Contos, viagens

Minhas férias de verão 2010/2011 — Parte 7

[Este texto é a sétima parte de uma série. Leia a parte 6 ou então vá para o início da saga.]

Alguma estrada no interior de Minas, 26/27 de dezembro de 2010.

Uma inesperada calmaria reinava no transporte rumo a uma área livre de zumbis. Parei de me preocupar um pouco com a estrada e voltei minha atenção para 3 figuras aterrorizantes que estavam numa poltrona quase ao lado.

Eram três tenebrosas crianças ocupando duas poltronas do outro lado do pequeno corredor! Três tipos de alarme soaram na minha mente, como se inevitavelmente eu pensasse que aquilo ali iria dar merda. A mãe delas, ou de uma delas, se movia de um lado para o outro no transporte carregando fraldas, roupas, cobertores, isoporitos, etc.

Enfim ela sossegou, e ao mesmo tempo, na estrada, continuava não havendo nenhum sinal de zumbis. Talvez o exército estivesse “limpando” periodicamente o caminho que liga Minas ao paraíso.

E eu me deixei levar pela calmaria: dormi!!

Sim, contar isso é importante! É que você não entende como eu sou: entre às 23h e às 3 da manhã eu estou normalmente no período mais desperto do dia, e é uma grande injustiça eu ter que dormir justamente neste horário no dia-a-dia. Num ônibus então, onde eu fico querendo dormir, é pior ainda.

Mas ali não, eu só dormia, deliciosamente. Era um sono leve, mas maravilhoso. Era pesado o suficiente para eu não acordar, mas leve o suficiente para eu conseguir organizar um pensamento básico:

Massa! Estou dormindo!!!

E eu sentia um leve sorriso brotar no meu rosto, e pensava como era bom dormir no ônibus. Sim, eu penso dormindo, e na mesma velocidade de quando estou acordado: lenta.

E assim se foram boas horas. Houve até uma parada no meio da madrugada para recolher sobreviventes e víveres, mas eu nem dei bola. Até porque dormir com o característico e delicioso som de cabeças de zumbi explodindo é quase tão bom quanto dormir com o barulhinho da chuva.

Nada me faria abrir os olhos.

Nada?

Eis que um cheiro terrível invadiu o transporte. É, eu sabia que ter aquelas crianças todas ali do lado iria dar merda! Mas não sabia que isso seria no sentido literal!

Eu por suposto já fiz xixi dormindo quando criança… Você também! Agora, criança que caga dormindo é algo de que eu não lembro de já ter visto (e cheirado) antes disso!

E durma-se com um fedor desses. Eu já não invejo naturalmente quem tem filhos, mas naquele momento em especial eu não queria estar na pele daquela mãe, que encarava resignada seu horroroso trabalho de limpeza.

Mas ela conseguiu, de alguma forma, um milagre, pois quando o dia amanheceu já não havia mais nenhum fedor — não, não foi a gente que se acostumou. Não dava pra se acostumar com aquilo.

Então, uma rápida parada para nos divertirmos. Uma família se encontrava emboscada na estrada, cercada por uns 10 zumbis. Alguns militares que estavam no transporte, e eu, que me meto onde não sou chamado, descemos e detonamos algumas cabeças de mortos-vivos, e recolhemos as pessoas.

Sem sobressaltos no resto da manhã, fizemos uma parada para almoço. Eu fiquei chocado pelo que os zumbis fizeram com o lugar! Estava nojento! Moscas para tudo que é lado! Salgados duros e feios, comida embolotada, feia, paredes descascando, banheiros imundos e sem água, piso esburacado.

Comentei isso com um militar, que respondeu:

Que zumbis?? Aqui é um “oásis”, que é uma pequena área livre protegida pelo exército! Nunca tivemos um único zumbi aqui!

Por um momento fiquei confuso. Como assim, área livre? E essa destruição, essa nojeira toda?

Aí eu me lembrei de que já tinha viajado pelo interiorzão da Bahia antes. Aquilo não estava destruído não. Essas paradas na estrada são assim mesmo.

De volta ao transporte, tanto a viagem quanto minha leitura renderam muito, e logo estávamos entrando na última cidade baiana que ainda apresentava registros de zumbis: Vitória da Conquista.

Assim que olhei pela janela, larguei o livro e peguei uma arma. Avistei uma grande quantidade de zumbis andando quase se arrastando, lentamente, e não tive dúvidas: abri a janela e mirei.

Fui impedido por um militar que me perguntou que diabos eu ia fazer.

— Ué? Vou matar zumbis! — respondi, surpreso.

— Zumbi? Onde?

Não consegui nem responder tamanha a minha surpresa. Seria o militar cego? Virei então para os zumbis, para apontá-los para o militar, quando reparei melhor.

Realmente não eram zumbis. Eram só pessoas andando no ritmo baiano. Eu sempre me esqueço!

Sem que eu cometesse um assassinato, a viagem seguiu, até que na saída de Conquista enfim vimos um pouco de ação. Não que eu quisesse! E dessa vez nem fomos autorizados a descer e participar da matança. Uma unidade especial de seguranças voluntários, autorizada pelo exército, estava cuidando do mais recente foco de zumbis, enquanto a população observava aterrorizada. Consegui uma câmera com um bom zoom óptico para captar um flagrante da ação, que você vê abaixo:

baiano-tranquilo

Segurança voluntário mira na cabeça de alguns zumbis que se aproximavam. Enquanto isso, o cidadão de branco estava absolutamente aterrorizado! Ele só não demonstrava, porque demonstrar medo dá um trabaaaalho…

Para nós, o conflito ficou para trás. Em tempo recorde chegamos a Itabuna e, logo depois, em Ilhéus! Tudo isso já dentro da área de total proteção contra zumbis! Ao menos era o que garantia a propaganda que faziam da região.

Ilhéus/Itacaré, 27 de dezembro de 2010

Realmente, em Ilhéus tudo parecia tranquilo! Pela primeira vez desde a tarde em que eu acordei e tive que me refugiar na Rodoviária-Shopping de Goiânia, eu entrava numa rodoviária que funcionava normalmente, numa cidade em que nada parecia diferente.

Normalidade! Nada mais bem-vindo!

Dirigi-me ao guichê da empresa Rota para comprar minha passagem para Itacaré, onde iria encontrar meus amigos. Aguardei a minha vez, e enquanto a compra do bilhete ocorria, um senhor chegou do meu lado, quase dando um chega pra lá, e falou para a atendente:

Quanto é a passagem para Quinto dos Infernos?

(Nota do Gump: claro que não era esse o nome da cidade, mas usei esse por não lembrar o nome real e por achar que era para onde ele deveria ir)

A moça respondeu, e ele continuou fazendo perguntas e pedindo passagens, ao que ela não conseguia atender direito pois estava fazendo a minha passagem ao mesmo tempo. Eu não me contive e, seco, interrompi:

— Vai funcionar melhor se você esperar sua vez!

— Eu tô esperando!

Que tipo de resposta foi essa???

Mas enfim, hoje eu até me envergonho de ter ficado indigando com ele, porque ele é que estava certo de chegar interrompendo e pedindo atendimento. Eu ainda não conhecia as regras modernas de educação e etiqueta, portanto não sabia que aguardar sua vez na fila, hoje em dia, é considerado uma grande falta de educação!

Depois foi uma grande bagunça no embarque! Chegou um busão da linha Itabuna-Itacaré, mas ninguém nos respondia (a mim e a vários outros sobreviventes de outros lugares do país) se era o nosso ou não. A passagem indicava apenas a origem e o destino.

A rodoviária estava muito cheia, havia até alguns europeus ansiosos por segurança contra zumbis e por mulatas — não nessa ordem. Tudo isso, mais a rapidez dos serviços baianos, contribuía para a bagunça generalizada.

Acabamos descobrindo que aquele era sim o nosso busão mas não tinha lugar nele (???), então iríamos no próximo, que já estava chegando. Realmente, não demorou. Demorou mesmo foi na parada que tem dentro da cidade, onde as pessoas embarcavam tudo que se possa imaginar, incluindo um carrinho de vender coisas na praia.

Depois, só alegria: o mar, a estrada, e a aproximação de Ponta do Ramo e a Cabana da Empada… Sim, a empada da cabana era maravilhosa, e gente do Brasil inteiro parava lá para prová-las, mas surpreendentemente não era por isso que meu coração se alegrava ao nos aproximarmos dela (bem que podia ser Cabana da Pizza…) É que eu havia ficado hospedado em uma casa toda movida a luz solar, à beira de um lago, a 900 metros do mar e cheia de coqueiros e outras árvores no ano anterior, e era ali em Ponta do Ramo, tendo a Cabana da Empada como referência.

Aquela foi sem dúvida uma das melhores viagens de toda a minha vida, cheia de pedaladas na areia de uma vastíssima praia semi-deserta em pleno verão baiano, e idas periódicas a Ilhéus e Itacaré e outros paraísos da região, sempre acompanhado de uma família não de sangue, mas de alma. Percorrer aquele caminho de novo iluminava meu olhar e aquecia meu coração!

Mas vamos parar com esse momento emo que já deu, né? Até porque nem coração eu tenho! Já comentei que o troquei por um segundo estômago, o que é legal pra caber mais pizzas, mas tornou o controle do percentual de gordura corporal duas vezes mais difícil.

Já era noite quando eu cheguei em Itacaré. Na saída do ônibus ficou toda aquela aglomeração, incluindo muitos gringos, mas um pedinte foi driblando todas as demais pessoas sem nem olhar para elas, com o único intuito de me abordar para pedir dinheiro e oferecer um monte de coisa que eu nem lembro o que era. Eu fico muito puto quando isso acontece, nem consegui falar nada. Aí que ele teve certeza que eu era um gringo provavelmente endinheirado e que não falava uma palavra em português.

Botei a Dani nas costas (Dani é o nome da minha mochila cargueira, pra quem não sabe. Aí você pergunta: “E pra quem sabe, Dani é o quê?” Então eu mando você parar de ser chato(a), porque tenho certeza que você reclama mas também usa a mesmíssima expressão (note como hoje eu estou menos focado ainda do que o normal(e até parênteses dentro de parênteses dentro de parênteses estou colocando))), e a outra mochila com as armas eu acomodei sobre a barriga, e saí destemido e confiante por aquela cidade em que eu vivi tantas alegrias e da qual estava com tantas saudades. Putz, e o relato está ficando emo de novo, Gump! Pára com isso!

Bom, não precisava de táxi para o percurso, afinal era bem pertinho e não tem como se perder numa cidade daquele tamanho, ainda mais quando sua reserva é num local tão central e conhecido e onde você já esteve antes, não é mesmo?

25 minutos e 357 abordagens de habitantes locais oferecendo hospedagem (ou pedindo dinheiro) depois, eu estava finalmente me rendendo e perguntando o caminho para o hostel O Pharol. Envergonhado, tomei o rumo certo. Cheguei, finalmente, e me instalei. Nenhum dos ocupantes do quarto coletivo em que eu iria ficar estavam ali, e meus dois amigos, que estavam num quarto de casal só pra eles também ainda não tinham voltado da praia.

Eu estava havia praticamente 2 dias nas estradas de Minas e da Bahia, e precisava urgentemente de um banho. Foi o tempo certinho para tanto o povo do quarto quanto meus amigos chegarem. A primeira das minhas colegas de quarto que conheci foi a Kelly, uma sobrevivente do caos zumbizístico que virou a terra dela, São Paulo. Uma aventureira solitária, que sempre pegou sua mochila e saiu pelo mundo, mesmo que não conseguisse ninguém para acompanhá-la. Não tive dúvidas: essa era gente boníssima!

Em seguida, chegou uma moça também sobrevivente de São Paulo, mas sem perfil de hostel. Primeiramente achei se tratar de uma patricinha meio deslocada pela falta de opção com a proximidade do fim do mundo. Ao contrário de mim e da Kelly, mochileiros, ela carregava 3 malas maiores que ela. Depois ela me contou sua história e eu entendi.

Ela fugia dos zumbis em São Paulo e veio morar com o pai em Itacaré, mas alguém da nova família dele virou um um morto-vivo. O pai, então, apegado, em vez de matar o zumbi, o acorrentou e o manteve quase como um animal de estimação. Amedrontada, horrorizada e indignada a moça fugiu da casa do pai às pressas, com todos os seus pertences. Daí a quantidade de malas. Ela teve muita sorte em achar a última cama vaga do Hostel, sem ter feito reserva. Não bastasse ser alta temporada, ainda havia o fato de todos os sobreviventes do Brasil e muitos de várias partes do mundo estarem procurando a salvação na Bahia.

Depois foi a vez de um casal italiano chegar, e apesar do meu famoso bordão “malditos italianos!“, ambos eram legais. Eles contaram a aventura para chegar ao brasil e como ocorreu a tragédia da epidemia de Zumbis em Roma. Tentei imaginar se zumbis italianos também gesticulavam para falar “mioooolos”. Ou sei lá como os zumbis falam em italiano. “Cerveeeeeeello”??

Meus amigos, o Malandrão e o Fedora, até que acharam interessante o esquema de viajar conhecendo outras pessoas ficando em hostel, e lamentavam que o mundo estava acabando antes de poderem ter a chance de quem sabe pensar em tentar isso um dia. Só não conseguiam conceber um casal ficar em um quarto coletivo, cada um em uma cama de solteiro, como os italianos estavam fazendo.

Eles me chamaram para saudar a noite que ainda se iniciava, na sacada do quarto deles, que dava para a rua, saboreando um barril de Heineken.

Eu só não sabia que o Fedora era turco e estava contabilizando cada gota de cerveja que eu consumia. Até hoje não tive a oportunidade de lhe pagar um barril, mas não há perigo de esquecer: ele vai me lembrar! 🙂

Saímos mais tarde para dar uma volta na cidade, mas voltamos não muito tarde. Eu precisava descansar da viagem, e também iríamos fazer uma trilha para uma praia que eu ainda não conhecia. Sairíamos o mais cedo possível no dia seguinte.

Cheguei ao meu quarto e já estava todo mundo dormindo, cedo, naquela noite. Subi no meu beliche, apreciei a vista das duas beldades dormindo de shortinho no beliche da frente, e deixei meus olhos se fecharem, felizes.

Parecia que ia ser só um período tranquilo e sem zumbis em Itacaré.

Os próximos dias estavam chegando para me desmentir.


[Continua em Minhas férias de verão 2010/2011 — Parte 8]