Gumpices

Nem doeu!

Uma amiga de origem egípcia citou no Twitter a arte de fazer cara de “nem doeu”, mesmo após prensar os dedos na cadeira da piscina, por vergonha e para não inundar de plavrões os ouvidos próximos.

Pois dessa arte eu sou mestre!

Não é fácil! São mais de 3 décadas de treino incansável, fazendo gumpices em público e tentando disfarçar.

Se tal arte tivesse o reconhecimento que merece, eu seria famoso.

No comecinho do ano, lá estava eu fazendo uma atividade de alto risco: cozinhar. Estava na cozinha coletiva de um hostel, cortando sei lá o que, e me distraí com algo que alguém falou. Voltei o olhar para a atividade que eu estava desempenhando bem a tempo de ver os dentes da faca se escondendo dentro da carne do meu dedão.

Ao mesmo tempo em que o sangue eclodia, milhares de palavrões fervilhavam em meu cérebro. Afinal, minha visão foi tétrica! Parecia que eu iria ter um pouco mais de carne para o almoço. Sim, porque se eu perdesse parte do dedo eu ia fritá-lo e comer, só de raiva! E porque eu sou contra desperdícios, claro!

Mais carne pro almoço!

Providenciando a carne para o almoço!

Porém, o dedo continuou intacto. Só a dor que era intensa. Mesmo assim, minha nobre pessoa seguiu impassível, virou-se para a pia, lavou o excesso de sangue, enrolou o dedo com força em papel toalha e terminou o que estava fazendo, até tudo estar na panela.

Aparentemente, ninguém percebeu nada. Antes de deixar as coisas no fogão para ir cuidar decentemente da ferida, ainda passei na mesa para conversar. Se alguém comentasse algo, diria que “ah, foi só um cortezinho sem importância”.

Tão sem importância que levou dias para parar de abrir sozinho e recomeçar a sangrar em lugares legais como a límpida água cheia de sal do mar da Bahia.

Pouco mais de uma semana antes, na rodoviária de Sampa, enquanto aguardava o busão para uma cidadezinha do interior de Minas, fiquei procurando algo com o tato na mochila e senti uma dor. Tirei a mão e a vi cheia de sangue. O aparelho de barbear tinha se desprendido da capinha protetora, e uma anta tinha guardado o aparelho no mesmo bolso em que guardava a maioria das coisas de uso frequente.

Pela primeira vez eu odiei o fato de o aparelho ter três lâminas.

Com o terminal Tietê lotado, não me dei ao luxo de demonstrar dor ou xingar. Continuei andando, dando uma sacudidinha discreta no dedo periodicamente para deixar meu rastro de sangue pelo chão, enquanto me dirigia calmamente para alguma lanchonete para pegar uns guardanapos para enfaixar o dedo.  Como estava na hora de embarcar, nem deu tempo de passar numa farmácia ou dar um trato melhor na ferida. O jeito foi provar que sou mestre na arte do “nem doeu!”: lavei a mão com álcool gel e minha cara era de total indiferença. Pelo menos eu acho!

No entanto, por mais que alguém seja especialista em fazer de conta que nada aconteceu, isso nem sempre funciona.

Como já contei aqui, já bati a cabeça numa vidraça. Como ninguém estava me vendo, tentei fingir que nada tinha acontecido, mas o BOOOOOONC! que as pessoas ouviram fez com que elas viessem correndo ver o que tinha acontecido.

Continuei assobiando e olhando a paisagem, mas mesmo assim todos perceberam o que tinha ocorrido

Digamos que uma mancha de suor no vidro com o formato do meu rosto tenha atrapalhado um pouco a minha discrição…

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2 Comments

  1. Caracas, a primeira lâmina fez tchan! e a segunda fez tchum! Já a terceira eu não me lembro. Também não imagino, e nem quero imaginar, sua dor!

    Percebo que minhas “gumpices” são pequenas e imaturas perto das suas, pois, que eu teria xingado, ah teria.

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