar de dinheiro. Você vai ao supermercado, e o caixa diz:

- Deu 10 com 15.

Mas hein?????

Só fazendo as contas você entende que ele está dizendo R$ 10,15.

1 com 50

1 com 50.

Mas claro que na região da fronteira, há as coisas que são típicas mais do local, e não de todo o estado. Por lá (Livramento, Bagé, Dom Pedrito), eles usam Tchê o tempo todo. Praticamente não Falam “Bah” igual o resto dos gaúchos, não porque não faça parte do seu vocabulário, mas porque usam tanto o Tchê que não sobra espaço na frase pra falar Bah!

- Tchê, tu viste que cusco chinelo tchê? Tchêêêê!

O primeiro tchê é a forma de tratamento, cusco é cachorro, chinelo é uma palavra pra expressar algo ruim, de mal gosto, de pobre, ou qualquer coisa feia, tosca, palha… O segundo tchê é como se fosse o “meu” que os paulistas falam, e o último tchê é uma interjeição, tipo noooooooossa!

Outra que eu ouvi em um supermercado: um rapaz dando uma dura em outro:

- Tchê, tu não te fresqueia, tchê!

E por fim um adesivo num caro:

“SENTIRÁS O SEGUNDO COICE”.

Eu, hein?

Após essa introdução (ops!), no próximo post a pedalada finalmente começa.

A seguir: Projeto Fat Biker - Um gordo na estrada - Parte II - Pedalando, afinal!