ChristianGump.net

Arquivo de July de 2008

Tuesday
29/Jul/2008

Estava aqui, blogando, navegando, quando escutei um barulho insistente vindo do portão.

Olhei pela janela e vi, incrédulo, um cara usando uma vara para tentar puxar meu balde que estava no quintal.

Saí correndo do quarto, atravessei o corredor e o quintal, só para ter tempo de ver o mané pegar o balde e fugir em disparada.

balde
Quem é que rouba um BALDE?

Mas não, eu não ia deixar barato!

Abri o portão e saí correndo atrás do larápio!

Ele entrou num estacionamento cercado por várias casas. Tentei identificá-lo entre os vários curiosos em volta do estacionamento e crianças jogando bola.

Não consegui localizá-lo. Mas um vento bateu, e eu senti um friozinho estranho, e também algo balançando.

Olhei para baixo.

Eu estava pelado!

Puto e pelado!

Numa tentativa de manter a decência, mas ainda sem desistir da perseguição, tentei tapar as partes com apenas uma das mãos. E consegui!

Foi quando eu percebi que o que acontecia era impossível: tenho mão pequena, não proporcional ao… resto do corpo!

Abri os olhos!

Sonho bizarro da porra! Uma hora eu estava ao computador, outra eu estava acordando sem lembrar de ter deitado.

Realmente, eu preciso dar um jeito de dormir melhor…

Tuesday
29/Jul/2008

Esse texto é o terceiro da série A vida em 4 linhas de ônibus.

Linha 3: Estudantes - O busão das desilusões amorosas

Apesar de longe do ideal, o transporte público de Curitiba é exemplo para muitas - se não todas - cidades grandes do país.

Mesmo assim, pegar um “alimentador”, trocar de ônibus no terminal, pegar um biarticulado lotado e trocar de ônibus mais uma vez em uma estação-tubo qualquer, é uma grande aventura.

Há muitas linhas famosas na cidade. O Inter 2 é uma dos mais marcantes. É um “ligeirinho” (ônibus que tem menos paradas que os convencionais) que contorna a cidade. Quem não conhece bem e pega no sentido contrário também chega ao seu destino, mas com algumas horas de atraso. Já até escreveram o Guia de Sobrevivência no Inter 2.

Mas o ônibus que mais me marcou em Curitiba foi o Estudantes. Trata-se de uma linha convencional que sai do Centro, passa na Casa do Estudante e tem ponto final no Centro Politécnico da UFPR.

Primeiro, porque tinha o motorista mais louco de toda a cidade. Na Avenida das Torres, ele saía costurando no meio dos carros, deixando-os para trás com seu busão velho. Dentro, os passageiros se seguravam como podiam. Alguns rezavam.

E enquanto isso, o motorista ia contando suas frustrações para quem quisesse ouvir. A maior delas foi não terem-no deixado dirigir um biarticulado (ônibus que, como o nome diz, tem duas articulações), sob a justificativa de que ele iria dar um nó no bicho.

Totalmente injusto, ele dizia. A gente fingia que concordava, enquanto torcia para chegar vivo.

Outros motoristas gostavam de xingar os estudantes.

Um dia eu saí de casa e vi o ônibus chegando. Como qualquer um que tem horário a cumprir, saí correndo para o ponto. Cheguei a tempo, mas ouvi a bronca, pesada, do motorista, que erradamente supôs que eu ficava esperando longe do ponto e corria quando o ônibus chegava. Fomos discutindo até que ele quase bateu num caminhão. Decidi que chegar vivo era melhor que ter razão e fiquei quieto.

Nesse itinerário deu-se, também, uma de minhas grandes frustrações. Indo para o Centro Politécnico uma noite, simplesmente parei de prestar atenção na conversa dos meus amigos ao avistar, no fundo do ônibus, a menina mais bonita que eu já havia visto. E, para minha surpresa, a japonesinha correspondeu o olhar. Trocamos olhares e sorrisos, à distância, a viagem toda. Quando chegou o ponto dela, pouco antes do meu, ela atravessou o ônibus para descer na porta mais próxima de mim. A porta abriu, e ela não desceu de imediato. Olhou-me firmemente por intermináveis dois segundos, sorrindo, e por fim disse “tchau“, acenando. E eu tive o impulso de descer, de agir, de fazer alguma coisa finalmente.

Mas fiquei ali parado, com minha cara normal cara de bobo.

Depois, não consegui me conformar!

Por mais de duas semanas, peguei o ônibus toda noite naquele horário, mesmo estando de férias na faculdade. Apenas para tentar encontrá-la de novo.

Nunca mais a vi.

O que vi, numa dessas noites, foi o motorista, o doido, bater em outro ônibus e botar a culpa no colega de profissão.

O Estudantes, aliás, foi o meu busão das desilusões.

Bem no começo da facul, eu gostava de uma menina (que conheci no Estudantes!), que gostava de um amigo meu, que só gostava de computador. Nós 3 éramos vizinhos e voltávamos juntos no Estudantes. Quando eu aceitei que estava fora da parada, cansado de ter que aguentar vê-la dando em cima do meu amigo, inventei uma desculpa para descer do ônibus antes deles; enquanto isso, como bom perdedor, resignado, eu desejava felicidades para os dois em pensamento: “vão os dois pro inferno, seus fdp!

Disse que desceria antes para passar num supermercado. Estaria, ao menos, livre.

- Eu vou com você, Gump! - disse o meu amigo nerd.

- Ah, então eu vou com vocês! - disse, saltitante, a menina.

PQP! Eu devia ter ficado na segurança do Estudantes, que a tortura acabava logo. Mas ela acabou durando ainda mais uns 40 minutos…


A vida em 4 linhas de ônibus:

Monday
28/Jul/2008

Esse texto é o segundo da série A vida em 4 linhas de ônibus.

Linha 2 - 484-Olaria-Copacabana - O ônibus que não me esquece

Realizei, enfim, em 1993, o sonho de infância de morar em uma cidade grande. E nunca peguei tanto ônibus na vida quanto nos anos em que morei no Rio de Janeiro.

De cara, fui apresentado ao 474-Jacaré-Jardim de Alah, para ir de São Cristóvão a Copacabana. Já tive ali minha noção do que era o transporte público em um cidade caótica grande. Mas não importava, eu adorava estar ali e, mesmo com medo, eu pegava esse e outros ônibus todo dia. Muitas vezes só pelo prazer de conhecer a cidade.

Para ir para o trabalho, também peguei por muito tempo o 175-Central-Barra da Tijuca. Aquele do Gabriel o Pensador.

Até que arrumei o meu emprego mais divertido até hoje (é, eu achava divertidíssimo, sem ironia): entregador de uma farmácia de manipulação. Minha função era percorrer todo o Rio de Janeiro e Niterói de ônibus, rumo às profundezas mais distantes e não tão maravilhosas da Cidade Maravilhosa.

Poucos cariocas conheciam tão bem as linhas de ônibus do Rio quanto este brasiliense com sotaque do sul e cara de gringo aqui.

Já fui assaltado e já escapei de assalto, já me joguei no chão do ônibus ao ouvir suposto barulho de tiroteio, já entrei em pânico, e já desci só por considerar que pessoas que embarcavam pareciam suspeitas.

Apesar de haver muitas linhas marcantes no período, elegi o 484 como a linha de ônibus para representar essa época da minha vida. E com um detalhe: eu nunca peguei o 484!


Na época ele era bem mais ‘feiinho’…

Mas eu explico. Meu mundo antes do Rio era restrito ao interiorrrr de Santa Catarina, e chegar na bagunça de uma cidade como o Rio pode ser um tanto assustador. E logo no primeiro dia, na Av. Nossa Senhora de Copacabana, eu avistei o 484, com gente saindo pelas portas e janelas. E eu falo isso num sentido literal. O ônibus andava com as portas abertas e pessoas penduradas ali. Extremamente lotado. E muita gente gritando, mexendo com as pessoas na rua. Também dava para ver muitas figuras pitorescas, com cabelos e vestes bem chamativos.

E meus amigos ainda me botavam pilha:

- É o ônibus da morte! Fuja dele!

O fato é que tivemos uma ligação, o 484 e eu. O 484 me marcou, e eu fui marcante para parte dos passageiros do 484. Todo dia, enquanto eu esperava meu ônibus, o 484 passava por mim, e zoar com a minha cara era a alegria da viagem de muita gente:

- Lôra Burra!!

Era a época em que a música do Gabriel tocava no rádio.

Não importava em que parte do trajeto do busão eu me estivesse. Eu era imediatamente reconhecido:

- Lôra Burra!!

No aterro do flamengo, era hora de eles mostrarem suas habilidades como surfistas rodoviários. E eu ali, vendo-os escalar o ônibus naquela pista de alta velocidade, e se equilibrar em pé sobre o teto.

A diversão deles era dupla. Surfar e gritar:

- Uhú! Lôra Burra!!

E, caminhando em Copacabana, eu esbarrava frequentemente com meus “conhecidos” do 484. Um entregava panfletos; outro atendia numa lanchonete; outro estava sempre perambulando por lá. Não trocávamos palavras, mas a gente se reconhecia. Nossas caras denunciavam nossos pensamentos:

Cara do 484 - Caraca, maluco, ó o Lôra Burra aí!

Gump - Putz, ó o cara do 484 aí!

Mas isso estava prestes a acabar, eu pensei. Afinal, um belo dia, destrocei minhas madeixas de tamanho médio com uma máquina 2. Quase careca, eu não seria mais reconhecido!

Esse pensamento durou até que nos cruzamos novamente, o 484 e eu:

- Lôra Burra Careca!!

O 484 me reconhecera!

Não tem pro 175, pro 474, nem pro 882 e sua rota longínqua, nem pra nenhum outro. O busão desse período da minha vida, sem dúvida, foi o 484. Mesmo sem eu nunca ter viajado nele.


A vida em 4 linhas de ônibus:

Monday
28/Jul/2008

Um bom transporte público é fundamental para o bom funcionamento de uma cidade grande. Mas como “bom” e “transporte público” no Brasil são palavras que normalmente não podem ficar juntas, não só as cidades não funcionam, como quem já pegou ônibus com certeza tem muitas histórias para contar.

Assim, decidi dividir minha vida em quatro partes. Cada uma com uma linha de ônibus marcante.

Linha 1 - Bom Jesus-Faxinal - A inocência caipira

Em RioMafra (Rio Negro-PR e Mafra-SC, cidades que, apesar de estarem em estados diferentes, são separadas apenas por um rio e na prática formam um único município) existe apenas uma empresa de ônibus urbano atuando.

Uma de suas linhas, a principal, liga a puta-que-o-pariu de uma cidade ao cafundó-de-judas de outra. Mais especificamente, o bairro do Faxinal, em Mafra, ao Bom Jesus, em Rio Negro.

Há muitas eras geológicas, quando morei lá, a linha era composta de ônibus velhos, sacolejantes, lentos, com algumas pessoas com desodorante bem vencido e gente espremida.

Ônibus da linha Bom Jesus-Faxinal…
brincadeirinha!! Não tenho como ir para Mafra tirar uma foto atual…

Para a criança caipira que eu era, nada no mundo poderia ser pior! E eu sonhava com o dia de morar na cidade grande, onde o transporte seria decente…


A vida em 4 linhas de ônibus:

Saturday
26/Jul/2008

Eu gosto de humor negro. Adoro. Sei separar o que é uma simples piada “errada” do que é realidade. Não me afeta.

Mas quando é pra valer é outra história. Passa a ser de verdade, e isso sim não me agrada.

Para exemplificar, segue uma piadinha extremamente cruel, mas engraçada, e um vídeo que, por sua vez, não tem a menor graça.

A piadinha:

Um dia o pai chega pro filho, cego de nascença, e diz:

- Filho, você vai enxergar! Mandei vir dos Estados Unidos um colírio milagroso! Um remédio revolucionário! Apenas uma gotinha em cada olho e você vai poder enxergar!

O menino ficou todo feliz:

- Jura, pai? Que bom! Que alegria! Agora eu vou poder saber como é você, como é a mamãe, meus amigos, o azul, o feio, as meninas, Nossa Senhora, as flores, tudo. Que dia o remédio chega?

- Eu te aviso - disse o pai.

E todo dia o pai chega do trabalho e o menino corria pra ele, aflito, batendo nos móveis, gritando:

- Chegou, papai? Chegou?

Isso durou duas semanas. Até que finalmente um dia o pai chegou em casa, aproximou-se do filho ceguinho e balançou um vidrinho no ouvido dele.

- Sabe o que é isso filhinho?

- Sei, sei - gritou o menino - É o colírio! É o colírio!

- Exatamente, meu filho. É o colírio.

- Que bom - disse o menino - Agora eu vou poder ver as coisas, saber se eu pareço com você, saber a cor dos olhos da mamãe, usar meus lápis de cores, ver os pássaros, o céu, as borboletas. Vamos, papai, pinga logo este colírio nos meus olhos.

- Não. Hoje, não. - disse o pai - Mandei chamar sus avós, todos os nossos parentes; eles chegam no dia de seu aniversário, quero pingar o colírio com todo mundo aqui a sua volta.

Aí o menino disse todo conformado:

- É. O senhor tem razão. Quem já esperou dez anos, espera mais uns dias. Vai ser bom. Aí eu vou ficar conhecendo todos os meus parentes de uma vez.

E deitou-se, mas não conseguiu. Passou a noite toda sofrendo, rolando na cama, pra lá, pra cá. E assim foram todas as noites, até que finalmente faltavam poucos minutos para o seu aniversário.

À meia noite, toda a família do garoto se reuniu no centro da sala e aguardou o final das doze badaladas. O menino ouviu uma por uma, sôfrego.

Bateram as dez, as onze, as doze!

- Agora papai, agora! O colírio.

O pai pegou o vidrinho, pingou uma gota num olho. Outra no outro.

- Posso abrir os olhos? - perguntou o menino.

- Não - disse o pai. - Tem que esperar um minuto, certinho. Senão estraga tudo! Vamos lá: 59, 58, 57 - e foi contando, e o menino de cabecinha erguida esperando - 16, 15, 14 - e toda a família em volta esperando - 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, e já!

O menino abriu os olhos e exclamou:

- Ué. Eu não estou enxergando nada!

E a família toda, batendo palma, cantarolou no ritmo:

- Primeiro de Abril, Primeiro de Abril!

E o vídeo. Em teoria, não tão cruel quanto a piadinha, obviamente; Mas…

Poxa… isso não se faz. A cara de tristeza do menino é de cortar o coração. Fiquei mal.

O que atenuou um pouco foi ler a descrição do vídeo no Youtube. Segundo ela, foi apenas um castigo por ele ter olhado o presente antes do natal, e o menino ganhou o game depois. Menos mal. Mas isso não se faz.

Achei o vídeo no UmTudo.com.