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Projeto Fat Biker – Um gordo na estrada – Parte V – Chafurdando no lixão

  • Arquivado em: Bike
Friday
22/Feb/2008

Depois dos eventos do post anterior, ao sair pra estrada novamente, eu me desviei do caminho de Porto Alegre, que eu já conhecia muito bem, e peguei outra estrada, com destino a Cachoeira do Sul, a capital nacional de alguma coisa, mas que agora não lembro do que.

(acabei de pesquisar no Google, é a capital nacional do Arroz! Tinha que ser.)

Tomei um café num posto desses de parada de ônibus e segui viagem. A estradinha era muito bonita, surpreendentemente. Como quase todas as estradas da região, só tinha vacas e plantações de arroz, mas era realmente agradável mesmo assim.

E logo no começo do dia de viagem, eu pude me sentir um cicloturista de verdade!! Caiu um belo toró! Mas no meio da alegria pelo meu batismo, uma decepção: a chuva fez meu ciclocomputador parar e eu perdi todos os dados da viagem até ali. Apagou tudo da memória. E eu não lembrava nem da quilometragem exata, quanto mais de velocidade média, tempo efetivo de pedal, etc.

Bom, a chuva passou e cheguei à entrada da cidade, que era bem bonita (a entrada). Tinha um grande rio, e havia uma praia (de rio, dãã), gente pescando, bem legal. Atravessei a longa ponte e comecei a me informar como fazer pra chegar à rodoviária.

ponte do fandango

Ponte do Fandango, em Cachoeira do Sul – RS

Não sei por que, mas não foi difícil não hehehe! Será por causa do tamanho da cidade? Deu até pra passear um pouco por ali. Foi uma das cidades que melhor me recebeu. Depois de pedalar um pouco por cidadezinhas vizinhas, fui para a rodoviária de novo, comi e resolvi pegar um busão pra Porto Alegre, que não estava muito longe. Afinal, eu conhecia bem o caminho até a capital gaúcha, como já disse anteriormente, e não tinha nada muito interessante até lá: só vilarejos como Arroio dos Ratos. Acho que eu não ia gostar muito de um lugar chamado Arroio dos Ratos.

A viagem de busão foi bem tranquila e rápida, e deixaram-me embarcar a Lucy numa boa. Mas em Porto Alegre foi um inferno! Cheguei e já estava quase anoitecendo, e descobri que a Freeway, a estrada pra ir pro litoral, por onde eu teria que passar, proíbe trânsito de bikes (ao menos foi o que me disseram), além de ter muitas favelas. Isso me assustou e preferi ir, de busão também, para uma cidade próxima do litoral, uns 80km além. Escolhi ir para Osório, uma cidade com lindos lagos. Mas a rodoviária de Porto Alegre era ruim, ao menos na época, para um cicloturista. Tinha muitas regras. Simplesmente não me deixavam levar a bike de jeito nenhum, a não ser embalada. Mas como eu ia embalar se eu estava viajando com ela? Embalar com o que?

Mandaram-me pra vários lugares (um até me mandou praquele lugar) até que finalmente achei um gaúcho mais simpático que me ajudou da maneira que pôde. Mas não teve jeito. Deixei-o cuidando das minhas coisas, com muito medo de perdê-las, e fui até um lixão ao lado da rodoviária, torcendo para achar uma caixa que servisse para embalar a bicicleta.

Como dizem, “à audácia a sorte ajuda“: depois de me livrar de dois mendigos que queriam me roubar, encontrei uma caixa de bicicleta no alto da pilha. Só tive que escalar o lixo, mas estava tão feliz pela sorte que tive que nem liguei pro fedor e pras minhas companheiras aladas de lixão, as moscas.

Voltei, e o cara que trabalhava na rodoviária me arranjou fita pra eu lacrar a caixa. Desmontei a bike, embalei e lacrei, tudo certinho, e aí me deixaram comprar a passagem pra Osório. Tive um stress na hora do embarque, porque não queriam embarcar, mesmo embalada. No fim, algumas discussões entre eles e acabaram embarcando a Lucy, com sua fedorenta embalagem.

Não sei explicar, mas eu estava numa sensação de extrema felicidade durante a viagem, enquanto admirava a Freeway. Uma sensação de ter ultrapassado um grande obstáculo, ter vencido um grande desafio. Foi gostoso.

É impressionante como a felicidade não depende mesmo do que acontece e sim de como a gente encara isso. Shakespeare disse que “nada é bom ou mau, nosso pensamento é que o faz“.

Tempos depois da viagem eu li “Cem dias entre céu e mar“, livro do Amyr Klink descrevendo sua travessia do Atlântico num barco a remo. Ele citou essa mesma sensação. Logo na saída da costa da África, tudo deu errado, e já de cara ele pegou tempestades fortíssimas numa região em que o mar já é violento por natureza. Dentro da apertadíssima cabine, ele ficava girando junto com o barco, enquanto os mantimentos caiam e se espalhavam por toda a cabine. O barco frequentemente ficava de cabeça pra baixo, mas o sistema de equilíbrio se encarregava de deixar o barco na posição certa novamente. Ele não havia podido testar esse sistema de equilíbrio e o teste veio na marra, na prática. O simples fato de ter funcionado perfeitamente o deixou extasiado. Disse que urrava de alegria, explodia em felicidade.

Imagine. O cara lá, no meio de uma tempestade, e naquela situação toda, e feliz da vida. Mas eu entendi perfeitamente o que ele sentiu!

No post seguinte, relatos de momentos não tão felizes que me aguardavam em Osório…

A seguir: Projeto Fat Biker – Um gordo na estrada – Parte VI – De um momento triste para dias de rei.

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3 Comentários em "Projeto Fat Biker – Um gordo na estrada – Parte V – Chafurdando no lixão"

  1. Pamela Machado 23 de February de 2008 em 00:59

    Deve ser tão legal viajar assim, passar por esses, ahm, impecilhos não seria a palavra, mas deixemos ela. O bom depois foi ver que ficasse feliz, que no final, sempre dá certo!

    [Reply]

  2. Projeto Fat Biker - Um gordo na estrada - Parte VI - De um momento triste para dias de rei - ChristianGump.net 23 de February de 2008 em 21:08

    [...] de chafurdar no lixão e sofrer pra embarcar e sair de Porto Alegre, cheguei em Osório após uma rápida viagem. Comecei a procurar um dos hotéis que eu tinha no meu [...]

  3. Projeto Fat Biker - Um gordo na estrada - Parte IV - O Hotel Lotado - ChristianGump.net 19 de August de 2008 em 01:36

    [...] A seguir: Projeto Fat Biker – Um gordo na estrada – Parte V – Chafurdando no lixão. [...]


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