Acabado meu descanso em Tramandaí , comecei a pedalar novamente, passando por dentro das cidades do litoral norte gaúcho.
Mas a chuva começou a castigar logo cedo. O tempo estava bem feio. Foi triste: a Lucy saiu novinha da oficina, toda engraxada, e com tanta água de poças às margens da praia, a corrente já se encheu de areia.
Mas foi muito legal de qualquer forma. Conheci cada cantinho de cidades do litoral gaúcho: Capão da Canoa, Xangrilá, etc… Mas num dado momento o caminho por dentro das cidades se tornou muito intransitável e por fora só tinha a Estrada do Mar que, como eu disse antes, me informaram erroneamente que não podia-se pedalar nela.

Praia de Capão Novo
Chegou um momento em que a dificuldade das estradinhas que beiram a praia era tanta, que eu fui em direção à Estrada do Mar, decidido a arriscar. De cara, encontrei um carro da Polícia Rodoviária Estadual-RS, e perguntei. Disseram que sim, eu podia andar de bike nela, e que todo mundo fazia isso mesmo. Foi aí que eu percebi que me enganaram em Osório.
Bom, como não tinha muita opção, entrei nessa estrada. E foi o máximo! O acostamento era praticamente uma terceira pista. Um tapete! A melhor estrada que eu já peguei. Dava gosto de pedalar. Mais à frente, encontrei um posto da Polícia Rodoviária Estadual e eles foram muito simpáticos, até me ofereceram água. Aí comecei a tirar o atraso causado pela chuva e pelas condições das estradas. Ainda tinha 50km pela frente, e como o tempo melhorou, rendeu bem! Cheguei em Torres quando o ciclocomputador marcava 99 quilômetros percorridos no dia. Foi nesse instante que começou a despencar água de novo. Mas apesar da brutalidade da chuva, ela logo parou, bem quando eu cheguei ao camping, 101 km depois de sair do hotel em Tramandaí.
O pessoal do camping foi super gente fina, e ele estava quase vazio. Tive todo o espaço pra mim. Montei minha casinha de cachorro (minha barraca antiga era igual uma casinha de cachorro azul!), e fui comer alguma coisa. Comi a tal da À La Minuta, e eu estava com tanta fome que foi uma das melhores refeições da minha vida.
Às 21h eu já estava dormindo… o que não faz o cansaço e a falta de opção?
Não tinha nem como ler ali, pois à luz de lanternas eu não queria ler não. O bom é que acordei cedinho, pela primeira vez na viagem, desmontei acampamento e fui conhecer Torres.
Entrei vários quilômetros dentro da cidade até chegar ao mar. Lá é tudo muito bonito. Tem vários morros, nos quais subi de bike pra tirar foto e admirar a paisagem.
Torres - Clique na imagem para mais informações sobre a cidade
Uma vendedora de sorvetes, muito gente boa, puxou assunto. Contava que estava indignada com os argentinos e uruguaios brigando entre eles, e ela tendo que aprender as expressões características de cada um para eles entenderem. Na verdade, segundo ela, eles entendiam, mas pra implicar faziam de conta que não, até ela falar o termo certo.
Não me demorei muito lá, porque ainda teria um longo dia. Pelo meu planejamento, eu teria mais uma pedalada de 100km me aguardando, mais os quilômetros que faltavam pra eu sair da cidade.
Então fui. Entrei finalmente na BR 101. No início foi um trecho meio assustador, cheio de caminhões, e tudo meio confuso. Mas logo a BR tornou-se deserta e bem segura. Toda duplicada. Não tardou e eu cheguei à minha primeira divisa de estados atingida de bike! Emocionante! Estava em Santa Catarina!
Obviamente, começaram a aparecer as primeiras lanchonetes. Mas ainda havia lancherias também. Muito gaúcho montando empreendimentos um pouco acima da divisa de estados.
Não resisti e entrei em algumas cidadezinhas no caminho. Em especial Sombrio . Apesar do nome, achei bem legalzinha! E como eu vi menina bonita em Sombrio. Fiquei surpreso!
Lá pelas 17 horas eu estava em Araranguá , que era meu destino do dia. Sabia pelo guia que tinha praias bem bonitas por lá. Mas achei estranho, porque a cidade em si é bem longe do mar.
Perguntando, e vendo as placas, descobri que para chegar no mar eu teria que pedalar 14 km até um de dois distritos da cidade. Eu optei por Morro dos Conventos, que o Guia 4 Rodas dizia que valia a pena.
Depois de me alimentar com sorvete, encarei mais essa quilometragem pra se somar aos mais de 100 km que já havia feito. Ao fim do percurso, fui direto a um dos muitos campings, montei rapidamente a casinha de cachorro barraca e fui pra praia… eu estava precisando muito de água do mar!
Foi legal pra molhar os pés. O mar lá era muito bonito mas não era muito legal pra entrar. Tinha que ir muito longe e tinha ondas bem traiçoeiras, ao menos para mim, é claro. Mas só de molhar os pés já foi gostoso.
O que me encantou mesmo foram as magníficas dunas e os morros cheios de trilhas pra percorrer.
Balneário Morro dos Conventos - Clique na imagem para ver mais informações no Guia Santa Catarina
Como já anoitecia, voltei ao camping, e fui procurar lugar pra comer. Fiquei jogando conversa fora até perto da meia noite. Viajar de bike facilita isso: sempre alguém vem puxar assunto ou chamar pra fazer alguma coisa.
Mesmo depois do dia cansativo e de não ter ido dormir assim tão cedo, no dia seguinte já tava bem disposto e fui percorrer os lugares. Longa caminhada: dunas, morros onde o pessoal pratica rapel, farol, igreja.
Voltei cansado, mas ainda disposto a seguir viagem no mesmo dia. Desfiz acampamento e fui para o dia que, mal sabia eu, seria o mais puxado da viagem, e o menos produtivo em termos de quilômetros percorridos. Tema do próximo post.
A seguir: Projeto Fat Biker - Um gordo na estrada - Parte VIII - O dia mais cansativo e o fim da viagem
Depois de chafurdar no lixão e sofrer pra embarcar e sair de Porto Alegre, cheguei em Osório após uma rápida viagem. Comecei a procurar um dos hotéis que eu tinha no meu Guia 4 Rodas. A maioria estava lotado, mas encontrei um com vagas. Descobri como chegar lá, montei a bike e fui. Lá, conversei bastante com o povo do hotel, mas eles não levaram muita fé em mim. Um gordo, numa bicicleta marromenos, viajando com ela???
E foi depois disso que surgiu minha primeira dificuldade real. Ouvi umas piadinhas maldosas e muita chacota. E percebi o quanto eu não estava preparado para assimilá-las. Eu me sentia muito bem comigo mesmo e até aquele momento esse sentimento era suficiente para suportar todos os olhares desconfiados e de censura. Eu estava fazendo algo que me fazia muito bem, conhecendo muita gente, muitas culturas, vendo muita coisa que só de bicicleta eu poderia ver, e ninguém tinha nada com isso. Mas mesmo assim, fiquei pra baixo com comentários negativos naquele momento.
Mas tudo bem, fui ao meu quarto, tomei um belo banho, e saí pra conhecer a cidade. Conversei com uns turistas numa lanchonete lancheria, enquanto matava a minha fome, que estava feroz! Esses turistas, como eu, estavam de passagem pela cidade, rumo ao litoral de Santa Catarina. De qualquer forma, valeria a pena ficar um pouco mais de tempo em Osório. A cidade é bem bonitinha.
Lagoa do Marcelino em Osório-RS. Clique na imagem para ver mais atrações turísticas no site oficial
Fui dormir e, no dia seguinte, passeei a pé pelo centro da cidade, voltei pro hotel pra tomar café, e arrumei as coisas para pedalar de novo. Dei um passeio pra ver lagoas da cidade, que lhe dão o apelido de “Cidade das Lagoas” (”ah, tá, Gump, se você não explica eu não iria entender “), mas tudo muito rápido. No início da tarde eu já buscava informações de como seguir viagem para o litoral.
Fui sacaneado! disseram que pela Estrada do Mar era proibido andar de bike, como na Freeway. Peguei outra estrada rumo a Tramandaí, cidade de praia. A bike já implorava por manutenção, mas eu ainda conseguia pedalar.
Mesmo que o melhor caminho para mim tivesse sido a Estrada do Mar, a estrada que eu peguei era totalmente diferente do trecho anterior de pedalada. Era maravilhosa ! Bem caminho de praia mesmo: várias barracas vendendo coisas, tipo milho, melancia (sou o único cicloturista que não come melancia nas paradas), caldo de cana… e água de côco, o melhor de todos os isotônicos!
No finzinho da tarde, cheguei a Tramandaí, e na entrada da cidade ganhei a companhia de um menino que ficou todo orgulhoso de me mostrar o caminho até o centro. Achei um hotel baratinho (mas não muito bom) de frente para um lago. A vista era muito bonita. Consegui ainda a tempo descobrir uma oficina de bike para deixar a Lucy pra uma revisão geral. Iria levar 3 dias. Ganhei um descanso, uma espécie de prêmio.
Tramandaí. Clique na foto para ver mais informações sobre a cidade
Foram dias muito bons, apesar das saudades da Lucy. Conheci muitos argentinos e uruguaios, e o espanhol virava praticamente o idioma oficial do local na época. Nessa época eu estava começando a estudar espanhol, então eu acabei tendo uma boa oportunidade de treinar.
E tive uma vida de rei. Ia em rodízios de pizza, fazia caminhadas por praias extensas, tomava banho de mar, fazia trilhas, comia churrasco, lia bastante. A única coisa que atrapalhava é que eu comecei a sentir saudades de todo mundo, como nunca havia sentido antes. Gastei muito em telefone: liguei até pro povo do trabalho, que na época eram meus melhores amigos.
Resolvido isso, foi tudo perfeito. Só não gostei tanto assim do mar, mas também tinha uns trechos bem interessantes e agradáveis.
Uma coisa legal é ver a força da tradição gaúcha: o povo toma chimarrão até na praia. Eu não posso falar nada porque sou viciado em café e tomo mesmo no calor aqui de Goiânia, mas é engraçado ver alguém, naquele calor, tomando algo que é tão bom pros dias de frio intenso.
Ao fim dos 3 dias, eu peguei a Lucy na oficina e parti na manhã seguinte. O dono do hotel me fez tirar fotos em tudo que é canto do hotel, provavelmente para eu mostrar pra todo mundo como lá é bonito! Apesar de que na hora das fotos, estava bem nublado e chuvoso, então não deu pra se ter a noção da beleza.
O objetivo do dia era percorrer os 100km até Torres, que na minha opinião é a cidade mais bonita do litoral gaúcho, ao menos dos lugares que eu conheci. Tal percurso é tema do próximo post!
A seguir: Projeto Fat Biker - Um gordo na estrada - Parte VII - Saindo do Rio Grande.
Depois dos eventos do post anterior, ao sair pra estrada novamente, eu me desviei do caminho de Porto Alegre, que eu já conhecia muito bem, e peguei outra estrada, com destino a Cachoeira do Sul, a capital nacional de alguma coisa, mas que agora não lembro do que.
(acabei de pesquisar no Google, é a capital nacional do Arroz! Tinha que ser.)
Tomei um café num posto desses de parada de ônibus e segui viagem. A estradinha era muito bonita, surpreendentemente. Como quase todas as estradas da região, só tinha vacas e plantações de arroz, mas era realmente agradável mesmo assim.
E logo no começo do dia de viagem, eu pude me sentir um cicloturista de verdade!! Caiu um belo toró! Mas no meio da alegria pelo meu batismo, uma decepção: a chuva fez meu ciclocomputador parar e eu perdi todos os dados da viagem até ali. Apagou tudo da memória. E eu não lembrava nem da quilometragem exata, quanto mais de velocidade média, tempo efetivo de pedal, etc.
Bom, a chuva passou e cheguei à entrada da cidade, que era bem bonita (a entrada). Tinha um grande rio, e havia uma praia (de rio, dãã), gente pescando, bem legal. Atravessei a longa ponte e comecei a me informar como fazer pra chegar à rodoviária.

Ponte do Fandango, em Cachoeira do Sul - RS
Não sei por que, mas não foi difícil não hehehe! Será por causa do tamanho da cidade? Deu até pra passear um pouco por ali. Foi uma das cidades que melhor me recebeu. Depois de pedalar um pouco por cidadezinhas vizinhas, fui para a rodoviária de novo, comi e resolvi pegar um busão pra Porto Alegre, que não estava muito longe. Afinal, eu conhecia bem o caminho até a capital gaúcha, como já disse anteriormente, e não tinha nada muito interessante até lá: só vilarejos como Arroio dos Ratos. Acho que eu não ia gostar muito de um lugar chamado Arroio dos Ratos.
A viagem de busão foi bem tranquila e rápida, e deixaram-me embarcar a Lucy numa boa. Mas em Porto Alegre foi um inferno! Cheguei e já estava quase anoitecendo, e descobri que a Freeway, a estrada pra ir pro litoral, por onde eu teria que passar, proíbe trânsito de bikes (ao menos foi o que me disseram), além de ter muitas favelas. Isso me assustou e preferi ir, de busão também, para uma cidade próxima do litoral, uns 80km além. Escolhi ir para Osório, uma cidade com lindos lagos. Mas a rodoviária de Porto Alegre era ruim, ao menos na época, para um cicloturista. Tinha muitas regras. Simplesmente não me deixavam levar a bike de jeito nenhum, a não ser embalada. Mas como eu ia embalar se eu estava viajando com ela? Embalar com o que?
Mandaram-me pra vários lugares (um até me mandou praquele lugar) até que finalmente achei um gaúcho mais simpático que me ajudou da maneira que pôde. Mas não teve jeito. Deixei-o cuidando das minhas coisas, com muito medo de perdê-las, e fui até um lixão ao lado da rodoviária, torcendo para achar uma caixa que servisse para embalar a bicicleta.
Como dizem, “à audácia a sorte ajuda“: depois de me livrar de dois mendigos que queriam me roubar, encontrei uma caixa de bicicleta no alto da pilha. Só tive que escalar o lixo, mas estava tão feliz pela sorte que tive que nem liguei pro fedor e pras minhas companheiras aladas de lixão, as moscas.
Voltei, e o cara que trabalhava na rodoviária me arranjou fita pra eu lacrar a caixa. Desmontei a bike, embalei e lacrei, tudo certinho, e aí me deixaram comprar a passagem pra Osório. Tive um stress na hora do embarque, porque não queriam embarcar, mesmo embalada. No fim, algumas discussões entre eles e acabaram embarcando a Lucy, com sua fedorenta embalagem.
Não sei explicar, mas eu estava numa sensação de extrema felicidade durante a viagem, enquanto admirava a Freeway. Uma sensação de ter ultrapassado um grande obstáculo, ter vencido um grande desafio. Foi gostoso.
É impressionante como a felicidade não depende mesmo do que acontece e sim de como a gente encara isso. Shakespeare disse que “nada é bom ou mau, nosso pensamento é que o faz“.
Tempos depois da viagem eu li “Cem dias entre céu e mar“, livro do Amyr Klink descrevendo sua travessia do Atlântico num barco a remo. Ele citou essa mesma sensação. Logo na saída da costa da África, tudo deu errado, e já de cara ele pegou tempestades fortíssimas numa região em que o mar já é violento por natureza. Dentro da apertadíssima cabine, ele ficava girando junto com o barco, enquanto os mantimentos caiam e se espalhavam por toda a cabine. O barco frequentemente ficava de cabeça pra baixo, mas o sistema de equilíbrio se encarregava de deixar o barco na posição certa novamente. Ele não havia podido testar esse sistema de equilíbrio e o teste veio na marra, na prática. O simples fato de ter funcionado perfeitamente o deixou extasiado. Disse que urrava de alegria, explodia em felicidade.
Imagine. O cara lá, no meio de uma tempestade, e naquela situação toda, e feliz da vida. Mas eu entendi perfeitamente o que ele sentiu!
No post seguinte, relatos de momentos não tão felizes que me aguardavam em Osório…
A seguir: Projeto Fat Biker - Um gordo na estrada - Parte VI - De um momento triste para dias de rei.
Depois do café da manhã na fazenda no município de Caçapava do Sul, de acordo com o que foi contado no post anterior, botei o pé na estrada de novo, e tinha muuuuito chão para percorrer!

Onde eu estava no mapa
Mesmo assim foi gostoso porque a manhã foi de ameaça de tempestade, mas mais uma vez eu escapei dela sem me molhar. Conversei com motoristas de caminhão, passei pela entrada da cidade de Caçapava do Sul. Foi um dia que rendeu. Até que eu cheguei na estrada principal, a BR que liga a Argentina a Porto Alegre. Aí já foi menos tranquilo, pois naquela época o litoral do sul do Brasil era invadido por argentinos e eles são loucos na estrada! E tinham que passar por ali!
E o sol voltou a castigar pesado…
Na hora do almoço, vi que faltavam 24km pra um restaurante. Era o que dizia a plaquinha na estrada. Mas foram 24km extremamente sofridos! Passei por uma subidona louca, dificílima de se vencer com todo aquele sol! Mas eu o fiz com muita bravura e logo logo estava me esbaldando numa churrascaria, vendo o caldeirão do Huck. Cansado daquele jeito, qualquer coisa estava valendo!
Dei uma jiboiada depois do almoço, e fui conversar com um povo no posto de gasolina ligado ao restaurante. Bom, quem conhece o tímido aqui entendeu que na verdade eles que vieram falar comigo. Mas aproveitei o papo, pois queria esperar o sol baixar um pouco.
Eles me ajudaram a organizar a bagagem, já que eu tive um problema com as amarras.
Quando o sol baixou, estava mó cara de tempestade, ventania das brabas, nuvens escuras. E eu decidi seguir meu rumo.
No fundo eu estava louco pra tomar chuva! Mas de novo ela desviou de mim!
Eu pretendia ficar no Hotel Papagaio, que fica no meio da estrada. Calculei quantos quilômetros faltavam, mas chegando no local calculado, descobri que tinha errado! Ainda faltavam 10km!
Depois de muito pedalar, morto de cansaço, eu cheguei às 21h em ponto ao hotel.
E descobri que ele estava lotado de argentinos!!!!!!!!
E agora? Não sobrara uma vaguinha sequer pra mim! O que eu ia fazer? Não tinha onde montar a barraca por ali também! E já estava escuro!
Fui informado que, mais uns 5km à frente, havia um hotelzinho desses de posto de gasolina. Realmente, exatos 5km depois, pedalados totalmente no escuro (eu tinha farol mas não tinha montado na Lucy, pois não pretendia pedalar à noite aquele dia), eu cheguei ao hotelzinho. Bem lixão, mas tinha um chuveiro (frio), comida, e um delicioso colchão, que surpreendentemente era novo. Tudo que eu precisava.
Custou 8,00.
Desabei e, pra variar, dei mais uma mancada com o sono. Eu tinha deixado pago porque pretendia sair bem cedo, antes do povo acordar, e avisei a mulher do hotel dos meus planos. Mas perdi a hora e ela foi bater no meu quarto desesperada, achando que tinha acontecido algo, porque eu falei que ia sair cedo e ainda estava no quarto!
Mas ela ficou aliviada ao me ver vivo, apesar de meio zumbi, pronto pras aventuras que serão contadas no próximo post.
A seguir: Projeto Fat Biker - Um gordo na estrada - Parte V - Chafurdando no lixão.
Após acordar no motel com a Lucy, tomar o café da manhã e enrolar bastante, saí finalmente pra pedalar. Na verdade, estava é louco pra passar mais um dia no motel-pousada, só dormindo.
E esse dia foi punk! Muito sol, muitas subidas, pouca sombra. A única sombra foi uma lojinha de beira de estrada, a única de todo o percurso até Bagé. Mas foi muito legal: descobri que a dona já tinha morado em Curitiba e fiquei conversando um tempo, na sombra, tomando água gelada!
Mas depois, só calor. Era tão intenso que eu não conseguia comer, só bebia a minha água quente. Até que uma hora eu tive tonturas e achei que ia desmaiar. Já era final da tarde, mas ainda tinha muito sol. Eu me forcei a comer uma maçã, mole como uma manga. A refeição mais difícil da minha vida. Mas quase que instantaneamente eu melhorei e pude terminar a missão do dia: chegar em Bagé!
Na entrada de bagé, liguei pro meu amigo que me ensinou a chegar ao bairro dele. Consegui chegar à casa dele com facilidade, até porque 3 anos depois eu ainda me lembrava bem da cidade. Cidades do interior não mudam muito.
Passei 3 dias em bagé e continuei a aventura. Seria um dos dias mais marcantes! Foi mais um dia de calor intenso, mas com uma estrada mais arborizada. Eu pretendia pernoitar nas proximidades de um posto de gasolina, a única coisa que existia em 200km de estrada!!! Mas descobri que o posto ficava muito perto de Bagé, uns 30km, nem valia a pena pernoitar lá. Cheguei bem cedo ao posto, cheguei a almoçar lá. Tomei coragem e botei o pé na estrada, sem saber o que seria de mim ao final do dia.
Mas já não havia sol. O tempo estava fechado, e o vento quase me derrubava da bike. Bateu até um certo medo de pedalar na tempestade, apesar de eu estar louco pra pegar chuva e me sentir um cicloturista de verdade!
Mas a tempestade desviou e não teve chuva alguma. No fim do dia, a paisagem mudou, foi muito bom ver morros de novo, formações rochosas, vegetação. Chega de vaca e plantação de arroz, né?
Eu ainda precisava achar um lugar pra acampar e, quando eu cheguei ao rio em cujas margens eu pretendia pernoitar, descobri que até o rio é propriedade particular!!
Eu não queria invadir nenhuma fazenda pra montar a barraca, e não sabia mais o que fazer, enquanto o pôr-do-sol se aproximava. Acabei perguntando para um peão que eu vi na estrada, todo vestido de gaúcho típico, se ele sabia algum lugar onde eu podia acampar. Ele me indicou uma fazenda, apontando uma casa branca ao longe, numa estradinha de terra, dizendo que o pessoal era super gente boa e me deixariam montar a barraca perto da estrada, na propriedade deles.
Fui até lá. Vi um gaúcho todo caracterizado também, de idade, na varanda da casa. Chamei-o e ele todo desconfiado veio falar comigo. Disse que não podia me dar permissão porque as terras eram do filho dele, mas que esse filho logo chegaria. Começou a contar histórias e mais histórias que diziam o porquê de ele ser tão desconfiado.

Um gaúcho caracterizado da mesma forma que o que me recebeu
E falava, falava, falava. Depois de algum tempo de “conversa” (eu falei muito sim, um monte de “humrum” e “sei”), ele me chamou pra entrar na propriedade e guardar a bike. Mais um pouco de “conversa” sobre a política do Rio Grande do Sul, a economia do RS, a história do RS, as belezas do RS, a bravura do gaúcho, etc, e ele me chamou pra conhecer a família e tomar um chimarrão. Nisso chegou o filho dele e este gostava de “conversar” tanto quanto o pai. Os dois blablablavam sem parar e num dado momento até falaram que eu era muito bom de papo, que estavam adorando a conversa!
O que não se ganha com o silêncio, hein?
Começaram então a preparar carne pra fazer um jantar especial pra mim. Chamaram os vizinhos pra conhecer o cara de Curitiba que estava viajando de bicicleta, e começou a juntar gaúcho de tudo que é lado, todos falando das tradições locais.
Uma hora eu tive que interromper, pois já era perto das 21h e iria escurecer, pra perguntar se eu podia montar minha barraca na propriedade. O filho falou:
- Não, não pode.
E prosseguiu:
- Tu vais é dormir aqui em casa, tchê!
E arrumou um quarto pra mim.
No dia seguinte, queriam que eu ficasse pro almoço, mas eu não pude, então capricharam no café da manhã. Foi muito legal lá. A água vinha de nascentes (o que me rendeu os vermes que eu tive que tratar depois - ou talvez tenha sido a carne), não tinha luz elétrica, mas o povo foi muito atencioso.
A viagem estava sendo perfeita!
E no post seguinte, o relato continua.
A seguir: Projeto Fat Biker - Um gordo na estrada - Parte IV - O Hotel Lotado