
Balsa para atravessar o Rio Araranguá
Depois de um dia puxado que terminou no Morro dos Conventos, eu saí do camping e descobri o caminho por estradinhas de terra que levava a uma balsa para atravessar o rio Araranguá. Chegando do outro lado, não sabia que caminho seguir, e perguntei pra um morador local. Ele me perguntou:
- Quer ir por dentro ou por fora?
- Como assim, por dentro ou por fora?
- Por fora é pela praia, por dentro não.
Ah, certeza que eu queria praia! eu estava de férias! E ele me indicou então o caminho “por fora“. Mas eu nunca ia imaginar que “pela praia” significava literalmente “pela praia“. Não há estrada, e sim uma faixa de areia muito grande que é usada como estrada.
Imagine eu, com a Lucy e seus pneus finos, o meu próprio peso e mais as bagagens. O pneu se enterrava na areia, por mais dura que ela estivesse. E pra piorar, havia o vento. Contra , é claro.
Não tenho noção de quantos quilômetros eu fiz apenas na areia. Esqueci de marcar. O bom é que conheci bastante gente lá, ao menos. É engraçado que o lugar não constava no meu mapa, não o nome. O pessoal de Criciúma, que usa ali como sua praia (Criciúma é perto mas não tem praia), chama de “Ilha”. Simplesmente Ilha.
A melhor parte do dia foi ver um golfinho, brincando com os pescadores igual um cachorrinho! Consegui tirar uma foto dele. Mas tenho que jurar que é um golfinho, senão ninguém acredita! (obs.: Preciso urgente de um scanner! )
Quando consegui sair da praia, exausto, procurei uma forma de voltar pra BR-101. Quando consegui, descobri que teria que enfrentar 12km em que o acostamento não existia! Foi terrível, estressante, com caminhões e carros argentinos passando lambendo. E um desses carros argentinos resolveu me sacanear. Veio buzinando desde bem atrás, passando bem rente, e me obrigando a me jogar no mato.
Consegui achar um hotel de posto de gasolina em Içara, apenas 45km depois de ter saído do Morro dos Conventos. Estava terrivelmente exausto. Tive forças apenas pra jantar e fazer as contas. Vi que tinha gastado demais com a vida boa. Fiz o planejamento pra fazer a viagem na raça, acampando a maior parte do tempo. Mas na prática, de noite eu queria mais é ficar em hotel. Também planejava fazer minha própria comida, mas eram tantas iguarias pra se provar… Eu não resisti e gastei enormidades com comida. E por fim, eu estava chateado com a história do argentino. Juntando com a saudade e a oportunidade de ter uns dias pra resolver algumas coisas em Curitiba, decidi encerrar minha viagem mais cedo. Assim, aproveitava pra descansar um pouco no final das férias.
Isso decidido, acordei animado no dia seguinte, para pedalar mais uns 90km até Tubarão. Seria meu penúltimo dia. Cheguei em Tubarão no final da tarde, depois de uma maravilhosa pedalada com uns bikers que conheci no trajeto. Eu me despedi deles e entrei na cidade, fui ao hotel, guardei a bike num depósito do hotel e fui pro meu quarto. Custou baratinho e era um hotel muito bom! Fiquei vendo filme e descansando.
Rio Tubarão e vista do centro da cidade - clique na imagem para ver mais fotos no Turismo Catarinense
Acordei tarde no meu último dia de viagem, e fui pedalar pela cidade e adjacências. Tubarão é uma cidade bonitinha. É dividida pelo rio Tubarão, e há várias pontes ligando os dois lados da cidade. Vi uma ponte pênsil, e decidi que tinha que atravessá-la. Era estreita, alta e balançava muito! Tenho um certo medo irracional de altura, apesar de gostar de enfrentá-lo. Atravessei com a Lucy. Chegando do outro lado, descobri que era impossível passar com a bike! Tinha uma passagem feita para só um pedestre e olhe lá! Tinha que ser um pedestre não muito gordo, não sei se eu passaria… Mas como eu estava com a Lucy, nem tentei. Tive que voltar… A volta foi pavorosa. Estava ventando muito e parecia que a ponte ia virar!

A tal ponte…
Passeei até de noite, quando fui pra rodoviária pegar o busão para Curitiba. De madrugada, eu já estava em Curitiba e, no caminho da rodoviária até minha casa, faltando duas quadras, o pneu furou.
O único pneu furado da viagem toda!
E o Projeto Fat Biker chegava ao fim, com cerca de 8 kg a menos e 8 centenas de quilômetros pedalados a mais.
Acabado meu descanso em Tramandaí , comecei a pedalar novamente, passando por dentro das cidades do litoral norte gaúcho.
Mas a chuva começou a castigar logo cedo. O tempo estava bem feio. Foi triste: a Lucy saiu novinha da oficina, toda engraxada, e com tanta água de poças às margens da praia, a corrente já se encheu de areia.
Mas foi muito legal de qualquer forma. Conheci cada cantinho de cidades do litoral gaúcho: Capão da Canoa, Xangrilá, etc… Mas num dado momento o caminho por dentro das cidades se tornou muito intransitável e por fora só tinha a Estrada do Mar que, como eu disse antes, me informaram erroneamente que não podia-se pedalar nela.

Praia de Capão Novo
Chegou um momento em que a dificuldade das estradinhas que beiram a praia era tanta, que eu fui em direção à Estrada do Mar, decidido a arriscar. De cara, encontrei um carro da Polícia Rodoviária Estadual-RS, e perguntei. Disseram que sim, eu podia andar de bike nela, e que todo mundo fazia isso mesmo. Foi aí que eu percebi que me enganaram em Osório.
Bom, como não tinha muita opção, entrei nessa estrada. E foi o máximo! O acostamento era praticamente uma terceira pista. Um tapete! A melhor estrada que eu já peguei. Dava gosto de pedalar. Mais à frente, encontrei um posto da Polícia Rodoviária Estadual e eles foram muito simpáticos, até me ofereceram água. Aí comecei a tirar o atraso causado pela chuva e pelas condições das estradas. Ainda tinha 50km pela frente, e como o tempo melhorou, rendeu bem! Cheguei em Torres quando o ciclocomputador marcava 99 quilômetros percorridos no dia. Foi nesse instante que começou a despencar água de novo. Mas apesar da brutalidade da chuva, ela logo parou, bem quando eu cheguei ao camping, 101 km depois de sair do hotel em Tramandaí.
O pessoal do camping foi super gente fina, e ele estava quase vazio. Tive todo o espaço pra mim. Montei minha casinha de cachorro (minha barraca antiga era igual uma casinha de cachorro azul!), e fui comer alguma coisa. Comi a tal da À La Minuta, e eu estava com tanta fome que foi uma das melhores refeições da minha vida.
Às 21h eu já estava dormindo… o que não faz o cansaço e a falta de opção?
Não tinha nem como ler ali, pois à luz de lanternas eu não queria ler não. O bom é que acordei cedinho, pela primeira vez na viagem, desmontei acampamento e fui conhecer Torres.
Entrei vários quilômetros dentro da cidade até chegar ao mar. Lá é tudo muito bonito. Tem vários morros, nos quais subi de bike pra tirar foto e admirar a paisagem.
Torres - Clique na imagem para mais informações sobre a cidade
Uma vendedora de sorvetes, muito gente boa, puxou assunto. Contava que estava indignada com os argentinos e uruguaios brigando entre eles, e ela tendo que aprender as expressões características de cada um para eles entenderem. Na verdade, segundo ela, eles entendiam, mas pra implicar faziam de conta que não, até ela falar o termo certo.
Não me demorei muito lá, porque ainda teria um longo dia. Pelo meu planejamento, eu teria mais uma pedalada de 100km me aguardando, mais os quilômetros que faltavam pra eu sair da cidade.
Então fui. Entrei finalmente na BR 101. No início foi um trecho meio assustador, cheio de caminhões, e tudo meio confuso. Mas logo a BR tornou-se deserta e bem segura. Toda duplicada. Não tardou e eu cheguei à minha primeira divisa de estados atingida de bike! Emocionante! Estava em Santa Catarina!
Obviamente, começaram a aparecer as primeiras lanchonetes. Mas ainda havia lancherias também. Muito gaúcho montando empreendimentos um pouco acima da divisa de estados.
Não resisti e entrei em algumas cidadezinhas no caminho. Em especial Sombrio . Apesar do nome, achei bem legalzinha! E como eu vi menina bonita em Sombrio. Fiquei surpreso!
Lá pelas 17 horas eu estava em Araranguá , que era meu destino do dia. Sabia pelo guia que tinha praias bem bonitas por lá. Mas achei estranho, porque a cidade em si é bem longe do mar.
Perguntando, e vendo as placas, descobri que para chegar no mar eu teria que pedalar 14 km até um de dois distritos da cidade. Eu optei por Morro dos Conventos, que o Guia 4 Rodas dizia que valia a pena.
Depois de me alimentar com sorvete, encarei mais essa quilometragem pra se somar aos mais de 100 km que já havia feito. Ao fim do percurso, fui direto a um dos muitos campings, montei rapidamente a casinha de cachorro barraca e fui pra praia… eu estava precisando muito de água do mar!
Foi legal pra molhar os pés. O mar lá era muito bonito mas não era muito legal pra entrar. Tinha que ir muito longe e tinha ondas bem traiçoeiras, ao menos para mim, é claro. Mas só de molhar os pés já foi gostoso.
O que me encantou mesmo foram as magníficas dunas e os morros cheios de trilhas pra percorrer.
Balneário Morro dos Conventos - Clique na imagem para ver mais informações no Guia Santa Catarina
Como já anoitecia, voltei ao camping, e fui procurar lugar pra comer. Fiquei jogando conversa fora até perto da meia noite. Viajar de bike facilita isso: sempre alguém vem puxar assunto ou chamar pra fazer alguma coisa.
Mesmo depois do dia cansativo e de não ter ido dormir assim tão cedo, no dia seguinte já tava bem disposto e fui percorrer os lugares. Longa caminhada: dunas, morros onde o pessoal pratica rapel, farol, igreja.
Voltei cansado, mas ainda disposto a seguir viagem no mesmo dia. Desfiz acampamento e fui para o dia que, mal sabia eu, seria o mais puxado da viagem, e o menos produtivo em termos de quilômetros percorridos. Tema do próximo post.
A seguir: Projeto Fat Biker - Um gordo na estrada - Parte VIII - O dia mais cansativo e o fim da viagem
Depois de chafurdar no lixão e sofrer pra embarcar e sair de Porto Alegre, cheguei em Osório após uma rápida viagem. Comecei a procurar um dos hotéis que eu tinha no meu Guia 4 Rodas. A maioria estava lotado, mas encontrei um com vagas. Descobri como chegar lá, montei a bike e fui. Lá, conversei bastante com o povo do hotel, mas eles não levaram muita fé em mim. Um gordo, numa bicicleta marromenos, viajando com ela???
E foi depois disso que surgiu minha primeira dificuldade real. Ouvi umas piadinhas maldosas e muita chacota. E percebi o quanto eu não estava preparado para assimilá-las. Eu me sentia muito bem comigo mesmo e até aquele momento esse sentimento era suficiente para suportar todos os olhares desconfiados e de censura. Eu estava fazendo algo que me fazia muito bem, conhecendo muita gente, muitas culturas, vendo muita coisa que só de bicicleta eu poderia ver, e ninguém tinha nada com isso. Mas mesmo assim, fiquei pra baixo com comentários negativos naquele momento.
Mas tudo bem, fui ao meu quarto, tomei um belo banho, e saí pra conhecer a cidade. Conversei com uns turistas numa lanchonete lancheria, enquanto matava a minha fome, que estava feroz! Esses turistas, como eu, estavam de passagem pela cidade, rumo ao litoral de Santa Catarina. De qualquer forma, valeria a pena ficar um pouco mais de tempo em Osório. A cidade é bem bonitinha.
Lagoa do Marcelino em Osório-RS. Clique na imagem para ver mais atrações turísticas no site oficial
Fui dormir e, no dia seguinte, passeei a pé pelo centro da cidade, voltei pro hotel pra tomar café, e arrumei as coisas para pedalar de novo. Dei um passeio pra ver lagoas da cidade, que lhe dão o apelido de “Cidade das Lagoas” (”ah, tá, Gump, se você não explica eu não iria entender “), mas tudo muito rápido. No início da tarde eu já buscava informações de como seguir viagem para o litoral.
Fui sacaneado! disseram que pela Estrada do Mar era proibido andar de bike, como na Freeway. Peguei outra estrada rumo a Tramandaí, cidade de praia. A bike já implorava por manutenção, mas eu ainda conseguia pedalar.
Mesmo que o melhor caminho para mim tivesse sido a Estrada do Mar, a estrada que eu peguei era totalmente diferente do trecho anterior de pedalada. Era maravilhosa ! Bem caminho de praia mesmo: várias barracas vendendo coisas, tipo milho, melancia (sou o único cicloturista que não come melancia nas paradas), caldo de cana… e água de côco, o melhor de todos os isotônicos!
No finzinho da tarde, cheguei a Tramandaí, e na entrada da cidade ganhei a companhia de um menino que ficou todo orgulhoso de me mostrar o caminho até o centro. Achei um hotel baratinho (mas não muito bom) de frente para um lago. A vista era muito bonita. Consegui ainda a tempo descobrir uma oficina de bike para deixar a Lucy pra uma revisão geral. Iria levar 3 dias. Ganhei um descanso, uma espécie de prêmio.
Tramandaí. Clique na foto para ver mais informações sobre a cidade
Foram dias muito bons, apesar das saudades da Lucy. Conheci muitos argentinos e uruguaios, e o espanhol virava praticamente o idioma oficial do local na época. Nessa época eu estava começando a estudar espanhol, então eu acabei tendo uma boa oportunidade de treinar.
E tive uma vida de rei. Ia em rodízios de pizza, fazia caminhadas por praias extensas, tomava banho de mar, fazia trilhas, comia churrasco, lia bastante. A única coisa que atrapalhava é que eu comecei a sentir saudades de todo mundo, como nunca havia sentido antes. Gastei muito em telefone: liguei até pro povo do trabalho, que na época eram meus melhores amigos.
Resolvido isso, foi tudo perfeito. Só não gostei tanto assim do mar, mas também tinha uns trechos bem interessantes e agradáveis.
Uma coisa legal é ver a força da tradição gaúcha: o povo toma chimarrão até na praia. Eu não posso falar nada porque sou viciado em café e tomo mesmo no calor aqui de Goiânia, mas é engraçado ver alguém, naquele calor, tomando algo que é tão bom pros dias de frio intenso.
Ao fim dos 3 dias, eu peguei a Lucy na oficina e parti na manhã seguinte. O dono do hotel me fez tirar fotos em tudo que é canto do hotel, provavelmente para eu mostrar pra todo mundo como lá é bonito! Apesar de que na hora das fotos, estava bem nublado e chuvoso, então não deu pra se ter a noção da beleza.
O objetivo do dia era percorrer os 100km até Torres, que na minha opinião é a cidade mais bonita do litoral gaúcho, ao menos dos lugares que eu conheci. Tal percurso é tema do próximo post!
A seguir: Projeto Fat Biker - Um gordo na estrada - Parte VII - Saindo do Rio Grande.
Depois dos eventos do post anterior, ao sair pra estrada novamente, eu me desviei do caminho de Porto Alegre, que eu já conhecia muito bem, e peguei outra estrada, com destino a Cachoeira do Sul, a capital nacional de alguma coisa, mas que agora não lembro do que.
(acabei de pesquisar no Google, é a capital nacional do Arroz! Tinha que ser.)
Tomei um café num posto desses de parada de ônibus e segui viagem. A estradinha era muito bonita, surpreendentemente. Como quase todas as estradas da região, só tinha vacas e plantações de arroz, mas era realmente agradável mesmo assim.
E logo no começo do dia de viagem, eu pude me sentir um cicloturista de verdade!! Caiu um belo toró! Mas no meio da alegria pelo meu batismo, uma decepção: a chuva fez meu ciclocomputador parar e eu perdi todos os dados da viagem até ali. Apagou tudo da memória. E eu não lembrava nem da quilometragem exata, quanto mais de velocidade média, tempo efetivo de pedal, etc.
Bom, a chuva passou e cheguei à entrada da cidade, que era bem bonita (a entrada). Tinha um grande rio, e havia uma praia (de rio, dãã), gente pescando, bem legal. Atravessei a longa ponte e comecei a me informar como fazer pra chegar à rodoviária.

Ponte do Fandango, em Cachoeira do Sul - RS
Não sei por que, mas não foi difícil não hehehe! Será por causa do tamanho da cidade? Deu até pra passear um pouco por ali. Foi uma das cidades que melhor me recebeu. Depois de pedalar um pouco por cidadezinhas vizinhas, fui para a rodoviária de novo, comi e resolvi pegar um busão pra Porto Alegre, que não estava muito longe. Afinal, eu conhecia bem o caminho até a capital gaúcha, como já disse anteriormente, e não tinha nada muito interessante até lá: só vilarejos como Arroio dos Ratos. Acho que eu não ia gostar muito de um lugar chamado Arroio dos Ratos.
A viagem de busão foi bem tranquila e rápida, e deixaram-me embarcar a Lucy numa boa. Mas em Porto Alegre foi um inferno! Cheguei e já estava quase anoitecendo, e descobri que a Freeway, a estrada pra ir pro litoral, por onde eu teria que passar, proíbe trânsito de bikes (ao menos foi o que me disseram), além de ter muitas favelas. Isso me assustou e preferi ir, de busão também, para uma cidade próxima do litoral, uns 80km além. Escolhi ir para Osório, uma cidade com lindos lagos. Mas a rodoviária de Porto Alegre era ruim, ao menos na época, para um cicloturista. Tinha muitas regras. Simplesmente não me deixavam levar a bike de jeito nenhum, a não ser embalada. Mas como eu ia embalar se eu estava viajando com ela? Embalar com o que?
Mandaram-me pra vários lugares (um até me mandou praquele lugar) até que finalmente achei um gaúcho mais simpático que me ajudou da maneira que pôde. Mas não teve jeito. Deixei-o cuidando das minhas coisas, com muito medo de perdê-las, e fui até um lixão ao lado da rodoviária, torcendo para achar uma caixa que servisse para embalar a bicicleta.
Como dizem, “à audácia a sorte ajuda“: depois de me livrar de dois mendigos que queriam me roubar, encontrei uma caixa de bicicleta no alto da pilha. Só tive que escalar o lixo, mas estava tão feliz pela sorte que tive que nem liguei pro fedor e pras minhas companheiras aladas de lixão, as moscas.
Voltei, e o cara que trabalhava na rodoviária me arranjou fita pra eu lacrar a caixa. Desmontei a bike, embalei e lacrei, tudo certinho, e aí me deixaram comprar a passagem pra Osório. Tive um stress na hora do embarque, porque não queriam embarcar, mesmo embalada. No fim, algumas discussões entre eles e acabaram embarcando a Lucy, com sua fedorenta embalagem.
Não sei explicar, mas eu estava numa sensação de extrema felicidade durante a viagem, enquanto admirava a Freeway. Uma sensação de ter ultrapassado um grande obstáculo, ter vencido um grande desafio. Foi gostoso.
É impressionante como a felicidade não depende mesmo do que acontece e sim de como a gente encara isso. Shakespeare disse que “nada é bom ou mau, nosso pensamento é que o faz“.
Tempos depois da viagem eu li “Cem dias entre céu e mar“, livro do Amyr Klink descrevendo sua travessia do Atlântico num barco a remo. Ele citou essa mesma sensação. Logo na saída da costa da África, tudo deu errado, e já de cara ele pegou tempestades fortíssimas numa região em que o mar já é violento por natureza. Dentro da apertadíssima cabine, ele ficava girando junto com o barco, enquanto os mantimentos caiam e se espalhavam por toda a cabine. O barco frequentemente ficava de cabeça pra baixo, mas o sistema de equilíbrio se encarregava de deixar o barco na posição certa novamente. Ele não havia podido testar esse sistema de equilíbrio e o teste veio na marra, na prática. O simples fato de ter funcionado perfeitamente o deixou extasiado. Disse que urrava de alegria, explodia em felicidade.
Imagine. O cara lá, no meio de uma tempestade, e naquela situação toda, e feliz da vida. Mas eu entendi perfeitamente o que ele sentiu!
No post seguinte, relatos de momentos não tão felizes que me aguardavam em Osório…
A seguir: Projeto Fat Biker - Um gordo na estrada - Parte VI - De um momento triste para dias de rei.
Depois do café da manhã na fazenda no município de Caçapava do Sul, de acordo com o que foi contado no post anterior, botei o pé na estrada de novo, e tinha muuuuito chão para percorrer!

Onde eu estava no mapa
Mesmo assim foi gostoso porque a manhã foi de ameaça de tempestade, mas mais uma vez eu escapei dela sem me molhar. Conversei com motoristas de caminhão, passei pela entrada da cidade de Caçapava do Sul. Foi um dia que rendeu. Até que eu cheguei na estrada principal, a BR que liga a Argentina a Porto Alegre. Aí já foi menos tranquilo, pois naquela época o litoral do sul do Brasil era invadido por argentinos e eles são loucos na estrada! E tinham que passar por ali!
E o sol voltou a castigar pesado…
Na hora do almoço, vi que faltavam 24km pra um restaurante. Era o que dizia a plaquinha na estrada. Mas foram 24km extremamente sofridos! Passei por uma subidona louca, dificílima de se vencer com todo aquele sol! Mas eu o fiz com muita bravura e logo logo estava me esbaldando numa churrascaria, vendo o caldeirão do Huck. Cansado daquele jeito, qualquer coisa estava valendo!
Dei uma jiboiada depois do almoço, e fui conversar com um povo no posto de gasolina ligado ao restaurante. Bom, quem conhece o tímido aqui entendeu que na verdade eles que vieram falar comigo. Mas aproveitei o papo, pois queria esperar o sol baixar um pouco.
Eles me ajudaram a organizar a bagagem, já que eu tive um problema com as amarras.
Quando o sol baixou, estava mó cara de tempestade, ventania das brabas, nuvens escuras. E eu decidi seguir meu rumo.
No fundo eu estava louco pra tomar chuva! Mas de novo ela desviou de mim!
Eu pretendia ficar no Hotel Papagaio, que fica no meio da estrada. Calculei quantos quilômetros faltavam, mas chegando no local calculado, descobri que tinha errado! Ainda faltavam 10km!
Depois de muito pedalar, morto de cansaço, eu cheguei às 21h em ponto ao hotel.
E descobri que ele estava lotado de argentinos!!!!!!!!
E agora? Não sobrara uma vaguinha sequer pra mim! O que eu ia fazer? Não tinha onde montar a barraca por ali também! E já estava escuro!
Fui informado que, mais uns 5km à frente, havia um hotelzinho desses de posto de gasolina. Realmente, exatos 5km depois, pedalados totalmente no escuro (eu tinha farol mas não tinha montado na Lucy, pois não pretendia pedalar à noite aquele dia), eu cheguei ao hotelzinho. Bem lixão, mas tinha um chuveiro (frio), comida, e um delicioso colchão, que surpreendentemente era novo. Tudo que eu precisava.
Custou 8,00.
Desabei e, pra variar, dei mais uma mancada com o sono. Eu tinha deixado pago porque pretendia sair bem cedo, antes do povo acordar, e avisei a mulher do hotel dos meus planos. Mas perdi a hora e ela foi bater no meu quarto desesperada, achando que tinha acontecido algo, porque eu falei que ia sair cedo e ainda estava no quarto!
Mas ela ficou aliviada ao me ver vivo, apesar de meio zumbi, pronto pras aventuras que serão contadas no próximo post.
A seguir: Projeto Fat Biker - Um gordo na estrada - Parte V - Chafurdando no lixão.