A viagem de Sampa até a fronteira com a Argentina, em Foz, foi uma continuação do descanso de férias. Ônibus leito, muito confortável. A única coisa diferente de uma viagem normal de ônibus no Brasil foram os filmes argentinos ou dublados em espanhol. Bom para ir treinando.
Em Foz, depois dos procedimentos rápidos de fronteira, comemorei:
- Estou na Argentina!
Ploft! Desmaiei de sono!
Acordei à s 6 horas da manhã com o ônibus numa parada. Fui acordado pelo “aerorodomoço” gumpesco do ônibus, que deixou uma bandeja cair.
Eu queria descer, para escovar os dentes, fazer as necessidades, tomar um banho rápido. Caindo de sono, consegui perguntar:
- ¿Cuánto tiempo?
- 10 minutos - ele respondeu.
Eu estava feliz com meu primeiro contato bem-sucedido fora do paÃs até que eu descobri que ele havia respondido que o ônibus havia parado havia 10 minutos.
Mas deu tempo tranquilo de descer, tomar um banho de gato e voltar, para ser intimado, junto aos demais brasileiros, a tomar o café da manhã pago pela empresa.
Como nós, brasileiros, não estávamos entendendo direito o que eles falavam, eles só faziam mÃmicas enérgicas. Parecia algo meio autoritário.
Eu um outro rapaz fomos encaminhados para uma mesa com um casal de franceses. Bem a tempo de vermos a francesa protagonizar uma bela gumpice! Como ela não conseguia explicar pro cara que servia o café que ela queria só um pinguinho de café no leite, botou a mão no bule para que ele parasse com o café. Queimou a mão.
Mas o massa foi o mapa. A brasileirada toda olhando o mapa do trajeto pela Argentina, todos quietinhos e compenetrados. Na hora em que eu saquei a máquina e tirei fotos do mapa, mais de 10 máquinas apareceram instantaneamente, para tirar fotos desse mapa.

O mapa e sua fantástica tradução para o inglês
Enfim, foi uma parada até que divertida. Mal sabia eu que seria a última. E faltavam 32 horas até santiago…
Em uma espera de algumas horas no terminal Tietê, acaba-se vendo muitas cenas inusitadas.
Imagine um grupo de vários homens, na faixa dos 40 anos, todos com um jeitão um tanto bronco. Todos com sacolas do boticário e conversando animadamente sobre perfumes.
Um mostrava para o outro o perfume que comprou. Experimentavam. Riam. Discutiam o porquê de cada escolha.
Nada de mais, mas era algo que parecia não combinar.
E comecei a divagar. Naturalmente são mulheres que têm esse tipo de conversa. Muher gosta de estar arrumada e perfumada o tempo todo em que estiver em público. Homem gosta de estar perfumado por interesses sexuais.
- Gump! Hoje já há homens que se cuidam o tempo todo também!
É verdade, mas em última análise é um impulso sexual que os move também. Todos que eu conheço estão sempre arrumados e cheirosos porque acham que as mulheres preferem os “homens modernos”.
De qualquer forma, esse não parecia ser o perfil deles.
Num dado momento da conversa dos caras, um deles começou a falar mais alto, mais animado, e disse, em seu jeitão de fã de música sertaneja:
- Isso aqui atrai mulher a quilômetros, sô!
Ahhh…
Se você está tendo um problema com vazamento de gordura na calçada, você tem duas opções:
Esse pessoal em Sampa sabe das coisas.

Abaixo, formas de se esconder um elefante. Não é novidade… rolaram até concursos com esse tema . Mas eu ainda não tinha visto.



















Estou em São Paulo, curtindo a primeira parada da minha mochilada pelo Mercosul.
A alegria da chegada em Sampa foi duplamente especial. Além de eu adorar a cidade, estava muito frio quando eu cheguei. Ainda faz frio no mundo! Já há dois anos que eu não uso agasalhos, e as últimas semanas foram de calor infernal ininterrupto em Goiânia.
Aproveitando que o guichê da Crucero del Norte só abriria às 10h, fui dar uma rápida voltinha. Deixei a Dani, minha nova companheira, guardadinha no Malex.
- Dani? Que Dani??
Dani é a Daniela, a minha mochila. A Berenice, minha bike, está morrendo de ciúmes, mas ela entende que há lugar em meu coração para as duas.
Mas vamos voltar à narrativa original!
Eu estava com desejo. Queria porque queria comer alguma coisa Japa. Ou então, acarajé!!! Então, o destino do passeio-relâmpago estava definido: Liberdade, o bairro oriental.
- Mas Gump, o que acarajé tem a ver com bairro oriental? Até um loiro como você sabe que acarajé é coisa de baiano!
De fato. Mas a única vez que eu comi acarajé foi na feirinha oriental da Liberdade. Mas não era acarajé falsificado, “made in China”. A “acarajezeira” era baiana mesmo - ou fingia ser.
Domingo é dia de feirinha na Liba. Achei que ainda poderia aproveitar, mas cheguei muito cedo. O jeito foi dar um passeio pelas ruas do bairro.
Fiquei triste ao ver as luminárias em estilo oriental tão mal-cuidadas - Exceto na rua Galvão Bueno, próximo ao local da Feirinha.
De qualquer forma, andar na Liberdade sempre me dá a impressão de estar mesmo em outro paÃs. Não só pela maioria oriental dos transeuntes, mas pelo inconfundÃvel estilo do comércio. Em alguns pontos, há várias yakissoberias, algumas caindo aos pedaços.
Mas enfim cheguei ao que eu queria. Os mercadinhos japas, cheios de produtos orientais.
Prateileiras e mais prateleiras com bentô, sushi e afins. Lembrei na hora de uma certa baiana (não a acarajezeira) que iria ficar louca diante de tanto sushi. Esses mercadinhos são comuns em lugares onde há muitos orientais, como Sampa e Curitiba, mas praticamente inexistem na Bahia e em Goiânia.
Tive então a brilhante idéia: tirar foto de parte da prateleira!
Ante os olhares horrorizados/impressionados/indignados dos japas presentes, saquei miha máquina e comecei a preparar a foto. Um funcionário resolveu tentar me boicotar. Ficou na frente propositalmente. Começou um duelo. Eu tentando tirar a foto, e ele evitando. Tudo poderia ter sido mais facilmente resolvido se eu explicasse o porquê da foto. Mas sabe como é, mamãe me ensinou a não falar com estranhos timidez é phodda. Apesar de que venci parte da timidez só de insistir na foto, pois tudo foi visto com atenção pelos clientes da loja, curiosos com o jacu que tentava fotografar uma prateleira.
Mas enfim, consegui!

A FatÃdica foto, muito mal tirada ainda por cima.
Comprei um bentô que me pareceu apetitoso, mais uma bandeja com um negócio que eu esqueci o nome, e arrumei um cantinho para comer, com hashi e tudo.
Como é o nome desse negócio da esquerda?
Ao voltar para o terminal, vi com felicidade o cartaz: “Aqui sua bicicleta é bem-vinda!”, afixado no metrô. A Berê ia gostar. Não sei como são as regras para o uso de bicicleta no metrô, mas já é um avanço rumo a transportes alternativos.
Depois, de volta ao terminal Tietê, a briga foi para conseguir retirar minha passagem, mas tudo resolvido. Agora, vou pra pousada. Mochileiro só entra depois do meio dia. Pagar diária a mais por causa de algumas horas? Nem pensar!
Mas a viagem já está rendendo idéias para posts futuros… e ela mal começou!